Em 30 de junho de 2025, a polícia de Deerfield Beach, na Flórida, foi acionada por vizinhos que relataram distúrbios em uma residência local. O incidente resultou na prisão de Godofredo Castro de Oliveira, conhecido como Pepey, ex-lutador do UFC de 38 anos, natural do Ceará, por múltiplas acusações relacionadas à violência doméstica contra sua esposa, Samara Mello, também brasileira. As acusações incluem sequestro, agressão doméstica por estrangulamento, obstrução de comunicação e danos à propriedade.
Segundo documentos judiciais, o agressor causou lesões corporais visíveis na vítima e a manteve em cárcere privado, impedindo-a de buscar ajuda. Dias após o incidente, Mello utilizou as redes sociais para se identificar publicamente como “sobrevivente de violência doméstica”, compartilhando sua experiência e defendendo maior conscientização sobre o tema: “Precisamos parar de tratar isso como segredo. A violência cresce no silêncio.”
Este caso ilustra um padrão estatístico preocupante que afeta a comunidade brasileira na Flórida. Dados do Miami-Dade County, região com a maior concentração de brasileiros no estado, indicam que 49,8% das mulheres imigrantes brasileiras experienciam violência doméstica, taxa 2,9 vezes superior à média nacional americana de 17%. Estes indicadores posicionam as mulheres brasileiras entre os grupos demográficos de maior vulnerabilidade nos Estados Unidos.
Uma comunidade em silêncio
A Flórida abriga entre 295.000 e 440.000 brasileiros, sendo que 54,5% são mulheres – aproximadamente 218.000 brasileiras que escolheram este estado como lar. Elas se concentram principalmente em quatro condados: Broward (36%), Miami-Dade (30%), Orange County em Orlando (11%) e Palm Beach (8%). São mulheres educadas – 35% possuem ensino superior -, trabalhadoras – 62% estão empregadas -, e sonhadoras que buscaram nos EUA uma vida melhor.
Mas os sonhos podem se transformar em pesadelos quando o amor se torna prisão. Em 2020, a Flórida registrou 106.515 crimes de violência doméstica, com Miami-Dade County liderando tristemente as estatísticas com 9.357 casos – o maior número de todos os condados do estado. Para nossas brasileiras, esses números ganham contornos ainda mais dramáticos.
Os dados superam a pandemia
Os dados oficiais da Flórida revelam uma tendência alarmante que deveria tirar o sono de toda nossa comunidade. Entre 2014 e 2023, os casos de violência doméstica no estado cresceram 12,4%, saltando de 63.546 para 71.431 casos anuais – o maior número registrado na década. Em Miami-Dade County, onde vive a maior concentração de brasileiras, os números se mantiveram consistentemente altos, com mais de 7.500 casos por ano.
O que mais preocupa é que 2023 marcou uma aceleração preocupante. Após uma queda em 2020, provavelmente devido à subnotificação durante a pandemia, quando o isolamento dificultou as denúncias, os casos explodiram. O crescimento de 6,9% em 2021, seguido por aumentos consistentes, mostra que a violência não apenas retornou aos patamares pré-pandemia, mas os superou.
Para as mulheres brasileiras, esses números ganham uma dimensão ainda mais dramática. Enquanto a média nacional americana de violência doméstica gira em torno de 17%, as brasileiras enfrentam uma realidade 2,9 vezes mais perigosa, com 49,8% sofrendo algum tipo de violência. É como se a cada duas brasileiras que você conhece, uma esteja vivendo em um relacionamento com violência doméstica.
O Preço da Vulnerabilidade
Por que as brasileiras estão mais vulneráveis no exterior do que estariam no Brasil? A resposta está na intersecção cruel entre gênero, imigração e isolamento. Quando uma brasileira chega à Flórida, por exemplo, ela frequentemente depende do parceiro não apenas emocionalmente, mas legalmente. Muitas têm seu status imigratório vinculado ao relacionamento, criando uma dependência que agressores exploram sem piedade.
“Se você me denunciar, vai ser deportada”, é uma ameaça comum que ecoa em lares onde deveria haver amor. O medo da deportação se torna uma prisão invisível, mais forte que qualquer grade. Somam-se a isso as barreiras linguísticas que dificultam o acesso a serviços de proteção, o isolamento da família que ficou no Brasil, e a dependência econômica em um país onde recomeçar do zero já é desafiador.
A distância da rede de apoio familiar transforma o parceiro na única âncora emocional, criando uma dependência perigosa. Sem mãe, irmã ou amiga de infância por perto, muitas mulheres se veem completamente isoladas quando a violência começa.
Cicatrizes Invisíveis
O trauma psicológico das brasileiras vítimas de violência doméstica na Flórida tem características únicas. Além da dor física e emocional comum a todas as vítimas, elas carregam o peso adicional do desenraizamento. A violência não apenas quebra a autoestima, mas também destroça o sonho americano pelo qual tanto lutaram.
O medo de denunciar é multiplicado por fatores que vão além do medo comum de represálias. Há o medo da deportação, da perda do status legal, da separação dos filhos que podem ter nascido nos Estados Unidos. Há também o medo de não ser compreendida por autoridades que não falam português, de não conseguir explicar as nuances culturais que tornam a violência ainda mais complexa.
