Por Juliana Braescher – Advogada e Colunista da Flórida Review Magazine
Por muito tempo, o juridiquês — linguagem repleta de termos técnicos e formalismos — foi tratado como sinônimo de autoridade em documentos jurídicos. Não raro, esse discurso rebuscado serviu como um instrumento de poder e exclusão, criando um abismo entre o mundo do direito e as pessoas comuns. O que nem sempre se percebe de imediato são os custos invisíveis dessa linguagem opressiva: insegurança do leitor, retrabalho, conflitos desnecessários e corrosão da confiança.
O uso excessivo de jargões, frases longas e estruturas sintáticas complexas dificulta a compreensão dos desses documentos pela população em geral. Em consequência, muitos cidadãos ficam afastados do pleno exercício de seus direitos. Essa barreira compromete a transparência e reforça a ideia de que a lei não é para todos.
A primeira vítima da linguagem inacessível é a confiança do leitor. Imagine um consumidor diante de um contrato repleto de termos arcanos: a reação natural é sentir-se inseguro quanto ao que está assinando. Pesquisas indicam que as pessoas tendem a desconfiar do que não compreendem; empresas que se comunicam em juridiquês acabam minando a credibilidade junto ao público. Da mesma forma, políticas internas escritas num tom autoritário e hermético geram ansiedade nos funcionários, que receiam violar regras incompreensíveis.
Além do impacto psicológico, documentos jurídicos obscuros acarretam prejuízos concretos. Textos confusos geram interpretações divergentes que resultam em retrabalho e disputas evitáveis. Cláusulas ambíguas podem levar as partes ao tribunal para esclarecer obrigações que deveriam estar escritas de forma simples. No Judiciário, decisões mal redigidas multiplicam recursos e pedidos de esclarecimento, desperdiçando tempo e dinheiro que poderiam ser poupados com uma redação clara. A falta de clareza cobra seu preço em custos legais e sobrecarga do sistema de resolução de conflitos.
Esse problema ganha contornos sociais graves, pois a linguagem jurídica rebuscada tende a reforçar desigualdades. Grupos vulneráveis ou pessoas com menor escolaridade são os mais prejudicados, já que enfrentam dificuldades maiores para decifrar textos jurídicos complexos. Nesses casos, o direito que deveria proteger acaba sendo exclusividade de quem domina o jargão. Estudiosos apontam a comunicação jurídica opaca como fator de exclusão social que afasta o cidadão comum do entendimento de seus direitos. Nos contratos de adesão – de consumo ou trabalhistas – essa dinâmica é especialmente perversa. O indivíduo, já em posição frágil, depara com um texto indecifrável e se vê obrigado a aceitar termos que não consegue avaliar plenamente.
Nos Estados Unidos, a lei federal Plain Writing Act (2010) obriga órgãos públicos a redigir documentos oficiais de forma clara e compreensível. Essa medida trouxe benefícios práticos. Diminuiu, por exemplo, a necessidade de assistência jurídica para entender formulários governamentais, e reduziu disputas causadas por regulamentos ambíguos. Paralelamente, movimentos de Plain Language (linguagem clara) e projetos de documentação inclusiva ganharam terreno, promovendo contratos mais transparentes. A ideia central é que a linguagem simples não reduz a seriedade do documento, e sim amplia o acesso e a confiança do público.
No setor privado, algumas empresas já perceberam os ganhos de uma linguagem mais simples e humana em documentos legais. Pesquisas nos EUA indicam que consumidores confiam mais em companhias cujos termos de uso são redigidos em linguagem clara e direta. Plataformas digitais como o Pinterest e o Kickstarter oferecem resumos amigáveis de seus contratos de uso, facilitando o entendimento pelo usuário comum. Essa reformulação evita surpresas e disputas, além de melhorar a relação com os usuários ao demonstrar respeito e transparência.
Mais do que uma questão de estilo, simplificar a linguagem jurídica é um investimento em equidade e eficiência. Experiências internacionais mostram que textos legais claros reduzem conflitos, ampliam o acesso à justiça e fortalecem a confiança nas instituições. Especialistas ressaltam que modernizar a comunicação jurídica não é “abrir mão” da formalidade, e sim assumir um compromisso com transparência e inclusão social. Em outras palavras, combater a linguagem opressiva nos documentos jurídicos é remover barreiras invisíveis para que a lei cumpra seu papel de forma democrática.

Dani Silverio é comunicadora e profissional de marketing, movida pela paixão por cultura, esporte e lifestyle como ferramentas de conexão. Seu trabalho une curadoria, storytelling e sensibilidade editorial para aproximar a comunidade brasileira da cena vibrante da cidade.
Com passagem por coberturas de arte, design, eventos esportivos e experiências locais, Dani desenvolveu um olhar atento aos detalhes e uma linguagem acessível, capaz de traduzir grandes acontecimentos em narrativas próximas e relevantes. Entre bastidores e tendências, seu foco está em contar histórias que criam pertencimento, ampliam repertório e fortalecem pontes entre Miami e o público brasileiro.