Por Letícia Sangaletti
O chimarrão sempre foi mais do que uma bebida: é gesto, presença, ritual. Aqui no Brasil, a cuia compartilhada traduz amizade, história, cultura. Mas, atualmente, esse símbolo enfrenta uma bifurcação: por um lado, resiste como patrimônio social; por outro, começa a transitar para um lugar de luxo, no sentido da raridade, da escolha consciente. E essa transição é marcada tanto por números quanto por significados.
Dados recentes ilustram essa mudança. Conforme números apresentados pela Emater/RS‑Ascar, o consumo per capita de erva-mate no Rio Grande do Sul caiu de cerca de 11 kg para 9 kg por pessoa ao ano após a pandemia. Em outras estimativas do Sindimate (Sindicato da Indústria do Mate no RS) há menção a valores próximos ou até abaixo de 8 kg/pessoa/ano.
Ao mesmo tempo, encrencas estruturais se tornam visíveis: a tradicional fabricante Vier Indústria e Comércio do Mate, fundada em 1944, teve sua falência decretada em 2025, com passivo declarado de R$ 49,7 milhões e patrimônio de apenas cerca de R$ 11,8 milhões. O setor aponta para uma “pior crise da história” no setor ervateiro gaúcho, segundo especialistas.
Por fim, a produção de folha verde da erva-mate confirma a relevância do RS: segundo levantamento da Secretaria do Planejamento, Governança e Gestão do RS, o Estado produzia em média 222.344 toneladas/ano no triênio 2020-2022, representando cerca de 39% da produção nacional.
Mas afinal, o que esses dados nos dizem? Podemos fazer pelo menos duas leituras: uma econômica e outra simbólica.
Economicamente, a queda do consumo e o fechamento de indústrias indicam que o chimarrão já não é consumido de forma massiva da mesma forma de antes. Mudanças de hábito, diminuição das rodas de mate compartilhadas (em consequência de distanciamento social, pandemia) e concorrência de outros produtos agravaram a situação.
Simbolicamente, isso abre espaço para que o chimarrão seja reinterpretado como “luxo”. Aqui, entender luxo não como ostentação, mas como escolha consciente, ritual acompanhado de presença, tempo e significado. Quando tiramos tempo para cevar, deixamos de apenas beber e começamos a estar ali, naquele momento o que, em nosso tempo fragmentado, já é um tipo de luxo.
O que estamos vendo, então, é que o chimarrão reapropria-se como símbolo de desaceleração, de intimidade e de identidade. A cuia que passa, o silêncio que se permite, a conversa que não é interrompida: tudo isso adquire valor agregado. Marcas e usuários começam a ver a erva-mate premium, as cuias artesanais, a prática menos frequente como algo especial.
Essa transição, porém, não é isenta de tensões. Um rito que foi coletivo e cotidiano enfrenta o risco de se tornar elitizado ou restrito, e isso gera questões de identidade: se o chimarrão tende a “luxo”, o que acontece com sua função como elemento cultural de todos, independente de classe ou frequência?
Além disso, o setor produtivo encontra-se em desafio real: a crise da matéria-prima, o deslocamento de áreas de erva-mate para monoculturas como a soja, o aumento de custos logísticos, tudo isso encarece e dificulta a produção local, como foi citado no processo da Vier.
O que vem pela frente
Para que o chimarrão não se transforme apenas em símbolo de luxo de nicho, mas continue sendo prática acessível e significativa, alguns pontos merecem atenção:
- Reposicionar o chimarrão como experiência de presença, mais do que apenas hábito.
- Valorizar a produção local, a cadeia de erva-mate gaúcha, mantendo a tradição enquanto incorpora inovações de mercado.
- Ampliar o ritual para novos públicos, estilos de vida slow, consumo consciente, identidade cultural valorizada sem perder a dimensão coletiva.
- As marcas podem explorar essa narrativa sem perder a simplicidade: o luxo aqui está menos em “quanto custa” e mais em “quanto significa”.
O chimarrão, de bebida cotidiana, pode estar se reinventando como ritual de presença, e o luxo, talvez, seja apenas permitir-se estar inteiro no momento de saborear.
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