Pela Equipe Editorial da Flórida Review
Depois de mais de dois séculos no bolso, no carro, nas gavetas e nas caixinhas de doação dos supermercados, o penny, a famosa moeda de um centavo dos Estados Unidos, finalmente se despede de vez da circulação. A decisão, anunciada pelo governo federal, marca o fim de um símbolo cultural e econômico que acompanhou gerações de americanos desde 1793. Para muitos brasileiros que vivem ou investem nos Estados Unidos, entender o peso dessa mudança ajuda a compreender como o país lida com sua própria história monetária e com a modernização da economia.
O penny nasceu no fim do século XVIII e foi a primeira moeda oficial produzida pelo recém criado United States Mint. Imortalizado com o rosto de Abraham Lincoln, ele se tornou parte do imaginário americano, presente em expressões populares como “a penny for your thoughts” e em tradições, como achar um penny no chão para atrair sorte. Apesar disso, nos últimos anos ele se transformou mais em um incômodo do que em um recurso útil. A inflação corroeu tanto seu valor real que praticamente nada pode ser comprado com apenas um centavo. Para muitos consumidores, lojas e bancos, o penny se tornou apenas um peso, algo que acumula sem propósito e raramente volta ao fluxo econômico.
A decisão de encerrar a produção não surgiu do nada. Fabricar cada penny custa mais do que o próprio valor da moeda, algo semelhante ao que acontecia no Brasil com moedas de um centavo e de cinco centavos em determinados períodos. Aqui, os brasileiros se acostumaram a ver moedas “sumirem” com o tempo, perdendo utilidade diante de uma economia que se ajusta às mudanças de preços. Nos Estados Unidos, no entanto, a tradição e o simbolismo do penny retardaram esse movimento por décadas. Ainda assim, os custos acumulados para produzi lo e mantê lo em circulação se tornaram injustificáveis. Em 2024, cada penny custava quase o dobro do seu valor nominal para ser produzido, gerando um gasto anual gigantesco para os cofres públicos.
Com o fim da moeda, transações passarão a ser arredondadas em dinheiro físico, algo que já ocorre naturalmente em países como Canadá e Austrália, que abandonaram suas moedas de menor valor há anos. Nas compras feitas por cartão ou meios digitais, nada muda. O impacto para o consumidor médio é mínimo, mas para o governo representa economia, eficiência e alinhamento com a realidade financeira do país. Além disso, especialistas apontam que o fim do penny pode incentivar ainda mais a transição para pagamentos eletrônicos, tendência que já ganha força entre jovens e imigrantes acostumados à praticidade dos meios digitais.
A despedida do penny também revela um traço interessante da cultura americana. Mesmo sendo quase inútil economicamente, a moeda carregava valor emocional. Muitos americanos crescem juntando pennies em potes, usando em máquinas de pressão que moldam lembranças turísticas ou colecionando edições comemorativas. Seu fim marca uma transição simbólica entre tradição e modernidade, entre nostalgia e pragmatismo. É o país reconhecendo que até sua história precisa se atualizar.
Para quem vem do Brasil, essa mudança pode parecer familiar. O Real já passou por diversas adaptações e períodos de readequação monetária, e moedas pequenas naturalmente desapareceram do cotidiano. A diferença é que, nos Estados Unidos, cada transformação é acompanhada de debates intensos, análises econômicas e reflexões culturais sobre identidade nacional. O penny não era apenas um centavo era uma memória em miniatura.
Agora, ele se torna oficialmente parte da história. Um capítulo que durou 232 anos e que se encerra de forma coerente com a realidade econômica do século XXI. O penny se despede, mas sua imagem permanecerá na memória coletiva de um país que valoriza seus símbolos, mesmo quando eles perdem sua função prática.
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