Por Letícia Sangaletti
Jornalista, Dra. em Letras.
Depois de passar um dia inteiro capturando almas de dançarinos em um evento de danças tradicionais gaúchas, fiquei pensando no quanto eu aprendi e aprendo diariamente com a dança. Foram anos dedicados aos tablados de entidades tradicionalistas e hoje, estando dentro d pista de outra forma, percebi esse mundo por outra perspectiva.
A dança me ensinou a escutar o meu corpo. Ele fala, mesmo quando a gente não quer ouvir. Mostra quando é hora de parar, quando dói, quando cansa e quando pede mais. Merleau-Ponty dizia que “não temos um corpo, somos um corpo”, e é exatamente isso que se sente no tablado: o corpo como linguagem, como pensamento que se move. Ao dançar, expresso sentimentos: alegria, tristeza, medo, nervosismo, ansiedade. E assim como na vida real, muitas vezes colocamos um sorriso no rosto ignorando todos os problemas, passando uma ideia de que está tudo bem!
Dançando também aprendi que respeitar os limites é uma forma de sabedoria e de afeto. Forçar o movimento é calar o que vem de dentro e às vezes nos furtamos em comunicar. E no final nas contas a gente percebe que a beleza está em encontrar o ritmo certo: aquele em que o corpo não se esgota, apenas se expressa.
Mas quero aqui ir além. Um elenco de danças, que aqui chamamos de invernada, mostra muito mais. Trata-se da metáfora mais bonita que encontrei para a vida em sociedade. Ha hierarquia, negociações, conflitos, negócios…
Dançar em grupo é, de algum modo, ensaiar o convívio em sociedade. Há momentos de liderança e outros de espera; pausas que sustentam o conjunto e olhares que sincronizam o passo. Pierre Bourdieu chamaria isso de habitus: o saber que o corpo adquire pela convivência, o gesto que se torna cultura.
Se alguém acelera demais, o grupo se perde; se alguém desacelera, os outros amparam. A harmonia só acontece quando há escuta, e esse talvez seja o maior aprendizado de todos. Quando falta escuta, o conflito vem forte. A falta de comunicação na dança, seja entre pares ou entre integrantes, prejudica a entrega.
Com o tempo, percebi que tradição não é repetição, é continuidade. Não é dançar igual todos os dias, mas compreender o que permanece e o que pode mudar, muitas vezes sem nem saber dar nomes ao que estamos vivendo e sentindo. A dança é algo justamente sem-nome: o instante em que o corpo encontra sentido sem precisar explicar.
Há algo de espiritual na dança, nesse gesto de mover-se junto. Um tipo de oração silenciosa feita de olhares, respirações e respeito.
Dançar, no fim, é isso: um jeito de agradecer com o corpo, de confraternizar, por poder estar ali, inteiro, no instante em que a música começa.
E como diria Manoel de Barros, “o nada é aonde eu moro”. Talvez dançar seja habitar o intervalo entre o som e o silêncio, o que se perde e o que permanece.
O que a dança me ensinou (e que vale para a vida)
• Respeite o tempo das coisas. Nem toda pressa é progresso.
• Escute o seu corpo. Ele é mais sábio do que parece.
• Conviver é dançar junto. É ajustar o passo sem perder o rumo.
• A tradição também muda. Permanecer é diferente de repetir.
• Nem tudo precisa ser dito. Às vezes, basta o gesto.
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