O Brasil tem um hábito nas grandes conversas globais: abrir a sessão de discursos na Assembleia Geral da ONU, uma tradição que vem dos anos 1950. Essa vocação para “puxar o debate” ajuda a explicar a expectativa em torno de outro palco que, em novembro, terá sotaque brasileiro: a COP30, que acontecerá em Belém, no coração da Amazônia.
A COP30 está marcada para 10 a 21 de novembro de 2025, no Hangar Centro de Convenções da Amazônia, em Belém (Pará). É a primeira vez que a conferência do clima desembarca na maior floresta tropical do planeta, e isso não é detalhe: levar o encontro para a Amazônia pretende aproximar a discussão de quem vive os efeitos da devastação e de quem protege a floresta no dia a dia. Também será a COP que abre um novo ciclo de metas nacionais de clima (NDCs) sob o Acordo de Paris, cobrando dos países planos mais claros e verificáveis para corte de emissões.
Por que a Amazônia? E por que agora?
A Amazônia é decisiva por dois motivos simples e diretos: segura carbono (evita que ele vá para a atmosfera) e faz chover (os chamados “rios voadores” influenciam o regime de chuvas na América do Sul). Quando a floresta cai, piora a crise climática e desorganiza a agricultura muito além do Norte do Brasil. Por isso, os olhos estarão voltados a compromissos sobre desmatamento zero, combate a crimes ambientais e financiamento para manter a floresta em pé com soluções práticas, não só com discursos.
Se, por um lado, o Brasil chega com queda expressiva do desmatamento em 2023 e 2024, por outro, o mundo segue fora da trajetória para cumprir a meta global de desmatamento zero na mesma década, o que eleva a pressão sobre a COP30. É um cartão de visitas importante, mas que vem com cobrança: manter a curva de queda e transformar anúncio em política pública duradoura.
O que deve entrar na mesa de negociações
1) Florestas e desmatamento
A referência regional para a agenda de sustentabilidade é a Declaração de Belém (2023), assinada por Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Ali há um roteiro comum: repressão a crimes transfronteiriços, cooperação científica e estratégias conjuntas para valorizar a floresta em pé. Na COP, a tendência é “puxar” esse espírito para o nível global, com foco em REDD+ (pagamento por resultados), regras de mercado de carbono (Artigo 6) e dinheiro novo para adaptação em comunidades florestais.
2) Transição energética
Outra frente é a descarbonização: mais renováveis, eficiência, eletrificação do transporte e metas para indústrias intensivas em carbono (aço, cimento, fertilizantes). Países devem chegar com NDCs reforçadas, metas de “net zero” e planos de transição que incluam trabalho e renda para quem depende de cadeias fósseis hoje.
3) Financiamento e “perdas e danos”
Sem financiamento previsível, a ambição não sai do papel. Belém será cobrada por destravar recursos para mitigação, adaptação e para o mecanismo de perdas e danos (ajuda a países que já sofrem impactos irreversíveis).
Nesse sentido, o Brasil chega com duas mensagens:
- Resultados recentes (queda do desmatamento) e a promessa de zerar o desmatamento ilegal até 2030;
- Arranjo de governança da COP com perfil técnico, o embaixador André Corrêa do Lago preside, e Ana Toni coordena a execução, para dar tração às negociações e dialogar com governos, setor privado, academia e sociedade civil.
Os países da OTCA devem apresentar propostas integradas de rastreamento de cadeias, cooperação e bioeconomia, ou seja, gerar valor econômico com produtos e serviços da floresta, de fármacos a alimentos da sociobiodiversidade.
Aqui destaco pelo menos três pontos merecem atenção. Primeiro, o mundo prometeu desmatamento zero até 2030, mas está atrasado. Por isso, diferentemente das últimas conferências, a COP30 será julgada pelo que for executável: orçamento para fiscalização, calendário com prazos, critérios objetivos de crédito rural alinhados ao clima. Além disso, a energia limpa será cobrada, e transição energética não é trocar uma usina por outra, é reorganizar cadeias produtivas e profissões. E, por fim, todas os planos de bioeconomia, manejo comunitário e turismo de base local precisam sair do período piloto e ganhar escala.
A COP30 não resolve tudo, na verdade, nenhuma COP resolve. Mas Belém pode ser o ponto em que a Amazônia deixa de ser só metáfora e vira métrica: queda sustentada do desmatamento, renda legal crescendo nas cadeias da floresta e transição energética com justiça social. Se na ONU o Brasil aprendeu a abrir os debates, em Belém o desafio é fechar compromissos com data, valor e responsável. O que vier depois, fiscalização, crédito, obra, produto no mercado, dirá se a conferência foi mais um discurso bonito ou o início de um novo momentum no cuidado com a sustentabilidade.
Emanuel Farias é formado em Relações Internacionais e atua na área de marketing internacional e produção de conteúdo digital. Já trabalhou com tradução, atendimento internacional e branding, com foco em comunicação intercultural e posicionamento estratégico.
