Por Mauro Victorio
A Inteligência Artificial (IA) já não é mais apenas uma promessa para o futuro da medicina. Em hospitais de ponta, algoritmos ajudam a interpretar exames de imagem, cruzar prontuários, prever riscos de complicações e até sugerir terapias personalizadas para diferentes perfis de pacientes. Sistemas capazes de analisar milhares de dados em segundos já se tornaram aliados importantes para médicos que precisam tomar decisões rápidas em situações críticas, como emergências cardiovasculares ou diagnósticos precoces de câncer.
Não se trata apenas de velocidade: em muitos casos, a IA alcança índices de acerto iguais ou até superiores aos dos especialistas humanos, sobretudo quando se trata de identificar padrões sutis em exames que passariam despercebidos. Isso abre caminho para uma medicina mais preventiva e assertiva, capaz de reduzir custos e aumentar as chances de recuperação dos pacientes.
Entretanto, o entusiasmo com a tecnologia não pode ocultar os riscos. A medicina é, por excelência, uma prática baseada não apenas na ciência, mas também na confiança. O paciente se entrega ao cuidado do médico porque acredita em sua competência, mas também em sua sensibilidade humana. Quando diagnósticos ou condutas passam a depender em excesso de algoritmos, surge a dúvida inevitável: quem, de fato, está cuidando de mim? A partir daí emergem dilemas éticos complexos. Até que ponto é aceitável delegar a uma máquina decisões que envolvem vidas humanas? Qual é o limite entre utilizar a IA como ferramenta de apoio e transformá-la na protagonista da relação médico-paciente?
Esse debate se torna ainda mais delicado quando chega à psicologia. Diferentemente de um exame de sangue ou de imagem, em que os dados objetivos prevalecem, o processo psicológico é profundamente subjetivo. Ele envolve a interpretação de narrativas, sentimentos, comportamentos e gestos sutis que não podem ser reduzidos a estatísticas em uma planilha. Ainda assim, já existem psicólogos recorrendo a sistemas de IA para apoiar ou até fundamentar diagnósticos de transtornos mentais. Algoritmos que analisam padrões de fala, expressões faciais ou respostas em questionários são comercializados como soluções “inovadoras” para tornar a psicologia mais precisa. No entanto, essa prática pode colocar em xeque o próprio coração da profissão.
A relação entre paciente e psicólogo se constrói a partir de um pacto de confiança e empatia. O paciente precisa sentir que está sendo ouvido em sua singularidade e que sua história não se resume a um caso entre tantos. Se descobre que parte de sua avaliação foi “terceirizada” a uma inteligência artificial, pode sentir-se reduzido a estatísticas, traído em sua vulnerabilidade e desestimulado a se abrir. Além disso, a questão da responsabilidade permanece em aberto: se uma avaliação feita com apoio de IA se revela equivocada, quem responde? O psicólogo que confiou no algoritmo ou o desenvolvedor da tecnologia? Nesse campo, a linha entre apoio tecnológico e delegação de autoridade é perigosamente tênue.
Isso não significa que a psicologia deva se fechar totalmente à inovação. Ferramentas de IA podem ser úteis como suporte secundário, oferecendo análises complementares ou sugerindo hipóteses a serem avaliadas pelo profissional. No entanto, a dimensão humana do encontro terapêutico é insubstituível. A psicologia não se resume a diagnosticar sintomas; ela se baseia na escuta, na empatia e no reconhecimento da singularidade de cada sujeito. Um algoritmo pode indicar padrões, mas jamais compreender o sofrimento humano em toda a sua complexidade.
O debate sobre a presença da Inteligência Artificial na medicina — e especialmente na psicologia — não é apenas tecnológico, mas sobretudo ético. É necessário definir até onde estamos dispostos a permitir que máquinas participem de processos profundamente humanos. A tecnologia deve servir para ampliar a humanidade no cuidado em saúde, e nunca para substituí-la.
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