Cacá Diegues morreu em fevereiro de 2025. O Cinema Novo perdeu mais um. Mas antes de morrer, Cacá deixou um filme que poucos viram e que merece ser redescoberto. Os Herdeiros, de 1969, está disponível inteiro no YouTube, e é uma experiência.
A primeira coisa que se nota é que Os Herdeiros é Terra em Transe com looks incríveis. A estrutura é a mesma: uma alegoria operística da história política brasileira, recheada de traições, de homens que vendem seus princípios em troca de poder, de gritos e de tableaux vivants. Mas onde Glauber filmava com brutalidade e sujeira, Diegues filma com luxo. E o responsável por esse luxo tem nome: Luiz Carlos Ripper na cenografia e Fernando Bedê no figurino. O resultado é um filme que parece O Rei da Vela encontrando Terra em Transe numa festa tropicalista. Pisos de ladrilho xadrez como os de O Câncer, de Glauber, mas aqui usados como composição plástica, como cenografia de ópera. Tudo é excessivo, tudo é teatral, tudo é lindo.
E a câmera é de Dib Lutfi. O mesmo Dib que fotografou Terra em Transe para Glauber. O fato de que o mesmo olho está por trás dos dois filmes torna a comparação inevitável e fascinante. Se em Terra em Transe Dib filmava o delírio político com câmera na mão, nervosa e suja, aqui ele compõe planos abertos, majestosos, quase solenes. A mesma mão, dois mundos visuais.
Ripper, que poucos anos depois destruíria o palco italiano do Teatro Ipanema e construiria no lugar uma passarela imersiva, transformando para sempre a cenografia brasileira, aqui ainda está no cinema. Mas já se vê nele o gesto de quem pensa o espaço como uma extensão do corpo do ator, de quem recusa a neutralidade do cenário. Nos Herdeiros, o cenário não é fundo. O cenário é personagem.
E os atores. Sérgio Cardoso, que veio do teatro e que este seria seu último filme antes de morrer em 1972, carrega o papel de Jorge Ramos com uma intensidade descontrolada, de ator de palco filmado em close. Odete Lara. Grande Otelo, presença sempre monumental. E participações de Nara Leão, que na época era casada com o próprio Cacá, de Caetano Veloso, de Dalva de Oliveira, e até de Jean-Pierre Léaud, que aparece como se tivesse se perdido num set da Nouvelle Vague e caído dentro do Cinema Novo.
O filme conta a saga de um jornalista que vai da esquerda à direita, de comunista perseguido a político corrupto, da Revolução de 1930 ao Golpe de 1964. É, no fundo, uma releitura do papel do jornalista e da mídia na história do país.
Os Herdeiros está no YouTube. Assista.

Anna Hartmann, atriz e diretora, nasceu em Porto Alegre, Brasil.
Na televisão, atuou em grandes produções de empresas mundialmente reconhecidas como Globo, HBO, FOX, MTV, Sony International e Netflix. Ela estrelou a série Reality Z (2020) da Netflix, coproduzida por Charlie Brooker (Black Mirror), e acumulou onze créditos na tela, incluindo dois em grandes longas-metragens, produzidos pela RT Features e Mercado Filmes. É Bacharel em Comunicação e Cinema pela FAAP. Seu primeira curta-metragem, Meu Outro Nome é Luiza, circulou internacionalmente e estreou no Brasil na Mostra de Cinema de Tiradentes (2022).
