Por Dra. Leticia Sangaletti
O digital se tornou uma extensão de identidade, me acompanha uma pergunta incômoda, porém necessária, e que insisto em carregar nas mentorias, nas palestras e, nos trabalhos de estratégia de comunicação: ao olhar seu Instagram, tu te contratarias? Pode parecer uma pergunta direcionada apenas a quem busca posicionamento profissional, porém, acredito que ela diz muito mais e toca em um ponto mais profundo, o da coerência entre o que somos e o que mostramos.
Um estudo sobre a comunicação de sentimentos e atitudes do professor da UCLA, Albert Mehrabian, propõe que 93% da comunicação humana é não verbal. Conforme a pesquisa, 55% da mensagem é transmitida por linguagem corporal (incluindo expressão facial); 38% pelo tom de voz e apenas 7% pelas palavras. Embora estes números não se apliquem a todas as formas de comunicação, eles indicam que em contextos de comunicação emocional ou interpessoal, o não-verbal predomina.
Hoje em dia é muito difícil “a primeira impressão” ser pessoalmente, ao vivo. Ela ocorre por meio das redes sociais. A gente sempre vai olhar quem é, o que faz, como se comporta, e muitas vezes encontramos abismos abissais enrte o que a pessoa é e o que ela apresenta ali. É como se perdêssemos a nossa “aura” (o que escapa à reprodução), como refere Walter Benjamin ao discutir a reprodutibilidade técnica da arte. Será que estamos mantendo nossa aura nos perfis sociais, ou nos afastando dela?
E aí, mais importante do que a beleza e do cuidado visual nas suas redes, é necessário olhar para a identidade, ou a ausência dela. Não adianta seu feed ser impecável, ter frases bem compostas, vídeos bem elaborados, assim como não adianta ter um perfil desleixado, se a sua ausência ali for simbólica. Se quando te encontrarem pessoalmente, não será a mesma pessoa. Não tente entrar em um molde usando o mesmo vocabulário, a mesma paleta de cores, como se estivesse entrando em uma forma. Seja você e comunique isso.
Comunicar identidade e autenticidade é um gesto de autoria. Clarice Lispector disse: “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”. E é tão verdadeiro que podemos tu podes levar para tua marca pessoal. Ao padronizar, editar demais, corre-se o risco de realizar um apagamento do que te faz único.
Nas minhas palestras sempre falo sobre a bebida: se eu publicar uma foto com um copo de cerveja, vou conectar com um público, se eu publicar uma taça de vinho, com outro. Agora devo pensar: com quem eu quero me conectar? Como publicar algo que as pessoas entendam que estou em um momento de lazer me divertindo e não pense erroneamente sobre mim?
Então, ao olhar para o seu Instagram, pense bem no que está apresentando ao mundo e qual a sua intencionalidade. Costumo dizer que posicionamento não é sobre o que tu mostras, mas sobre o que tu sustentas. E isso exige repertório, escuta e coragem. Não se trata de contar tudo, mas de contar com verdade. De alinhar o que se vive com o que se comunica. De deixar que as redes funcionem como uma extensão legítima da sua voz no mundo.
Por isso, volto à pergunta inicial: tu te contratarias ao olhar teu Instagram? Sentiria firmeza? Clareza? Potência? Reconheceria ali uma história? Ou veria apenas mais uma tentativa de agradar ao algoritmo, mais uma repetição de fórmulas prontas?
Então fica o convite para que revisites o teu perfil e veja que história ele está contando. E lembre-se: se tu não cuidares de contá-la, alguém contará por ti.
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