Texto de Kiki Garavaglia
A maioria das pessoas conhece Roma, a chamada “Cidade Eterna”. Eu morei lá por quatro anos, ainda jovem, e acabei me sentindo uma verdadeira romana. Mesmo depois de voltar ao Brasil, continuei visitando a cidade com frequência, até perceber que nada mudava. Foi então que parei de ir.
As rotinas eram sempre as mesmas: compras na Via Condotti ou na Via delle Carrozze, jantares no Nino ou no Dal Bolognese, na Piazza del Popolo. Tudo permanecia igual. Surgiam alguns bistrôs modernos, mas logo desapareciam. A comida, porém, seguia com aquele sabor inalterado, sempre delicioso.

Uma lembrança curiosa envolve a nossa embaixada em Roma, considerada por muitos a mais bela das embaixadas brasileiras. O príncipe Doria Pamphili chegou a oferecer ao Brasil a compra de “uma parte” de seu palácio. Quando meu pai comentou o assunto com o embaixador da época, Hugo Gubert, a resposta foi imediata: “Uma parte? Vamos comprar o palácio inteiro!”.
O edifício ainda era habitado por várias famílias que ali haviam nascido, mas logo foram transferidas para apartamentos modernos. Todos ficaram encantados. O mais divertido, porém, foi a ideia de criar um quarto especial, decorado inteiramente em vermelho. Sempre que recebia um deputado ou senador, o embaixador dizia, com pompa: “Vou te colocar no Quarto do Cardeal”, o mais importante do palácio. E os visitantes se sentiam verdadeiramente honrados.
Outro fato fascinante sobre Roma é a sua origem. Ao contrário de outras metrópoles, que começaram como pequenos vilarejos, a cidade cresceu impulsionada pelo poder das sete famílias mais influentes. Cada dinastia buscava afirmar sua importância construindo palácios, fontes, praças, bosques e jardins – sempre competindo em beleza e grandiosidade.

Entre essas construções está o Palácio Doria Pamphili, o Palácio Colonna e o Palácio della Rovere, ligado à famosa Capela Sistina no Vaticano. Foi um de seus papas quem encomendou a Michelangelo, em 1508, a pintura do teto com a cena de Deus criando o mundo. Até hoje, mais de 8 milhões de pessoas visitam anualmente esse afresco, considerado uma das obras mais impressionantes da humanidade.
A família Farnese construiu o palácio que hoje abriga a Embaixada da França. Já a família Borghese deixou um palácio repleto de obras de Tiziano e Corregio, além de um bosque no coração da cidade. Por fim, a poderosa família Chigi contratou o arquiteto Peruzzi em 1506 para erguer seu palácio, que guarda afrescos renascentistas pintados por Rafael.
Roma é assim: eterna não apenas pelo tempo que atravessa, mas também pela soma de histórias, famílias e obras que a transformaram em um dos lugares mais fascinantes do mundo.
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