Por Letícia Sangaletti
Eu tenho duas estantes simples, de escritório, brancas, onde guardo meus mais de 200 livros. Para alguns muito, para outros pouco. Nem todos eu li, confesso, mas é minha grande preciosidade, quando se trata de bens materiais. E mesmo tendo toda essa quantia de obras disponíveis sempre que precisar, meu esposo iniciou sua biblioteca própria, com livros específicos da área do tradicionalismo e do regionalismo gaúcho, as quais ele tem cada vez mais buscado estudar e aprender.
E no pouco tempo de leitura dele, já observamos uma mudança expressiva no seu vocabulário, modo de se expressar e no seu repertório de fala. E ele comentou o quanto ele se sente melhor para responder no improviso.
A fórmula mágica é bem simples: uma estrutura invisível que nomeamos repertório. Não é possível improvisar se não tivermos uma base de vocabulário e de um conjunto de experiências, leituras, referências e percepções que moldam a forma como pensamos e nos expressamos. Repertório é o estoque interno de ideias, vocabulário é o estoque de palavras, e ambos juntos dão densidade à nossa fala, nos diferenciando de quem fala qualquer coisa, de quem realmente sabe se comunicar!!
Umberto Eco dizia que “quem não lê, aos 70 anos terá vivido uma só vida; quem lê, terá vivido cinco mil”. E é sobre isso, as histórias dos outros nos fazem viver mais vidas, viajar, conhecer diferentes lugares, perfis psicológicos, e claro, palavras e ideias. Quando lemos, assistimos, ouvimos e observamos o mundo com atenção, ampliamos nossas conexões internas, e é dessas conexões elas que nasce a clareza na hora de argumentar.
Uma pessoa com repertório, ao se comunicar, consegue ilustrar uma ideia usando exemplos do cotidiano, com figuras de linguagem, com dados científicos. É transformar em prática e linguagem nossas experiências, dando valor a elas, como bem conceituou Pierre Bordieu sobre Capital Cultural. Isso quer dizer, não basta apenas lermos, precisamos refletir, absorver, sintetizar e transformar tais leituras em conhecimento!
E para quem tem medo de falar em público então, essa também é uma boa forma de enfrentá-lo. Isso porque, muitas vezes o medo não é das pessoas, mas de não ter o que dizer, mas quando estamos seguros do que temos que falar, ele se vai.
E numa época em que ser performático está em alta e facilmente é confundido com ter boa oratória, ter um bom repertório separa o joio do trigo, e mostra quem tem consistência, quem sustenta a autenticidade no improviso e que consegue se expressar quando as palavras fogem (porque têm um balaio delas na mente), isso porque, o que o que distingue um bom comunicador não é o volume da voz, mas a profundidade do que ela carrega.
Se falar bem não é decorar técnicas, afinal, como ter um bom repertório e cultivá-lo? Construindo todos os dias, de forma silenciosa e intencional:
- Leia autores fora da sua zona de conforto.
- Assista a filmes que desafiem o olhar.
- Escute pessoas que pensam diferente.
- Observe a linguagem das ruas, das redes e dos livros.
Tudo o que passa, os lugares que frequentas, viagens que realiza, música que escutas, filmes e séries que assiste, livros, artigos, notícias que lês, pode se tornar referência e ampliar um repertório, fazendo com que cada fala seja uma síntese de tudo que há em si. Quem tem pouco repertório sempre fala a mesma coisa, quem amplia o seu, consegue explicar (e ver) o mundo de maneiras diferentes.
Amplie seu repertório e veja uma revolução gritante, mas silenciosa, ocorrendo na sua vida.
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