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Opinião

Romero Brito e a velha imagem do brasileiro no exterior

Por Rodrigo Lins

O recente episódio envolvendo o artista plástico Romero Brito em sua loja em Miami-FL trouxe à tona um viés social que vai além da polêmica: o declínio da imagem pedante e retrógrada, em geral preponderante, de brasileiros residentes no exterior, sobretudo nos Estados Unidos. Enquanto o fato ganha o noticiário americano com o depoimento acalorado da empresária venezuelana envolvida no caso, a representatividade de Brito junto à nossa comunidade parece esvaecer – o artista, durante as duas últimas décadas pelo menos, se firmou como uma espécie de ícone cultural da Terra Brasilis na popularíssima Miami.

As inúmeras opiniões que circulam nas redes e veículos brasileiros nos EUA apontam uma severa crítica à alegada postura hostil, mal-educada e arrogante do artista pernambucano, tanto no caso em questão, como em outras ocasiões rotineiras. Mas essa imagem lamentável não se reflete no cenário atual de atuação dos brasileiros em terras do Tio Sam.

A nova massa de imigrantes ‘made in Brazil’ tem trazido na sua bagagem um também novo perfil social e profissional. São, na sua maioria, cidadãos com excelente nível intelectual dispostos a consolidar uma carreira e investidores com larga experiência em negócios nos mais diversos setores. Essa é a versão positiva que nossos conterrâneos têm trazido consigo.

Um estudo recente elaborado pelos colegas pesquisadores Álvaro de Castro e Lima e Alanni Barbosa mostrou que os domicílios chefiados por imigrantes brasileiros tiveram uma renda domiciliar média anual de US$ 55.463 de dólares. Este rendimento foi superior ao dos domicílios chefiados pelos outros imigrantes (US$ 49.484) e superior ainda ao dos chefiados por americanos nativos (US$ 54.455).

A pesquisa, com base nos dados do governo americano e do governo brasileiro via Itamaraty, também revelou que a comunidade brasileira nos Estados Unidos está mais integrada do que a média dos outros imigrantes no país. E mais, é mais qualificada e, em muitos casos, ganha mais até do que os próprios americanos. De acordo com o levantamento, os brasileiros têm melhor nível educacional se comparado à média de todos os imigrantes. Sabe-se que 46% têm ensino médio completo e superior incompleto e 30% são graduados no ensino superior, contra 35% e 23% dos demais.

E é essa comunidade que está perplexa diante da polêmica que envolveu o artista plástico. Felizmente, episódios que retratam negativamente os brasileiros, a partir dessa nova comunidade, parecem ir ficando no passado. Não há mais espaço, nem suporte social e ideológico, para arroubos de superioridade pelo simples fato de residir nos EUA. Parece-nos também que nos aproximamos do fim da tal “americanização” de brasileiros que buscam incluir-se no “american way of life”. Cresce a cada dia o espírito de uma brasilidade com dignidade, respeito e reconhecimento pelos americanos do potencial brasileiro no país.

Profissionais de todos os matizes – engenheiros, professores, administradores, pesquisadores, gestores de TI, artistas, atletas, jornalistas, escritores, cabeleireiros, dj’s, e de outras especialidades formadas no Brasil, passaram a ser acolhidos legalmente no território americano sob a proteção dos vistos EB1, EB2 e H1B. Uma gente criativa e com alta escolaridade que tem sido recepcionada como extraordinária pelo governo americano.

De acordo com uma pesquisa do Bureau of Labor Statistics nos EUA, o percentual de estrangeiros que integram o mercado de trabalho americano e que possuem um diploma de bacharel ou formação superior é de 36,9%. Os que detêm diploma de ensino médio são 25,1%, percentual muito próximo ao de americanos nativos com diploma de ensino médio, de 25,6%.

Uma parcela considerável de novos imigrantes brasileiros carregam consigo a chance de renovação, em todos os estados americanos, da imagem do povo brasileiro, e do Brasil como grande e admirável país. Dados do Migration Policy Institute – MPI mostram que de 2010 a 2018 houve aumento considerável na população de imigrantes em estados não tão populares nos EUA como North Dakota, South Dakota, Minnesota, Delaware e Iowa. Em North Dakota, por exemplo, o aumento foi de 115%, em South Dakota de 58%, em Minnesota 28%, em Delaware 27% e em Iowa o número de imigrantes aumentou em 26% no período.

Ao que tudo indica, o episódio envolvendo Romero Brito parece ser o prenúncio do fim de uma imagem contraditória do brasileiro residente nos Estados Unidos. Quebrou-se a escultura, talvez um sinal para a ruptura definitiva da impressão de hostilidade, arrogância e sentimento de superioridade que não raramente se ouvia dizer de brasileiros que residem nos EUA. Um fim que esperamos ansiosamente.

