Por Mauro Victorio
Nos últimos anos, um termo ganhou destaque nos noticiários de economia, tecnologia e geopolítica: terras raras (rare earth elements – REEs). Apesar do nome, esses elementos não são exatamente “raros” na crosta terrestre, mas a sua extração e processamento são complexos, caros e concentrados em poucos países.
O interesse global por terras raras tem crescido não apenas por causa da corrida tecnológica, mas também pelo avanço das energias renováveis e pela disputa geopolítica entre potências como Estados Unidos e China, enquanto países como o Brasil começam a perceber seu potencial nesse mercado.
Alem dos elementos das chamadas terras raras, existem elementos fundamentais em setores estrategicos que sao chamados minerais criticos (critical minerals) pois constituem a base para a fabricacao de dispositivos tecnologicos aplicados a industria, sistemas de defesa, alem de geracao de energia. Um exemplo de mineral critico e o litio, utilizado na producao de baterias.
O que são terras raras?
O termo “terras raras” se refere a um grupo de 17 elementos químicos, incluindo o escândio, ítrio e os 15 elementos conhecidos como lantanídeos. Esses elementos têm propriedades magnéticas, luminescentes e eletroquímicas únicas, que os tornam insubstituíveis em várias aplicações modernas.
Você pode nunca ter visto uma barra de neodímio ou um cristal de lantânio, mas provavelmente usa produtos que dependem deles todos os dias. Entre as principais aplicações, estão:
- Tecnologia de consumo: smartphones, telas de LED, televisores, laptops e fones de ouvido.
- Indústria de microchips: etapas de fabricação de semicondutores utilizam terras raras para polimento, dopagem e camadas magnéticas.
- Energia limpa: turbinas eólicas e motores de veículos elétricos usam ímãs de neodímio-ferro-boro, que dependem fortemente desses elementos.
- Defesa e aeroespacial: sensores, radares, lasers e sistemas de comunicação.
A geopolítica das terras raras
Apesar de estarem presentes em diversos locais do planeta, as reservas economicamente viáveis e, principalmente, a capacidade de refino e processamento estão fortemente concentradas.
China: a superpotência das terras raras
A China não apenas possui grandes reservas (cerca de 40% de todas as reservas mundiais estao em solo chines), mas também domina cerca de 60–70% da produção mundial e mais de 80% do processamento.
Esse controle dá ao país um poder estratégico imenso. Pequim já usou essa vantagem como ferramenta política e econômica, restringindo exportações em disputas comerciais. Além disso, a China investiu maciçamente em tecnologia de refino, algo que outros países ainda tentam recuperar.
Estados Unidos: dependência e busca por autonomia
Os EUA foram pioneiros na exploração de terras raras no século XX, mas perderam espaço para a China a partir da década de 1990, quando questões ambientais e custos de produção levaram ao fechamento de minas.
Hoje, o país busca reverter essa dependência com incentivos para mineração interna e investimentos em cadeias de processamento, além de parcerias com aliados para ampliar as opcoes de fornecimento.
Brasil: potencial ainda pouco explorado
O Brasil tem uma das maiores reservas estimadas do mundo, ocupando o segundo lugar em volume, tendo aproximadamente 20% do total de reservas globais dos elementos que compoem o grupo das “terras raras”, especialmente em regiões como Amazônia, Minas Gerais, Goiás e Bahia.
Apesar disso, a exploração ainda é incipiente. Barreiras tecnológicas, ambientais e regulatórias atrasam a entrada do país no mercado global, mas estudos indicam que, com investimento e parcerias estratégicas, o Brasil poderia se tornar um fornecedor relevante, especialmente para mercados ocidentais em busca de alternativas à China.
Importância para microchips e energia
A disputa pelas terras raras não é apenas sobre matéria-prima: é sobre o controle das cadeias de suprimento de setores-chave do futuro.
Na indústria de microchips
A fabricação de semicondutores, peça central de praticamente todos os dispositivos eletrônicos modernos, requer precisão atômica. Elementos como o térbio e o európio são usados em lasers e no polimento de wafers de silício, enquanto o disprósio e o neodímio aparecem em componentes magnéticos de alta performance. Sem acesso seguro a esses insumos, a produção de chips pode enfrentar gargalos.
Na transição energética
Turbinas eólicas, painéis solares de alta eficiência, baterias de veículos elétricos e até sistemas de armazenamento de energia dependem de terras raras. Sem eles, a transição para fontes limpas ficaria mais cara e lenta.
A demanda deve crescer exponencialmente nas próximas décadas, especialmente à medida que países adotam metas de neutralidade de carbono.
Impactos econômicos e ambientais
A mineração e o refino de terras raras apresentam desafios ambientais sérios. O processo de extração envolve produtos químicos tóxicos e pode gerar resíduos radioativos.
Por isso, países produtores enfrentam dilemas: aumentar a oferta para atender a demanda global ou adotar restrições para proteger o meio ambiente.
Economicamente, o controle dessas cadeias pode se traduzir em vantagem estratégica. Quem domina o fornecimento de terras raras influencia não apenas a indústria de alta tecnologia, mas também o ritmo da transição energética global.
O que esperar para o futuro?
A tendência é que a demanda por terras raras continue crescendo, puxada por três grandes forças:
- Avanço da inteligência artificial e internet das coisas – que dependem de mais chips e sensores.
- Transição para energia limpa – com carros elétricos e geração eólica em alta.
- Reconfiguração geopolítica – com países buscando reduzir dependência da China.
Para o Brasil, isso representa uma oportunidade unica — e estratégica — de se posicionar como ator relevante em um mercado dominado por poucos. Para os EUA, é uma corrida contra o tempo para reconstruir a cadeia industrial. E para a China, é a chance de consolidar ainda mais seu papel central na economia do século XXI.
Assim, as terras raras são o “petróleo” da era digital e verde. Quem as controla, controla parte significativa do futuro tecnológico e energético do planeta.
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