Assisti a O Agente Secreto no Lincoln Center (NY), no dia 4 de dezembro de 2025. A sala estava cheia, americanos e brasileiros. Fiquei atenta às reações, ao impacto da cultura brasileira ali dentro. Há algo no nosso jeito que é impossível de traduzir completamente: o ritmo, a ambiguidade, o corpo, o humor. Como se o filme operasse em duas camadas ao mesmo tempo, uma reconhecível para quem é brasileiro, outra sendo descoberta ali na hora por quem não é.
A primeira cena já anuncia o que está por vir. Wagner Moura aparece diante de um posto de gasolina chamado ‘Moura’, recurso metacinematográfico (e de desbunde) que explicita de saída: estamos diante de um filme que olha para o cinema. Kleber Mendonça Filho não esconde o jogo. O olhar é épico no sentido brechtiano: vemos a história, mas também ‘vemos que estamos vendo’.
Kleber se apropria da estrutura do cinema clássico (há estrela, há escala, há expectativa, há o herói), mas opera por dentro, desviando. Antropofagicamente, como diria Oswald de Andrade, ele ‘come’ a forma hollywoodiana para devolver outra coisa: um produto profundamente crítico do cinema enquanto voyeurismo, mecanismo de sedução, e poder. Há, acredito, um intuito deliberado de dialogar com premiações como o Oscar. Isso coloca o próprio filme como ‘agente’, infiltrado numa lógica que ele simultaneamente ocupa e subverte.
E o elenco sustenta essa operação com precisão.
O casting de Gabriel Domingues, indicado na nova categoria de melhor elenco no Oscar, revela uma pesquisa impressionante: gente da pesada do teatro, da televisão, do cinema, e, até mesmo, não atores.
A questão da atuação me ocupou durante toda a sessão. Wagner Moura disse, numa entrevista, que gosta de permanecer selvagem em cena, de deixar a cena surpreendê-lo, de provocar esse estado também nos colegas. Nem sempre a produção cinematográfica favorece o imprevisto e o improviso. Kleber não apenas toma esse risco, como faz dele parte crucial de sua estética: a mistura de atores e não atores, de trajetórias distintas, todos servindo à narrativa sob uma direção precisa que traduz com maestria o ‘perigo’ que permeia a obra. O resultado está na tela.
E não esqueçamos do Cinema São Luiz, que aparece não apenas como locação, mas como personagem. Inaugurado em 1952, é o último sobrevivente de mais de 80 salas de rua do Recife. No filme, carrega o peso de uma história maior: a memória do cinema pernambucano, do Ciclo do Recife nos anos 1920 ao cinema da retomada com Baile Perfumado em 1996, do manguebeat, até Kleber. Ver o São Luiz na tela é um convite para ver o cinema brasileiro em suas próprias raízes.
E isso me leva à pergunta central: quem é o Agente Secreto?
Não há um agente secreto claro. Todas as personagens operam numa zona de segredo, mas ninguém ocupa o lugar do ‘agente’ propriamente dito. O título promete um filme de gênero a la ‘Três Dias do Condor’ que nunca chega como esperado. A negação não está escondida, ela é estrutural, proposital.
O filme se encerra num espaço que carrega camadas de significado, e o que poderia ser um clímax convencional se transforma em recusa. Kleber nega a catarse. Onde o cinema clássico entregaria resolução emocional, ele oferece ausência. O impacto emocional não é anestésico, não é auto indulgente. Ele é profundamente crítico. Rompe a expectativa do espectador de cinema tal como ele é primordialmente feito em Hollywood.
O que fica não é luto por um personagem. É luto por um país. Por uma história que insiste em ser esquecida mas ainda reverbera. Um luto por uma humanidade que insiste em repetir seus ciclos de violência.
No fim das contas, a pergunta veio depois da sessão.
Quem é o agente secreto?
É o filme. Um objeto cinematográfico não identificado, brasileiro.
Do Lincoln Center, me dirigi a minha casa. Nos fones, tocava Nação Zumbi: “Cabs, buildings, people”: e a cidade passava pela janela.

Anna Hartmann, atriz e diretora, nasceu em Porto Alegre, Brasil.
Na televisão, atuou em grandes produções de empresas mundialmente reconhecidas como Globo, HBO, FOX, MTV, Sony International e Netflix. Ela estrelou a série Reality Z (2020) da Netflix, coproduzida por Charlie Brooker (Black Mirror), e acumulou onze créditos na tela, incluindo dois em grandes longas-metragens, produzidos pela RT Features e Mercado Filmes. É Bacharel em Comunicação e Cinema pela FAAP. Seu primeira curta-metragem, Meu Outro Nome é Luiza, circulou internacionalmente e estreou no Brasil na Mostra de Cinema de Tiradentes (2022).