Muitas desenvolvem depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático, mas hesitam em buscar ajuda psicológica por não encontrarem profissionais que falem português ou compreendam sua realidade cultural. O isolamento se aprofunda, e a violência se perpetua.
Redes de Apoio
Felizmente, a comunidade brasileira na Flórida não está completamente desamparada. O Consulado-Geral do Brasil em Miami mantém o programa “Mulher em Pauta” oferecendo apoio específico para as brasileiras. O Grupo Mulheres do Brasil – Núcleo Sul da Flórida também trabalha para conscientizar e apoiar vítimas de violência.
A Flórida possui 41 centros certificados de atendimento à violência doméstica, além de linhas de apoio 24 horas (1-800-500-1119 estadual e 1-800-799-7233 nacional). Para imigrantes, existe proteção especial através da Lei VAWA (Violence Against Women Act) que oferece serviços essenciais como abrigo, linhas de emergência, apoio jurídico e programas educacionais.
Um Chamado à Ação
A violência doméstica contra mulheres brasileiras na Flórida é uma crise silenciosa que exige ação urgente. Precisamos de mais programas culturalmente específicos, de profissionais que falem português nos serviços de proteção, e de campanhas de conscientização dentro da própria comunidade brasileira.
É necessário que líderes comunitários, empresários brasileiros, influenciadores digitais e organizações se unam para quebrar o silêncio. Precisamos falar abertamente sobre violência doméstica em nossas igrejas, associações, grupos de WhatsApp e redes sociais.
As políticas públicas também devem ser repensadas. É fundamental que haja maior integração entre serviços de imigração e proteção à mulher, que profissionais sejam treinados para atender especificamente imigrantes, e que campanhas de prevenção sejam desenvolvidas em português e adaptadas à realidade cultural brasileira.
Se você ou alguém que conhece está sofrendo violência doméstica, busque ajuda:
- Emergência: 911
- Linha Nacional: 1-800-799-7233
- Linha da Flórida: 1-800-500-1119
- Consulado do Brasil em Miami: (305) 285-6200
Lembre-se: você não está sozinha, e merece uma vida livre de violência.
Artigo: Joice Costa Nemer Caldeira Brant
Advogada de Direito Internacional das Famílias
Presidente do Centro de Direito Internacional
Fontes consultadas
G1 Ceará. “Lutador cearense é preso nos Estados Unidos por agredir companheira.” 03 de julho de 2025. https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2025/07/03/lutador-cearense-e-preso-nos-estados-unidos-por-agredir-companheira.ghtml
FL Health CHARTS – Florida Department of Health. “Domestic Violence Offenses – Ten Year Report.” 2024. https://www.flhealthcharts.gov/ChartsDashboards/rdPage.aspx?rdReport=NonVitalIndNoGrp.TenYrsRpt&cid=312
MMA Junkie. “Ex-UFC fighter Godofredo Pepey arrested for kidnapping, domestic violence; wife speaks out.” 03 de julho de 2025. https://mmajunkie.usatoday.com/story/sports/ufc/2025/07/03/ufc-veteran-godofredo-pepey-arrested-kidnapping-domestic-violence-wife-speaks-florida-brazil/84466948007/
Instituto Diáspora Brasil. “Brasileiros na Flórida.” Agosto de 2022. https://institutodiasporabrasil.org/2022/08/17/brasileiros-na-florida/
Florida Department of Children and Families. “Domestic Violence Statistics 2020.” https://www.myflfamilies.com/services/abuse/domestic-violence/resources/domestic-violence-statistics
Miami-Dade County Government. “Domestic Violence Facts & Statistics.” https://www.miamidade.gov/global/initiatives/domesticviolence/facts-statistics.page
Migration Policy Institute. “Brazilian Immigrants in the United States.” https://www.migrationpolicy.org/article/brazilian-immigrants-united-states
Florida Department of Children and Families. “2024 Domestic Violence Annual Report.” Janeiro de 2025. https://www.myflfamilies.com/document/61781
Consulado-Geral do Brasil em Miami. “Programa Mulher em Pauta.” https://miami.itamaraty.gov.br/pt-br/
National Domestic Violence Hotline. “Statistics.” https://www.thehotline.org/stakeholders/domestic-violence-statistics/
A Florida Review é mais do que uma revista, é uma entidade cultural com mais de quatro décadas de história, fundada por Chico Moura e fortalecida sob a liderança de Rodrigo Lisboa Soares. Desde o final dos anos 1980, expandiu seu impacto dentro e fora dos Estados Unidos, consolidando-se como referência editorial e ponte entre culturas. A Florida Review serve hoje a mais de um milhão de brasileiros ao redor do mundo, promovendo informação responsável, pensamento crítico e iniciativas filantrópicas que valorizam a identidade e a diversidade brasileira. Guiada por um compromisso inegociável com a verdade, livre de viés ou partidarismo, nossa missão é oferecer conteúdo relevante, atual e consciente que informa, conecta e inspira. Não somos apenas uma publicação digital: somos um patrimônio vivo da comunidade brasileira no exterior.
