Tarifas subindo, manchetes sobre “desglobalização”, cadeias de suprimento reconfiguradas. E, ainda assim, o comércio internacional não parou, pelo contrário, mostrou fôlego em 2025. O Global Connectedness Tracker, parceria do DHL Group com a NYU Stern, traz um retrato com duas mensagens simultâneas: no curtíssimo prazo, tarifas e incerteza derrubaram previsões para 2025–2026; mas, olhando 2025–2029, a projeção é de crescimento em ritmo parecido ao da última década.
O Global Connectedness Tracker é um painel que acompanha quatro “fluxos” transfronteiriços, como comércio, capital, informação e pessoas, e mede a profundidade (quanto cada país participa em proporção à sua economia) e a amplitude geográfica (quão diversificados são os parceiros). A edição especial de outubro de 2025 incluiu leituras mensais de comércio e trimestrais de investimento para capturar, em tempo quase real, o impacto de novas tarifas. O quadro-geral: o comércio não desabou; ele está se reorganizando.
O que os dados dizem
- Crescimento surpreendente em 2025. No primeiro semestre, o comércio global cresceu mais rápido do que em qualquer semestre desde 2010 (descontando o “rebote” pós-pandemia).
- Previsões ajustadas, não colapso. As altas de tarifas levaram a revisões para baixo nas projeções de 2025–2026, com América do Norte sofrendo o maior corte. Já América do Sul & Central e Oriente Médio & Norte da África foram as únicas regiões com melhora nas perspectivas. Para 2025–2029, a taxa anualizada prevista de expansão do comércio gira perto de 2,5%, algo “na média” do que vimos nos anos anteriores.
- Globalização segue alta. Um relatório anterior do mesmo grupo já mostrava que a conectividade global bateu recorde em 2022 e ficou próxima disso em 2023, ou seja, a base de integração segue ampla.
Por que isso importa para preços, empregos e consumo
1) Preços: tarifas aparecem no caixa do supermercado
As tarifas funcionam como imposto sobre importados. Parte desse custo vira preço final de alimentos a bens de consumo. Em 2025, por exemplo, a combinação de safra fraca e novas tarifas sobre produtos do Brasil ajudou a puxar o preço do café no varejo americano para máximas históricas; o índice de café subiu cerca de 21% em 12 meses em agosto, e embarques brasileiros para os EUA despencaram naquele mês. (Financial Times)
No caso das carnes, frigoríficos brasileiros estimaram perdas de US$ 1 bilhão se tarifas elevadas sobre a carne forem mantidas, o que pode encarecer hambúrguer no mercado americano, hoje com oferta doméstica mais apertada. É um exemplo didático: quando um grande fornecedor paga mais para entrar, a conta tende a chegar ao consumidor.
2) Empregos com ajustes setoriais
Tarifas reorganizam a produção: enquanto alguns setores locais ganham proteção e investimento; outros perdem acesso a insumos baratos ou a mercados. No Brasil, estudos de 2025 estimaram que tarifas generalizadas dos EUA poderiam tirar até 0,2 p.p. do PIB e afetar empregos em cadeias expostas (aço, alimentos, café, aeronáutica). Nos EUA, a proteção tenta ancorar fábricas e empregos industriais, mas pressiona custos de insumos, um trade-off clássico e esperado.
3) Consumo com substitutos e “desvio de comércio”
Mesmo com tarifas, compradores buscam rotas alternativas: outros fornecedores, produtos substitutos, ou trazem parte da produção para mais perto (nearshoring). O Tracker mostra que o efeito líquido tem sido realinhamento, não retração generalizada — com alguns fluxos migrando de regiões pressionadas (por tarifas ou geopolítica) para outras com acesso preferencial ou acordos mais estáveis.
Quem vive nos EUA deve se preparar para oscilações de preço em itens sensíveis (café, carne, aço, bens eletrônicos com componentes importados). Alguns supermercados e redes tentam amortecer picos, mas nem sempre conseguem, sobretudo quando tarifas se somam a choques climáticos. Em contrapartida, políticas industriais e de proteção podem anunciar novos investimentos em segmentos estratégicos (aço, baterias, semicondutores), com efeitos locais sobre emprego qualificado e tempo de maturação.
Se você é profissional de economia ou relações internacionais, ou é um entusiasta em economia política, proponho três ideias-guias para analisar as futuras movimentações do comércio global. Primeiro, evite narrativas de “fim da globalização”. O dado central do relatório nos mostra que os fluxos mudam de rota, mas continuam existindo. Para empresas e consumidores, isso significa ajustes de preço e prazo, não necessariamente ruptura de cadeias de comércio.
Segundo, faça a análise principalmente das cadeias críticas. Setores com poucos fornecedores ou dependentes de insumos específicos (ex.: café arábica de alta qualidade, certos metais especiais, componentes elétricos, tecnologia de ponta) sentem tarifas mais rápido no preço final. Além de que, os setores críticos frequentemente são os objetos das tarifas.
E, por fim, considere não somente a dinâmica global dos preços, mas também o impacto social. A mesma tarifa pode proteger um emprego em um país e encarecer em outro. Acompanhar acordos comerciais, decisões tarifárias e incentivos das contrapartes é importante, mas entender os impactos disso nas famílias nos ajudar a visualizar melhor os seus efeitos.
Ao que parece, a dinâmica do mercado em 2026 será menos sobre “quanto” se comercializa e mais sobre “como e com quem”, o xadrez do comércio global está mudando (de parceiros, de direção e de intensidade), mas a partida está longe de acabar.
Emanuel Farias é formado em Relações Internacionais e atua na área de marketing internacional e produção de conteúdo digital. Já trabalhou com tradução, atendimento internacional e branding, com foco em comunicação intercultural e posicionamento estratégico.
