Por Daniela Silvério
Localizada em frente ao mar, no coração de Coconut Grove, a feira de arte Pinta Miami 2025 mais uma vez reafirma seu propósito: apresentar o melhor da arte moderna e contemporânea ibero americana, com foco especial na produção da América Latina. O clima tropical, a proximidade da água e a arquitetura aberta do espaço criam um cenário perfeito para obras que exploram cor, identidade, memória e experimentação.
Logo na entrada, a diversidade estética e conceitual já se impõe.
As cores são uma presença dominante nesta edição da feira. O uso de materiais não convencionais e abordagens experimentais também aparece repetidamente, reforçando como a arte latino americana continua a expandir suas próprias possibilidades. Foi ali que encontrei os primeiros artistas brasileiros desta semana, representados pela Galeria Aura, que veio de São Paulo.

O primeiro deles, Renan Telles, começou fotografando durante a pandemia. À medida que sua trajetória evoluiu e seus recursos também, Renan passou a incorporar a pintura a óleo no seu repertório. Hoje, cinco anos depois, ele apresenta trabalhos de grande sofisticação técnica, repletos de cor, detalhes minuciosos e referências à sua ancestralidade afroindígena. Sua produção multimídia revela potência, amadurecimento e um olhar que transita entre o documental e o imaginário.

Da mesma galeria, a artista Uýra levou uma das narrativas mais profundas de toda a Pinta. Nascida em Santarém e atualmente baseada em Manaus, Uýra é formada em Biologia e Mestra em Ecologia. Sua arte surge de um encontro entre ciência, ancestralidade e ativismo. Trabalhando com fotoperformance, ela usa o próprio corpo para narrar histórias que fotografa na floresta amazônica. Há uma espiritualidade viva em suas imagens, uma busca por renascença cultural indígena e uma afirmação poderosa de identidade. premiada internacionalmente e diretora de um documentário lançado em 2022, Uýra é hoje um dos nomes mais importantes da arte contemporânea amazônica.

Outra participação marcante foi a da artista espanhola Marina Vargas, apresentada pela Llamazares Galería. Multidisciplinaria e profundamente conectada ao universo feminino, Marina cria esculturas de corações em cerâmica que misturam rigor técnico, exuberância visual e aplicações de ouro. Sua obra dialoga com o neo barroco e discute símbolos, mitologia pessoal, sexualidade, fé e cicatrizes da vida real. A galerista nos guiou por uma narrativa íntima, incluindo a coleção que Marina produziu durante sua batalha contra o câncer de mama. A artista transforma experiências femininas em objetos que carregam beleza, dor e transcendência.

O trabalho da artista chilena Francisca Garriga, exibido pela Galeria Mancha é uma pesquisa visual parte de um gesto simples e absolutamente radical: o uso de palitos, tanto de dente quanto de churrasco, como matéria para investigar cor, espaço e forma. A obra se transforma conforme o espectador se move. A galerista me convidou a interagir e, ao tocar a peça, a estrutura mudava completamente a percepção, criando movimento e profundidade. Francisca combina elementos tradicionais da pintura com materiais cotidianos, resultando em composições vibrantes, lúdicas e surpreendentes.

Também esteve presente um dos nomes mais emblemáticos da arte latino americana: Fernando Botero. Renomado mundialmente e especialmente querido em Miami, Botero é reconhecido por retratar figuras humanas em volumes exagerados que podem representar crítica social, humor ou comentários sobre o cotidiano. Na Pinta, suas pinturas e desenhos reforçam sua habilidade única de explorar forma, movimento e cor de maneira inconfundível. Para quem vive em Miami, onde suas esculturas ocupam ruas e praças, vê-lo novamente em uma feira é reencontrar um velho conhecido.
A Pinta Miami 2025 permanece aberta até domingo, ao lado do Regatta Grove. É uma visita indispensável para quem deseja compreender a vitalidade atual da arte latino americana e como ela continua a reinventar narrativas, materiais e linguagens. Uma feira que celebra cor, identidade e experimentação e que reforça por que Miami se tornou uma das capitais culturais mais pulsantes do continente.

Dani Silverio é comunicadora e profissional de marketing, movida pela paixão por cultura, esporte e lifestyle como ferramentas de conexão. Seu trabalho une curadoria, storytelling e sensibilidade editorial para aproximar a comunidade brasileira da cena vibrante da cidade.
Com passagem por coberturas de arte, design, eventos esportivos e experiências locais, Dani desenvolveu um olhar atento aos detalhes e uma linguagem acessível, capaz de traduzir grandes acontecimentos em narrativas próximas e relevantes. Entre bastidores e tendências, seu foco está em contar histórias que criam pertencimento, ampliam repertório e fortalecem pontes entre Miami e o público brasileiro.
