Por Letícia Sangaletti
Estar prestes a ficar quatro dias longe do meu filho de seis meses é mais do que um ajuste de agenda. É um marco emocional, simbólico e, de certa forma, político da maternidade que eu vivo e escolho viver.
Bento vai ficar com meus pais, meu irmão e minha cunhada uma rede de apoio que não apenas ajuda, mas educa e ama junto comigo. Isso já desmonta uma ideia muito difundida sobre maternidade: a de que a mãe deve ser a única responsável, o corpo sempre disponível, a referência constante e insubstituível.
Eu não acredito nisso.
E confesso: para não acreditar, precisei aprender.
Ir por alguns dias me lembra que a maternidade não deve me aprisionar em um único papel. Eu continuo sendo profissional, mulher, autora de projetos que me movem. Ao mesmo tempo, continuo sendo mãe, talvez até uma mãe melhor quando tenho espaço para respirar, pensar e existir para além da rotina intensa que a maternidade impõe no início da vida do bebê.
A culpa aparece, claro. Ela carrega o eco de todos os discursos que nos ensinaram que amor se mede pela proximidade e pela doação total. Mas, à medida que Bento cresce, entendo que o meu amor não está apenas nas horas que passo ao lado dele, está na segurança que construímos, na previsibilidade do nosso vínculo, no afeto que ele reconhece mesmo quando não estou perto.
A minha ausência temporária será, para ele, uma presença ampliada: outros colos, outras vozes, outras formas de cuidado. Ele vai perceber que o mundo não depende só de mim, e isso é um aprendizado importante para ele, mas também para mim.
Esse afastamento me obriga a confiar na nossa relação, em quem cuida, em mim mesma, que o amor não se dissolve na distância.
Quando eu voltar, ele terá dado pequenos passos de autonomia sem nem perceber. E eu talvez volte com mais fôlego, mais presença, mais inteireza.
Estar longe, nesse momento, não enfraquece o que somos.
Pelo contrário: fortalece.
Porque um vínculo seguro é aquele que permite partir um pouco, sabendo que sempre haverá retorno.
Bentinho, volto logo, meu amor!
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