Vou contar uma coisa para vocês. Estou há alguns meses sem poder dirigir. Minha CNH foi cassada. “Podia ser pior”, me disseram. “Podia ter perdido a vida em um acidente.” E sim, podia mesmo. Eu sei disso. Reconheço isso todos os dias.
Mas também me pego pensando, com frequência, sobre o que Deus quer me ensinar por meio das limitações que venho recebendo.
Primeiro, a gestação. Sim, gente, a gestação limita muito, e a maternidade também. E ao dizer isso não quero reclamar, nem romantizar o cansaço, estou apenas nomeando a realidade. Existem coisas que mudam, ritmos que desaceleram, liberdades que ganham outro contorno. Isso não quer dizer que a vida acaba, mas que ela muda abruptamente de eixo.
Depois, outras limitações foram chegando. Algumas externas, outras internas. Algumas visíveis, outras silenciosas. E, entre todas elas, talvez a mais difícil seja aceitar que nem sempre estaremos no controle da própria rotina, do próprio tempo, da própria pressa.
A verdade é que a limitação nos confronta intimamente, porque mexe com a imagem que temos de nós mesmas, com a autonomia que tanto valorizamos, com a ideia de que damos conta de tudo sozinhas. E eu amava a liberdade que eu tinha, especialmente a de ir e vir, de dirigir, de viajar. Ser impedida de fazer algo que antes parecia simples é, de certa forma, ser obrigada a olhar para a própria fragilidade.
E talvez seja justamente aí que more o aprendizado. Há poucos dias falei para minha mãe, em uma pergunta retórica “o que seria de mim se eu não tivesse tido o Bento?”, ela me respondeu que ter ele me fez voltar para casa. Que eu não passava mais os finais de semana com a família, que estava afastada. Talvez isso tudo me trouxe de volta para o meu eu, para o meu lar, para meu eixo. Me fez desacelerar, rever prioridades, aceitar ajuda, e também me fez entender que força não é apenas seguir no mesmo ritmo, mas também saber viver os tempos de pausa.
No final das contas, vejo que nem toda limitação é castigo. Às vezes, é um jeito duro, mas profundo, de nos lembrar que a vida não depende só da nossa vontade, que é necessário ter cuidado, cautela, e fazer escolhas, sobretudo, saudáveis (em todos os sentidos!!).
Tenho aprendido, aos poucos, que viver também é reajustar rotas, mudar o rumo quando não dá para seguir batendo com o mesmo martelo. Também tenho aceitado que a mulher que eu sou hoje, que me transformei com a maternidade, não é menos forte por estar mais limitada. Muito pelo contrário, estou mais fortalecida, mais consciente, mais humilde, mais humana.
Já diziam meus pais: às vezes Deus para a gente, quando a gente não para por conta própria. Claro que é importante lembrar que não foi Deus que me fez engravidar e nem perder a CNH. É tudo consequência dos meus atos. Então não adianta jogar a culpa no Divino, embora a licença poética seja válida, pelo menos para nos fazer refletir.
