Por Leticia Sangaletti
Jornalista e Dra. em Letras
Voltarei dar aulas de oratória por uma indicação. Não fiz plano estratégico, nem lançamento 6 em 7. Mas recebi o maior e melhor incentivo que poderia: Laísa, minha amiga da faculdade, companheira de dança, de mestrado, de doutorado, de pesquisa e agora de maternidade, mesmo na distância, lembrou de mim, e me indicou para seus alunos.
O detalhe é que é algo que eu fazia há muito tempo, mas estava parado. Uma porta que se reabre, uma gaveta mental aberta e um projeto antigo volta a respirar. Sim, pois desde 2016 eu ministro aulas de oratória, intensifiquei na pandemia, depois com a empresa diminuí e apenas realizo workshops esporádicos ou trabalho junto às consultorias do Sebrae.
E isso me fez pensar que às vezes não nos falta capacidade. Falta um empurrão. E o empurrão, quase sempre, vem no formato mais simples e mais generoso que existe, alguém falar teu nome na hora certa.
Depois da indicação, vários novos seguidores e então, me apresentei e lancei poucas vagas, de forma simples e veio a onda. Muita gente perguntando sobre. Um interesse que, olhando de fora, parece óbvio: “era só retomar”. Mas por dentro não é tão simples. Existe uma diferença grande entre “ter um projeto” e “ter o projeto em circulação”. Entre “ser capaz” e “estar disponível”. Entre “eu faço isso” e “as pessoas saberem que eu faço isso”. A indicação encurta esse caminho. Ela faz o que nenhuma postagem faz com a mesma eficiência: empresta confiança.
Indicar alguém é uma forma sofisticada de comunicação social. É dizer: “eu confio”. E confiança, hoje, é uma moeda mais rara do que alcance. Pode existir um mundo de gente te seguindo, curtindo, salvando, elogiando. Mas é quando alguém te indica que a coisa muda de patamar, porque a indicação é um risco mínimo assumido por outra pessoa. É reputação compartilhada. Quantas vezes já ouviste a frase “coloco minha mão no fogo”! “Indico de olhos fechados”.
Bem, isso tudo me fez lembrar de uma empresária que estava a desabafar na suas redes sobre algo que é muito recorrente, muitas vezes, as pessoas próximas são as que menos compram, as que menos indicam, as que mais assistem de camarote. Ela dizia que depois que virou mãe colocou um filtro e que, no aniversário, vai selecionar quem realmente está por perto. Não no sentido teatral de “cortar pessoas”, mas no sentido bem concreto de reconhecer onde existe reciprocidade e onde existe só convivência automática.
As duas situações, a dela e a minha, parecem diferentes, mas se alinham no mesmo ponto: quem, de fato, sustenta o que a gente faz? Quem apoia de verdade? Quem divulga? Quem consome? Quem fala teu nome quando tu não estás na sala? Quem compra, compartilha, indica, chama, convida?
E eu acho que tem duas respostas possíveis para essa pergunta. Uma delas aponta para os outros. A outra aponta para nós.
A primeira é a mais desconfortável: nem todo mundo que está perto está junto. Proximidade não é sinônimo de apoio. Às vezes, gente muito próxima tem dificuldade de reconhecer teu trabalho como trabalho. Te enxerga como “a pessoa” antes de enxergar como “a profissional”. Às vezes, existe uma mistura de familiaridade com subestimação. Às vezes, tem inveja. Às vezes, tem simples distração. Às vezes, tem um tipo de economia afetiva: “eu gosto de ti, mas não sei como te apoiar sem parecer que estou te favorecendo”. Em pequenas cidades, então, isso é quase uma cena conhecida: o apoio vem de fora, e o de dentro hesita.
Mas a segunda resposta exige uma mea culpa honesta, pois, muitas vezes, a gente não comunica bem o que faz. E eu confesso que tenho me privado bastante disso. Depois que fui mãe então, tem sido muito difícil gravar stories (mas há outras formas de fazer isso, não é?)
A gente assume que está óbvio. Pensa que quem nos conhece “já sabe”, fala do trabalho por alto, sem querer parecer estar forçando algo. posta sem explicar. Também fazemos sem anunciar, muda de ideia sem contar, cria projetos e deixa eles escondidos em nome de uma elegância que, no fundo, também é medo. Medo de se expor, do julgamento, de ouvir não. Medo de parecer que está pedindo demais. É o tal do autoboicote.
E aí acontece o que aconteceu comigo, eu tinha o projeto, mas ele estava circulando no momento, estava adormecido por diversas questões. Bastou alguém me indicar para eu perceber que não faltava demanda. Faltava circulação. Faltava lembrar o mundo, de forma clara e sem constrangimento, do que eu faço e para quem eu faço, e que eu amo fazer. E ver que era hora de retomá-lo.
Indicação tem esse poder: ela funciona como confirmação externa e também como espelho, mostrando dois vieses ao mesmo tempo. Mostra que há espaço, e se alguém precisou te indicar para o assunto aparecer, talvez tu não estivesses falando disso com nitidez.
A indicação da Laísa foi um gesto de generosidade, mas também foi um empurrão de verdade. Um empurrão que não me obrigou a inventar um novo projeto, apenas a resgatar um antigo. E isso é outra coisa importante: muita gente não precisa de ideia nova. Precisa de coragem para sustentar o que já tem. Precisa de alguém dizendo “vai, isso é bom, oferece”.
No caso da dona da loja, o desabafo dela tem uma camada emocional, claro, mas também tem uma camada de gestão da própria vida, algo que eu estou passando também! Quando tu viras mãe, o tempo encolhe e a tolerância para relações vazias diminui. A vida fica mais cara: não em dinheiro, mas em energia. E aí o filtro aparece. Tu começas a reconhecer quem soma e quem apenas ocupa espaço. Quem te fortalece e quem só observa. Quem comemora contigo e quem apenas consome tua atenção.
Talvez as perguntas que ficam são: tu tens ao teu lado pessoas que te colocam em movimento ou pessoas que te deixam parado? E tu estás facilitando que as pessoas te indiquem?
Porque para indicar, o outro precisa saber o que tu fazes, para quem, como funciona, quanto custa, qual é o resultado. Precisa de uma frase simples para te apresentar. Precisa de um link. Precisa de um “posso te passar o contato dela” com segurança. Se tu não entregas essa clareza, tu tornas a indicação mais difícil. E, quando algo é difícil, o cotidiano engole.
No fim, indicar alguém é uma forma de cuidado. Não é favor. É reconhecimento. É entender que o trabalho do outro também é uma construção e que ninguém constrói sozinho, por mais competente que seja.
E, sim, existe uma responsabilidade nossa nisso. Não para cobrar dos amigos que virem clientes. Mas para parar de tratar o que a gente faz como se fosse um segredo. Para comunicar melhor, dando aos outros ferramentas simples de nos indicar. Para lembrar, com serenidade, que trabalho não se sustenta só com talento. Se sustenta com rede, com comunicação.
E eu quero carregar essa lição para 2026 com duas decisões bem práticas: prestar atenção em quem está realmente do meu lado e comunicar com mais nitidez o que eu faço, sem constrangimento. Porque no mundo real, quem abre portas nem sempre é quem tem mais seguidores. É quem fala teu nome com convicção.
Se tu chegaste até aqui, pensa em uma pessoa boa no que faz e indica hoje. Uma mensagem. Um nome. Um empurrão. Às vezes é isso que falta para alguém voltar a existir no próprio trabalho.