Rodrigo Lins é Mestre em Comunicação, Especialista em linguagem audiovisual, Professor universitário, Pesquisador, jornalista e escritor. Teve a carreira profissional considerada extraordinária pelo Governo Americano e reside legalmente nos Estados Unidos. É autor do livro “Internacionalize-se: Parâmetros para levar a carreira profissional aos EUA legalmente” lançado em 2019. É CEO da agência de Comunicação, Marketing e Imprensa multinacional Onevox Global.

*Os artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da Florida Review Magazine

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Romero Brito and the old image of the Brazilian abroad

By Rodrigo Lins

The recent episode involving the artist Romero Brito in his store in Miami-FL brought to light a social bias that goes beyond the controversy: the decline of the pedantic and retrograde image, generally predominant, of Brazilians living abroad, especially in the United States. While the fact gets the American news with the heated testimony of the Venezuelan businesswoman involved in the case, Brito’s representativeness to our community seems to fade – the artist, at least during the last two decades, has established himself as a kind of cultural icon of the Earth Brasilis in the very popular Miami.

The innumerable opinions that circulate in Brazilian networks and vehicles in the USA point a severe criticism to the alleged hostile, ill-mannered and arrogant posture of the Pernambuco artist, both in the case in question and in other routine occasions. But this unfortunate image is not reflected in the current scenario of Brazilian action in the lands of Uncle Sam.

The new mass of immigrants ‘made in Brazil’ has also brought in their luggage a new social and professional profile. They are mostly citizens with an excellent intellectual level willing to consolidate a career and investors with extensive experience in business in the most diverse sectors. This is the positive version that our countrymen have brought with them.

A recent study by fellow researchers Álvaro de Castro e Lima and Alanni Barbosa showed that households headed by Brazilian immigrants had an average annual household income of $ 55,463. This income was higher than that of households headed by other immigrants ($ 49,484) and even higher than that of households headed by native Americans ($ 54,455).

The survey, based on data from the American government and the Brazilian government via Itamaraty, also revealed that the Brazilian community in the United States is more integrated than the average of other immigrants in the country. What’s more, she is more qualified and, in many cases, earns even more than the Americans themselves. According to the survey, Brazilians have a better educational level compared to the average of all immigrants. It is known that 46% have completed high school and incomplete higher education and 30% are graduated in higher education, against 35% and 23% of the others.

And it is this community that is perplexed by the controversy that involved the artist. Fortunately, episodes that negatively portray Brazilians, from this new community, seem to stay in the past. There is no more space, nor social and ideological support, for ravages of superiority due to the simple fact of residing in the USA. It also seems to us that we are approaching the end of such “Americanization” of Brazilians who seek to include themselves in the “American way of life”. The spirit of Brazilianness with dignity, respect, and recognition by the Americans of the Brazilian potential in the country grows every day.

Professionals of all stripes – engineers, teachers, administrators, researchers, IT managers, artists, athletes, journalists, writers, hairdressers, DJs, and other specialists trained in Brazil, have been legally welcomed in the American territory under the protection of EB1, EB2, and H1B visas. A creative and highly educated people who have been welcomed as extraordinary by the American government.

According to a survey by the Bureau of Labor Statistics in the USA, the percentage of foreigners who integrate the American labor market and who have a bachelor’s degree or higher education is 36.9%. Those with a high school diploma are 25.1%, a percentage very close to that of native Americans with a high school diploma, of 25.6%.

A considerable number of new Brazilian immigrants carry with them the chance to renew, in all American states, the image of the Brazilian people, and of Brazil as a great and admirable country. Data from the Migration Policy Institute – MPI show that from 2010 to 2018 there was a considerable increase in the immigrant population in states not as popular in the USA as North Dakota, South Dakota, Minnesota, Delaware, and Iowa. In North Dakota, for example, the increase was 115%, in South Dakota 58%, in Minnesota 28%, in Delaware 27% and in Iowa, the number of immigrants increased by 26% in the period.

Apparently, the episode involving Romero Brito seems to be the harbinger of the end of a contradictory image of the Brazilian resident in the United States. The sculpture was broken, perhaps a sign for the definitive rupture of the impression of hostility, arrogance, and a feeling of superiority that was rarely heard of Brazilians residing in the USA. An end that we look forward to.

Rodrigo Lins is a Master in Communication, Specialist in audiovisual language, University professor, Researcher, journalist, and writer. His professional career was considered extraordinary by the American Government and he legally resides in the United States. He is the author of the book “Internationalize yourself: Parameters to take your professional career to the US legally” released in 2019. He is CEO of the multinational Communication, Marketing and Press agency Onevox Global.

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