Depois de mais de duas décadas de conversas intermitentes, idas e vindas diplomáticas e longos impasses ambientais, 2026 começa com um novo movimento em direção à conclusão do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. A possibilidade de retomada estruturada das negociações voltou ao centro do debate internacional após gestos políticos recentes de Bruxelas e dos governos sul-americanos, indicando um cenário mais favorável do que aquele observado nos últimos quatro anos.
Para entender o momento atual, é necessário revisitar brevemente a lógica do acordo (um dos mais amplos já negociados pela UE), cobrindo comércio de bens, serviços, compras governamentais, barreiras técnicas e compromissos ambientais. Assinado tecnicamente em 2019, ele jamais entrou em vigor porque dependia da ratificação de todos os Estados-membros europeus. E foi justamente aí que surgiram os bloqueios: pressões ambientais, oposição de agricultores europeus, crises políticas internas e mudanças de governo interromperam o caminho do pacto.
Em 2025, porém, as condições começaram a se mover novamente.
O que é o acordo UE–Mercosul?
O acordo prevê a redução gradual de tarifas entre os blocos, ampliando a circulação de produtos agrícolas e industriais, aumentando acesso a mercados e criando regras mais previsíveis para comércio e investimentos. Em termos práticos, ele busca:
- tornar exportações mais competitivas por meio de cortes tarifários;
- reduzir burocracias técnicas e facilitar o comércio;
- abrir setores regulados à competição internacional;
- estabelecer compromissos ambientais alinhados ao Acordo de Paris.
Para o Mercosul e, portanto, para o Brasil, trata-se de uma oportunidade de diversificar exportações, integrar cadeias globais de valor e ampliar previsibilidade para investimento estrangeiro. Para a UE, o interesse se concentra em consolidar espaço econômico na América do Sul em um momento de forte competição geopolítica com China e EUA.
Havia três fatores centrais de bloqueio nas negociações:
- Preocupações ambientais de países como França, Irlanda e Áustria, sobretudo ligadas ao desmatamento e ao monitoramento da cadeia agropecuária.
- Pressão de agricultores europeus, que temiam concorrência de produtos sul-americanos com custos menores.
- Mudanças internas tanto na UE quanto no Mercosul, que repetidamente colocaram o acordo em “hibernação processual”.
Mas 2025 trouxe novos elementos à mesa. A atual presidência rotativa da UE, ocupada por países mais alinhados à agenda comercial, retomou a articulação por uma versão revisada do acordo, com foco em dois pontos:
- regras ambientais mais objetivas e verificáveis, substituindo cláusulas vagas por mecanismos de monitoramento aceitos por ambos os lados;
- ajustes graduais em setores sensíveis, permitindo flexibilizações sem comprometer competitividade europeia ou acesso aos mercados sul-americanos.
Além disso, a Comissão Europeia confirmou estar reformulando partes do texto, especialmente o instrumento adicional ambiental. O Mercosul, por sua vez, se mostrou disposto a negociar metas ambientais mais claras, com base nos compromissos reforçados apresentados durante a COP30 em Belém.
Leia: COP30: o que ficou decidido em Belém e por que isso importa?
Tivemos também flexibilizações por parte de governos europeus antes resistentes, como a França e a Áustria, que passaram a admitir que, com as revisões em andamento, “há espaço para uma solução diplomática”. O próprio Parlamento Europeu também indicou que está aberto a considerar uma ratificação escalonada, algo que não era cogitado antes.
Tudo isso forma o movimento mais concreto desde 2019.
O sentimento é de um otimismo cauteloso
Diferentemente das tentativas anteriores, há hoje um fator novo e objetivo que permite enxergar o avanço com bons olhos: a pressão geopolítica por diversificação comercial dentro da própria União Europeia.
Desde 2022, a UE vem acelerando acordos comerciais para reduzir dependência externa de mercados concentrados, especialmente China e Rússia. Isso tornou o acordo com o Mercosul estrategicamente conveniente, não apenas comercialmente desejável.
Ou seja:
A UE agora precisa do acordo mais do que antes.
E essa mudança de motivação produz efeitos diplomáticos reais.
Já do outro lado, o Mercosul está mais coeso internamente após ciclos de transição política, e a COP30 fortaleceu a credibilidade ambiental da América do Sul (um dos pontos mais sensíveis para os líderes europeus).
Nada garante a implementação imediata, as negociações continuam complexas mas, pela primeira vez desde 2019, existe alinhamento de incentivos entre os dois blocos. Isso não representa otimismo ingênuo, e sim a leitura de que o cenário internacional de 2026 cria condições mais favoráveis do que já tivemos em todos esses anos.
Emanuel Farias é formado em Relações Internacionais e atua na área de marketing internacional e produção de conteúdo digital. Já trabalhou com tradução, atendimento internacional e branding, com foco em comunicação intercultural e posicionamento estratégico.
