Por Letícia Sangaletti
Semana passada falei aqui na minha coluna que dançar em um grupo de danças é a melhor metáfora da vida em sociedade. Outro dia assisti um ensaio de um grupo de danças que foi um grande laboratório para mim, que trabalha com comunicação, e que insiste em dizer que tudo comunica. Foi um laboratório pois, como diria Saramago, é preciso sair da ilha, para ver a ilha, e saindo da pista, pude ver o quanto a apresentação cênica e a teatralidade acontecem por outra perspectiva, e o quanto um elogio ou uma crítica podem afetar, positiva, ou não, na comunicação.
Eu acredito muito em energias. Sabe quando entramos em um lugar em que a energia está baixa ou pesada, ou quando conversamos muito com uma pessoa que só reclama? A gente acaba se afetando. E quando convivemos com muitas pessoas, entendemos na prática o quanto isso pode nos afetar. E quando afeta, nosso corpo grita. E nesse laboratório, pude perceber um abismo abissal de energia e de comunicação não verbal, com simples e práticas mudanças. Outro grupo na pista, dizendo muito sem dizer, falando alegrias com os olhos, com gestos, com silêncios e com o corpo.
A comunicação não verbal é, na verdade, o primeiro idioma que aprendemos. Antes de falar, olhamos, choramos, resmungamos. Antes de compreender as palavras, já sabíamos o que significava o toque de um abraço ou a ausência dele. O corpo foi, desde sempre, a nossa primeira voz. E muitas vezes, continua falando mais ainda do que imaginamos.
Pesquisas mostram que mais de 60% da comunicação humana acontece sem palavras. O psicólogo Albert Mehrabian estimou que apenas 7% do que dizemos está no conteúdo verbal; o restante mora no tom, nos gestos, nos silêncios e na forma como ocupamos o espaço. Isso explica por que, às vezes, entendemos alguém antes mesmo de ouvir o que ela tem a dizer. Sabe aquela amiga que se comunica contigo só pelo olhar? Ou o teu par de dança, que entende tua interpretação só com a tua expressão facial.
Lembrei-me muito do poeta fingidor de Pessoa, porque não importa os nossos problemas, devemos deixá-los fora da pista. Mas o nosso corpo comunica tanto, que mesmo interpretando, entregamos nossas vulnerabilidades. Talvez o que mais me fascina na comunicação humana é o fato de ela acontecer antes de verbalizarmos e continuar mesmo quando elas cessam.
Na dança, essa linguagem se torna visível e é por entender que a comunicação não verbal é uma coreografia invisível que conduz todas as relações humanas, que eu trago esse assunto novamente. A comunicação não verbal acontece no espaço que deixamos entre nós e o outro, no tempo que damos para responder, no tom que usamos sem perceber, e também é o que vibra nas pausas, o que se percebe nas mãos que tremem, no desvio do olhar, no sorriso que demora a vir. E neste ínterim, o corpo é o tradutor das nossas emoções. Quando há contradição entre o que sentimos e o que dizemos, é sempre ele quem revela a verdade.
Dançar me ensinou a perceber esses silêncios cheios de sentido. Entendi que comunicar não é apenas falar, é se deixar perceber, é ocupar o gesto de forma inteira, deixar que o corpo traduza o que a mente ainda não conseguiu organizar, e, acima de tudo, é estar atento ao que o outro expressa, mesmo sem dizer nada.
Por fim, reflitamos: se na dança (e na vida), precisamos comunicar algo de forma assertiva, de acordo com o que nos é exigido, o que estamos comunicando? O que nosso corpo está dizendo? Podemos ser mais intencionais nessa comunicação?
Como ser mais intencional na comunicação não verbal (para a dança e para a vida):
- Observe o seu silêncio: Às vezes, a pausa entre as frases carrega mais emoção que o discurso inteiro, isso porque o silêncio também fala.
- Perceba o olhar: Pesquisas mostram que o contato visual é um dos maiores gatilhos de confiança.
- Cuidado com o espaço: A distância que mantemos, seja ela física, simbólica ou no digital, indica o quanto estamos abertos.
- Ajuste o ritmo: Comunicação é como dança: se um acelera demais, o outro se perde.
- A coerência é o idioma da verdade: O corpo entrega o que a voz tenta disfarçar.
- Respire antes de responder: O corpo precisa de tempo para que o gesto acompanhe o sentimento.
- Permita-se sentir: A emoção bem acolhida é a fala mais autêntica que existe.
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