Por Juliana Braescher
Como advogados, precisamos encarar uma pergunta incômoda: os nossos contratos estão ajudando o cliente a decidir com segurança, ou apenas cumprindo um ritual? Quando o leitor hesita, pede “tradução” ou evita fazer perguntas por vergonha, não é falta de inteligência, é falha de experiência do usuário (UX). E contrato ruim de ler pode se tornar um cliente perdido.
Por décadas, o “juridiquês” foi tratado como um selo de inteligência e sabedoria, mas na prática, ele cria atrito. Frases longas, termos arcaicos e negativas em cascata tornam o texto opaco. O cliente não consegue localizar o que importa (preço, prazos, multas), nem formar uma memória clara do acordo. O resultado? Insegurança. Se o contrato é um produto, a sua usabilidade é um requisito jurídico, não cosmético.
A boa notícia é que há caminho testado para melhorar. O movimento de linguagem simples, já incorporado por diversos órgãos públicos mundo afora, parte de um princípio direto: escrever para que o leitor encontre, entenda e use a informação. Nos Estados Unidos, as Federal Plain Language Guidelines tornaram essa meta operacional, com recomendações objetivas: voz ativa, termos cotidianos, estrutura lógica, títulos descritivos e eliminação de jargões desnecessários. O espírito é o mesmo que guia bons sites e aplicativos: menos ruído, mais clareza.
Em contratos, isso se traduz em escolhas concretas. O cliente localiza rápido o que precisa e compreende sem intérprete. Veja um exemplo na prática:
Antes:
“O preço pactuado perfaz a monta de R$ 4.700,00, reajustável pelo IPCA, observado o interregno mínimo anual.”
Depois:
“Preço: R$ 4.700,00.
Reajuste anual: uma vez por ano, pelo IPCA.”
A linguagem simples também melhora a eficiência do escritório. Contratos claros diminuem idas e vindas de e-mail, aceleram fechamentos e liberam tempo do advogado para o que tem mais valor: estratégia, negociação, prevenção de riscos. Quando o documento se explica sozinho, a reunião não vira sessão de decifração. E, ao contrário do mito, simplificar não empobrece o texto jurídico, apenas retira o que sobra para que o essencial apareça.
Um caso emblemático vem da GE Aviation (Digital Solutions), que substituiu sete modelos de contratos excessivamente complexos, cada um com mais de 100 páginas, por um único contrato de cinco páginas, escrito em linguagem simples. O impacto foi direto no negócio: o tempo de negociação caiu cerca de 60%, alguns clientes assinaram sem fazer qualquer alteração e não houve disputas decorrentes da redação. O projeto, liderado pelo general counsel Shawn Burton, mostra que clareza não é estética: ela aumenta velocidade, reduz atrito e melhora a confiança no momento da assinatura.
As diretrizes de linguagem simples oferecem um roteiro prático para redigir com foco no usuário:
- organize o contrato por tarefas do leitor (o que compro? quanto custa? quando começa? como encerro?)
- Nomeie cláusulas como respostas a essas perguntas
- Use listas para números e prazos
- Evite negativas duplas
- Quando precisar de termo técnico, explique em uma linha.
Esse desenho informacional, aliado à linguagem clara, transforma o contrato em mapa, não em labirinto.
Há, ainda, um ganho de confiança. Transparência textual comunica boa-fé. O cliente percebe que não há pegadinhas escondidas em parágrafos maciços. Isso reduz resistência a assinar, diminui “letras miúdas emocionais” e melhora a relação ao longo do ciclo do serviço. Cláusulas de confidencialidade, dados pessoais e limites de responsabilidade, tradicionalmente densas, podem ser precisas e legíveis. Simplicidade é cortesã da precisão, não sua adversária.
Em síntese, contratos claros não são tendência estética, são requisitos de qualidade jurídica. Ao aproximarmos nossa prática das Federal Plain Language Guidelines, damos um passo profissional e ético: respeitamos o leitor, prevenimos disputas e entregamos um serviço melhor. O resultado aparece onde mais importa, na assinatura consciente, no negócio que prospera e no cliente que entende o que está pactuando. Linguagem simples é, antes de tudo, justiça aplicada ao texto.
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