Entrevista exclusiva com o cineasta Edu Felistoque, por Michele Vanzella
Conversar com Edu Felistoque, meu amigo de muitos anos, é sempre como enxergar novas possibilidades de mundo. Ele transita com maestria entre a força da realidade e a sutileza das emoções, revelando em suas obras um olhar sensível e profundamente humano.
A seguir, você confere nossa conversa e o lançamento de seu novo documentário, Aquarius.

1 – Edu, antes de falarmos da sua nova obra de cinema documental, conte sua trajetória e seus filmes anteriores.
EF: Ao longo das últimas décadas, venho me dedicando à realização de filmes e séries que mergulham em temas sociais — muitas vezes marcados pela violência — tanto na ficção quanto no documentário. Em comum, todas essas obras compartilham um fio condutor: a saúde mental como eixo central das narrativas.
Entre meus trabalhos mais recentes, destacam-se Amado, Cracolândia e Cena Aberta. Antes deles, produções como Bipolar, Toro, Hector, Zagati e Insubordinados, entre tantas outras, já exploravam essa complexa e fascinante dimensão da experiência humana.
2 – Como e quando surgiu a ideia de fazer um documentário sobre saúde mental e meditação?
EF: Eu estava filmando o segundo documentário sobre a Cracolândia, Cena Aberta, quando, em meio ao intenso fluxo das gravações, recebi uma mensagem de um amigo. Ele me contou que Bruno Wainer, idealizador da plataforma Aquarius, gostaria que eu dirigisse um filme sobre a meditação no Brasil. Não sei se foi coincidência ou uma intervenção “da força”, mas o convite chegou exatamente no momento certo — enquanto eu lidava com um tema pesado, mergulhado na dureza da realidade.
3 – Como foi o processo do filme? E algo em você também se transformou após conhecer tanto sobre um tema importantíssimo do nosso tempo?
EF: A princípio, o maior desafio foi mergulhar em uma pesquisa profunda para compreender melhor o universo da meditação. Eu tinha convicção de que o filme que desejava fazer estava alinhado com a visão de Bruno: uma obra laica, investigativa e fundamentada, que buscasse na neurociência evidências concretas de que a meditação realmente funciona.
Essa postura cética é algo comum entre documentaristas — carregamos a necessidade de testar e comprovar o que estamos retratando. Convidei Gui Araponga e Liara Castro para assumirem a direção e assistência de direção, respectivamente, e para a pesquisa chamei Marta Meyer Serra, Embaixadora de Saúde Mental nas Organizações, especialista em Psicologia Transpessoal aplicada a empresas e escolas, e cofundadora da BeComing.
De certa forma, dirigir e produzir esse filme acabou me transformando. Eu não comecei a meditar por causa dele, mas passei a me cuidar mais — a reconhecer a importância de “dar um tempo”, “fazer uma pausa”, respirar… desacelerar. E hoje sei, com base e experiência, que isso faz toda a diferença.
4 – O Brasil tem alto índice de pessoas com transtornos de ansiedade, isso já é fato numérico. Você pretende fazer também do documentário, uma forma de ajudar as pessoas a ter ferramentas de cura?
EF: Eu diria que a meditação não é a cura em si, mas uma poderosa ferramenta contra a ansiedade — um caminho que nos prepara para alcançar a cura, o alívio e o bem-estar, mesmo nos momentos mais traumáticos. E posso afirmar, pela experiência, que ela realmente faz diferença.
5 – Como diretor, como você consegue recursos internos para dirigir filmes de alta tensão, e ao mesmo tempo, produzir conteúdos tão pacíficos? Qual o segredo da direção antagônica e tão eficiente na sua história?
EF: Sempre me faço essa pergunta quando volto das gravações mais intensas… e acabo rindo de mim mesmo, porque no dia seguinte lá estou outra vez, no meio do caos, gravando. Na maioria das vezes, é mais difícil lidar com a tensão dos bastidores do que com o próprio conteúdo do filme. Vivemos um tempo em que as pessoas parecem não saber lidar com aquilo que mais desejam: a liberdade. Saem gritando suas verdades, sem paciência — ou disposição — para ouvir as contrárias.
Sei que existem profissões muito mais desafiadoras e tensas do que a minha, como a de um paramédico ou um policial. Mas acredito que o que me move é o amor pela pacificação — não aquela imposta pela doutrina ou pela complacência com a opressão, mas a paz que nasce do contraste, da escuta e da convivência com o diferente. Talvez seja por isso que continuo. A busca pela paz, para mim, faz sentido justamente quando parte da direção oposta.
6 – O que você espera desse filme?
EF: Espero que o retorno tão positivo que tenho recebido do público com o filme perdure por muito tempo. O fato de eu sempre deixar claro que sou cético ajuda as pessoas a enxergarem o filme não como uma doutrina, mas como um caminho possível. A meditação pode, sim, estar ligada a uma religião — ou não. Pode ser uma prática laica, acessível a todos, sem exigir que ninguém abandone suas crenças. Costumo dizer que até a capoeira é uma forma de meditação, porque envolve presença, ritmo e conexão. Acredito que os espectadores do filme se tornarão multiplicadores dessa ideia: a meditação como uma ferramenta valiosa de transformação.
E o mais importante — meditar não precisa ser chato. Você não precisa ser um monge budista nem viajar ao Tibete para isso. Dá para meditar em qualquer lugar, a qualquer hora. De algum modo, tenho certeza de que esse filme pode realmente ajudar muitas pessoas.
7- Planos futuros? Ou a vida vai se desenrolando?
EF: Dirigir filmes de ação pode ser, para muitos, uma forma de catarse. Para mim, é também uma oportunidade de mergulhar profundamente na psique humana. Ao investigar as motivações e os comportamentos das pessoas, sinto-me desafiado a criar narrativas que não apenas entretêm, mas também provocam reflexão.
Com a plataforma Aquarius, meu propósito é continuar produzindo obras que ajudem o público a buscar equilíbrio e consciência, incentivando uma reflexão sobre seus desejos e prioridades — e, assim, trilhar um caminho em direção a um bem-estar mais duradouro e genuíno.
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