Por Dra. Mônica Martellet
Farmacologista e Esteta • Doutora em Biotecnologia
CEO da Clínica Dra. Mônica Martellet Estética Avançada
Professora Universitária e Coordenadora de Pós-Graduação em Estética Clínica
O foco hoje é na imagem. Nunca se falou tanto sobre estética, resultados, transformações e procedimentos. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil construir narrativas irreais, editar realidades e romantizar processos que, na prática clínica, exigem responsabilidade, ciência e limites muito claros. Nesse cenário, a ética deixa de ser apenas um princípio profissional e passa a ser um divisor de águas entre o cuidado verdadeiro e a ficção vendida como verdade.
A estética contemporânea enfrenta um paradoxo delicado: enquanto avança tecnologicamente, corre o risco de regredir eticamente. Redes sociais, filtros, promessas exageradas e discursos vazios criaram uma cultura em que resultados instantâneos são mais valorizados do que processos seguros. A ficção estética, muitas vezes, não está apenas na imagem editada, mas na narrativa construída, aquela que omite riscos, banaliza procedimentos e transforma a saúde em produto de consumo impulsivo.
É preciso dizer com clareza: estética não é espetáculo. É área da saúde. E como tal, deve ser conduzida com critérios científicos, responsabilidade técnica e, sobretudo, respeito ao paciente. Quando a ética é substituída pela performance, perde-se o foco no indivíduo e abre-se espaço para condutas que colocam em risco não apenas resultados, mas vidas.
A ética na estética se manifesta em escolhas cotidianas. Está na indicação correta, inclusive quando a melhor conduta é não indicar. Está na transparência ao explicar limites, riscos e expectativas reais. Está na recusa em prometer o que não pode ser garantido. Está na decisão de não expor pacientes, de não usar narrativas sensacionalistas e de não transformar procedimentos em entretenimento.
Em tempos de ficção, ser ético exige coragem. Coragem para ir contra tendências vazias.
Coragem para sustentar o silêncio quando o mercado exige barulho. A ética não é um detalhe técnico; é um posicionamento profissional.
Também é importante lembrar que ética não se improvisa. Ela se constrói com formação sólida, atualização constante e consciência do impacto que cada decisão clínica carrega. A estética responsável não nasce da pressa, mas do critério. Não nasce da comparação, mas da individualização. Não nasce da promessa, mas do cuidado.
Talvez o maior desafio da estética atual seja justamente esse: resgatar o valor do real em meio à ficção. Recolocar a ética no centro da prática, não como discurso bonito, mas como conduta diária. Porque no fim, procedimentos passam, tendências mudam, plataformas se renovam. O que permanece é a marca deixada na vida das pessoas, para o bem ou para o dano.
Em um mercado cada vez mais ruidoso, a ética segue sendo o verdadeiro diferencial.
Silenciosa, firme e inegociável. É ela que separa quem apenas aparece de quem realmente
cuida.
