Por Juliana Braescher
Por muito tempo, a imagem do Judiciário esteve associada a pilhas de processos, carimbos e corredores lotados. Mas, silenciosamente, essa paisagem vem mudando. Nos últimos anos, o Brasil se tornou referência mundial em digitalização da Justiça. Segundo o relatório Justiça em Números 2024, mais de 99% dos processos novos já nascem eletrônicos, e 90,6% do acervo total tramita no meio digital. A tecnologia, que antes era vista como suporte, passou a ser motor de produtividade.
O dado é impressionante quando lembramos que, em 2009, apenas 7% dos processos eram eletrônicos. Hoje, quinze anos depois, 253 milhões de casos já passaram pelos sistemas digitais. Um salto que muda o modo de trabalhar e de pensar o serviço judicial. Se antes o desafio era mover o papel, agora o desafio é mover a informação com clareza, rapidez e segurança.
Mas a transformação não é apenas técnica. O Programa Justiça 4.0, do Conselho Nacional de Justiça, redefiniu o conceito de acesso. Iniciativas como o Juízo 100% Digital, o Balcão Virtual e o Domicílio Judicial Eletrônico diminuem distâncias, reduzem filas e permitem que atos processuais ocorram de qualquer lugar. São automações que aliviam cartórios e secretarias, liberando servidores para atividades de maior valor, aquelas que exigem análise e decisão, não repetição.
Essas mudanças também revelam um ponto essencial: automação não é sinônimo de substituição humana, mas de reorientação. Quando um sistema identifica automaticamente o tipo de petição, confere anexos obrigatórios e avisa sobre erros de protocolo antes do envio, ele economiza horas de retrabalho e aumenta a segurança jurídica. É tecnologia aplicada à eficiência e, acima de tudo, à experiência do usuário.
A mesma lógica aparece na expansão da inteligência artificial no Judiciário. O CNJ já mapeia mais de 140 projetos de IA em operação ou desenvolvimento, a maioria dedicada a tarefas de triagem, classificação e priorização de processos. A Resolução 615/2025 consolidou diretrizes éticas e de governança, garantindo que as decisões automatizadas tenham supervisão humana e base transparente. É o uso responsável da IA: assistente, não juiz.
Apesar dos avanços, a tecnologia sozinha não basta. Dados do Justiça em Números mostram que, embora a produtividade tenha crescido — 35 milhões de processos baixados em 2023 —, o acervo ainda é gigantesco, com mais de 83 milhões de casos pendentes. A digitalização reduziu o tempo médio de tramitação, mas o fluxo ainda é desafiador. E é nesse ponto que entra a automação inteligente: simplificar tarefas de apoio, padronizar comunicações e reduzir gargalos operacionais.
O movimento é semelhante ao que acontece nos Estados Unidos. A pesquisa Staffing, Operations and Technology 2025, realizada pela Thomson Reuters em parceria com o National Center for State Courts, mostra que 68% dos tribunais americanos enfrentaram escassez de pessoal no último ano e que 78% relatam atrasos semanais nas audiências. A automação é vista como ferramenta para aliviar equipes sobrecarregada, não apenas com IA, mas com processos claros, sistemas integrados e formulários fáceis de usar.
O estudo também alerta para um obstáculo comum: literacia digital. Mesmo em tribunais com videoconferências consolidadas, 38% apontam que a baixa familiaridade dos usuários com tecnologia ainda é barreira. É um lembrete valioso: de nada adianta o sistema ser moderno se o texto da tela ainda for confuso. Automação sem clareza é burocracia digital.
Quando cruzamos as duas realidades, o recado é o mesmo. A próxima fronteira do Judiciário não é apenas mais tecnologia, mas tecnologia bem comunicada, com fluxos intuitivos, microtextos orientativos e linguagem simples em cada etapa.
A automação que realmente alivia cartórios é aquela que resolve antes de perguntar, que explica antes de travar. É o botão que avisa o que falta, o e-mail que guia o usuário passo a passo, o sistema que aprende com o erro e devolve clareza.
O Judiciário brasileiro tem os pilares certos: base digital sólida, programas estruturantes e governança ética. Já o sistema norte-americano mostra, com o Staffing, Operations and Technology Report, que os desafios são semelhantes. Equipes sobrecarregadas, necessidade de automação inteligente e barreiras de literacia digital.
Ambos avançam por caminhos diferentes, mas com um mesmo destino: tornar a Justiça mais acessível, previsível e humana. A tecnologia, quando bem aplicada, não substitui o olhar humano, ela o amplia. No Brasil, nas Américas e além, o futuro do Judiciário será medido menos pelo número de processos julgados e mais pela experiência de quem precisa ser ouvido e compreendido.
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