Por Daniela Silvério
Conferimos a NADA Miami 2025, feira que este ano apresenta uma seleção diversa de quase 140 galerias — 47 delas estreando no evento. O nome NADA, sigla para New Art Dealers Alliance (Aliança de Novos Comerciantes de Arte), reforça exatamente a proposta da feira: ser um dos espaços mais importantes de descoberta de novos talentos no cenário contemporâneo.
Logo ao entrar, é evidente o compromisso da feira em mostrar trabalhos que expandem fronteiras materiais e conceituais. Há uma forte presença de mixed media, textiles, peças em acrílico, além de leituras contemporâneas do pop art. Embora a maior parte das galerias seja norte-americana, há participações marcantes de galerias europeias e asiáticas. Ainda assim, quem realmente se destacou foram artistas latino-americanos ou descendentes, com grande protagonismo argentino, peruano e centro-americano.
A força de um diálogo tecido: Justin Favela e Miguel Arzabe
A primeira obra que chamou minha atenção foi “Vacilante”, colaboração entre Justin Favela e Miguel Arzabe. Os dois criaram um trabalho pintado em canvas que depois é recortado e tecido novamente, como um corpo que se reconstrói.

Miguel Arzabe trabalha exatamente nessa lógica: ele pinta sobre lona, recorta, reorganiza e tece de volta, criando estruturas instáveis, mas carregadas de propósito. Sua pesquisa também dialoga profundamente com sua origem — filho de imigrantes bolivianos, sua obra faz referência às mantas bolivianas, tradicionalmente tecidas à mão com fibras de algodão ou lã de alpaca. Mesmo quando trabalha com materiais contemporâneos, como acrílico tecido sobre canvas e linho, o gesto ancestral continua presente.
Já Justin Favela, de ascendência guatemalteca e mexicana, leva para o campo da arte contemporânea um repertório que mistura humor, cultura popular e uma reinterpretação crítica da identidade Latinx. Ele utiliza técnicas como a cartonería (paper-mâché) para criar superfícies vibrantes que remetem à cultura popular — em “Valle de México, After José María Velasco”, ele revisita a obra clássica usando cartonería e materiais de piñata, transformando a paisagem histórica em uma leitura vibrante e profundamente ligada à sua herança cultural.

Galeria Mueve: três gerações de artistas peruanas que olham para o corpo e o território
Outro destaque foi o conjunto apresentado pela Galeria Mueve, reunindo artistas peruanas de gerações diferentes que investigam como corpos são construídos, classificados e politizados por meio das imagens.
Claudia Coca
A artista trabalha com desenho, pintura e texto para examinar como corpos e territórios foram racializados, domesticados e categorizados. Sua obra propõe um contraponto ao olhar dominante, reivindicando agência e questionando narrativas de valor e pertencimento. Técnicas como carvão e pastel sobre tecido e canvas reforçam a fisicalidade desse embate.

Katherinne Fiedler
Fiedler mistura couro, metais e estruturas híbridas, criando objetos que sugerem um imaginário pós-corpo — um lugar onde identidade e matéria não são fixas, mas moldadas por forças tecnológicas, ambientais e sociais. Suas obras convocam um futuro possível, onde o orgânico e o industrial se reorganizam.

Nicole Etxeberria
Sua produção utiliza acrílica e lápis de cor sobre madeira e intervém em formatos como diagramas, ilustrações enciclopédicas e patentes — sistemas visuais que se pretendem neutros, mas moldam nossa percepção sobre corpos, territórios e materiais. A artista adota uma metodologia ecofeminista, priorizando intuição e relação ao invés de classificações rígidas. Sua obra colapsa dicotomias como natureza/cultura e humano/não humano.

Rosie Clements e o poder da intimidade pixelada
Entre as descobertas mais intrigantes, destaca-se a britânica Rosie Clements, que trabalha com fotografias do cotidiano — amigos, gestos íntimos, cenas diretas — impressas em imagem UV sobre plástico bolha, emolduradas com tampa de plexiglass transparente e fundo de canvas.
Clements investiga a relação entre proximidade física e distorção digital
De longe, suas imagens parecem nítidas. De perto, viram abstração, um comentário preciso sobre a forma como, na era digital, vemos e não vemos ao mesmo tempo. A escolha das imagens reforça essa tensão: memória afetiva filtrada através de superfícies frágeis e translúcidas.

Novo lançamento editorial: The Deep State: Art, Culture & Florida
A NADA anunciou o livro The Deep State: Art, Culture & Florida, que investiga como a estética da Flórida moldou a imaginação americana, revisitando a evolução das artes do estado e suas figuras outsider. Entre os nomes presentes estão Harmony Korine, Zaha Hadid, John Singer Sargent, Damien Hirst, Gary Indiana e Bunny Yeager.
A edição é limitada a 2.100 exemplares, capa dura, 228 páginas (10 x 8 inches), com entregas previstas para o início de dezembro.

Dani Silverio é comunicadora e profissional de marketing, movida pela paixão por cultura, esporte e lifestyle como ferramentas de conexão. Seu trabalho une curadoria, storytelling e sensibilidade editorial para aproximar a comunidade brasileira da cena vibrante da cidade.
Com passagem por coberturas de arte, design, eventos esportivos e experiências locais, Dani desenvolveu um olhar atento aos detalhes e uma linguagem acessível, capaz de traduzir grandes acontecimentos em narrativas próximas e relevantes. Entre bastidores e tendências, seu foco está em contar histórias que criam pertencimento, ampliam repertório e fortalecem pontes entre Miami e o público brasileiro.
