A abertura da Assembleia Geral da ONU é, tradicionalmente, um momento de forte simbolismo diplomático. Em setembro de 2025, a 80ª sessão foi inaugurada em Nova Iorque sob o tema “Melhor juntos: 80 anos e mais pela paz, desenvolvimento e direitos humanos”, refletindo tanto a memória histórica da criação da organização quanto a busca por respostas coletivas a crises contemporâneas.
O início dos trabalhos coube à presidente da Assembleia, Annalena Baerbock, e ao secretário-geral, António Guterres, que definiram as linhas gerais do encontro: reafirmar o papel da ONU como fórum de diálogo e cooperação, defender os princípios da Carta de 1945 e insistir na necessidade de maior solidariedade entre os Estados-membros.
Desafios à ordem internacional
Um dos pontos mais recorrentes foi a defesa do multilateralismo, conceito que designa a cooperação estruturada entre países em instâncias internacionais. Guterres advertiu para o risco de retrocessos na governança global, denunciando o enfraquecimento das normas multilaterais diante da proliferação de sanções unilaterais e de intervenções militares sem aval da ONU.
Também foi mencionada a necessidade de reformar o Conselho de Segurança, cuja estrutura permanece inalterada desde 1945. A crítica central foi que a composição atual não reflete a realidade geopolítica contemporânea e restringe a representatividade de regiões inteiras, como América Latina e África.
Crises regionais em destaque
Dois conflitos dominaram os discursos da abertura:
- Gaza: Diversos líderes apontaram para a gravidade da situação humanitária, classificando-a como uma das maiores crises de direitos humanos dos últimos anos. Foram feitas denúncias de violações do direito internacional humanitário e pedidos de cessar-fogo imediato, além de apelos para que a ONU recupere sua capacidade de intermediar negociações.
- Ucrânia: A guerra foi mencionada como exemplo da persistência de uma lógica de força que mina a estabilidade internacional. Discursos destacaram que a continuidade do conflito compromete a segurança europeia e global, exigindo esforços diplomáticos mais consistentes e coordenação internacional para viabilizar uma saída negociada.
Fome, desigualdade e desenvolvimento sustentável
O combate à fome e à pobreza surgiu como prioridade compartilhada. Dados da FAO e do Programa Mundial de Alimentos foram citados para lembrar que mais de 600 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar. Líderes ressaltaram que a desigualdade não é apenas um desafio social, mas também um fator de instabilidade política e de fragilidade das democracias.
Houve ainda menções ao financiamento ao desenvolvimento, com cobranças para que países desenvolvidos ampliem recursos destinados à cooperação internacional, especialmente em regiões mais afetadas por crises econômicas e climáticas.
Mudanças climáticas e agenda ambiental
A crise climática ocupou espaço central na abertura da Assembleia. Foram citados episódios recentes de enchentes, secas e incêndios em diferentes continentes, usados como exemplo da urgência de medidas globais. Vários líderes defenderam a implementação dos compromissos do Acordo de Paris e destacaram a necessidade de cooperação financeira para apoiar países em desenvolvimento na transição energética.
Também foi lembrada a COP30, marcada para 2025 em Belém (Brasil), como oportunidade de reforçar compromissos internacionais com metas de desmatamento zero e neutralidade de carbono.
Tecnologia e regulação digital
A regulação das grandes empresas de tecnologia apareceu como um novo eixo de debate. Discursos enfatizaram o papel crescente das plataformas digitais na disseminação de informações falsas, na violação de privacidade e até no enfraquecimento de instituições democráticas. A defesa foi por uma regulação internacional que estabeleça padrões comuns de proteção de dados e respeito aos direitos humanos no ambiente digital.
A abertura da 80ª Assembleia Geral demonstrou que, apesar das divisões entre países e blocos, existe uma percepção comum de que os problemas globais, como as guerras, mudanças climáticas, desigualdade, e crise digital, não podem ser solucionados de forma isolada.
A ONU, mesmo fragilizada, foi reafirmada como espaço essencial para a busca de soluções coletivas. Os discursos inaugurais, mais do que expor divergências, serviram para mapear prioridades e indicar que a agenda internacional seguirá marcada por três eixos centrais: paz e segurança, justiça social e climática, e regulação global de novas tecnologias.
Emanuel Farias é formado em Relações Internacionais e atua na área de marketing internacional e produção de conteúdo digital. Já trabalhou com tradução, atendimento internacional e branding, com foco em comunicação intercultural e posicionamento estratégico.
