Há algo profundamente simbólico nos indicados a Melhor Filme da 98ª cerimônia do Oscar. Bugonia, Frankenstein e Sinners transitam pelo horror e pela ficção científica, territórios tratados como marginais pela Academia durante décadas. Para quem acompanha o cinema de gênero, isso é histórico.
O gênero já vinha ocupando o centro das grandes premiações. Titane levou a Palma de Ouro em 2021, A Substância venceu o Oscar de Roteiro Original no ano passado, e Pobres Criaturas, de Yorgos Lanthimos, conquistou o Leão de Ouro e o Oscar de Melhor Atriz em 2023. Obras que romperam a fronteira artificial entre cinema de arte e cinema fantástico e consolidaram o gênero como linguagem sofisticada, capaz de traduzir o espírito do tempo.
Na cerimônia, que acontecerá em 15 de março de 2026, destacam-se três narrativas que têm como pano de fundo uma profunda inquietação com as questões morais do nosso tempo, com o desenvolvimento exponencial das novas tecnologias como inteligência artificial e bioengenharia. Essa amostragem de filmes que não estão apenas no centro das discussões atuais, mas oferecem altos níveis de entretenimento e satisfação de público, indicam que o gênero seja a melhor forma de sintetizar o sentimento de absurdo ao qual está sujeito qualquer ser humano em 2026.
Bugonia é evidência da inquietação em relação aos rumos da humanidade e a deliberação sobre a própria capacidade do ser humano de ser bom para si mesmo e para o planeta. Emma Stone atua como produtora e interpreta uma extraterrestre, numa parceria criativa com Yorgos Lanthimos que já rendeu a estatueta de Melhor Atriz em 2024, por Pobres Criaturas. Não darei mais spoilers, mas percebam, quando assistirem, como o filme tangencia imaginários do esoterismo gnóstico e das teorias dos arcontes, entidades descritas como forças que interferem na consciência humana, e que funcionam como metáforas poderosas para a sensação de engenharia invisível da realidade, e de um mundo moldado por forças opacas.
Frankenstein retorna ao romance de Mary Shelley de 1818 com a pergunta que a bioengenharia tornou urgente: qual é a responsabilidade de quem fabrica vida? A criatura de Shelley sente, pensa, sofre. O que a condena é o abandono do criador. Em 2026, com a inteligência artificial redefinindo os limites da consciência, a inquietação com os limites morais da criação e da reprodução de inteligência está premente, principalmente com a possibilidade real de uma consciência fabricada.
Sinners articula camadas de tensões raciais profundamente enraizadas na história. O horror ali é estrutural. Os vampiros têm estética que evoca em espírito a tradição de I Am Legend de Richard Matheson, ainda que Coogler, o diretor, siga seus próprios caminhos. Os vampiros aqui falam, se infiltram, se disfarçam, seduzem. O filme examina as máscaras que criamos enquanto sociedade, as formas como camuflamos tensões herdadas e não resolvidas, e nos põe a perguntar quais, entre nós, estariam performando humanidade, e quais, entre nós, seriam os ‘predadores’.
Esses filmes dependem de atuações de peso. Emma Stone e Michael B. Jordan são também produtores, propositores de narrativas character driven que não apenas conquistam o público pela visualidade, mas pela potência emocional. Afinal, é isso que leva audiências às salas de cinema ou a apertar play na televisão, numa era em que muitos desses filmes chegam também pelo streaming. Michael B. Jordan, em Sinners, carrega o peso de personagens (gêmeos) que enxergam a própria realidade com lentes que revelam as estruturas de sangue e conflito que embasam a sociedade moderna. Há um preço pessoal nessa lucidez, um limite tênue entre libertação e moralidade que o filme examina sem oferecer respostas fáceis. O gênero, quando bem conduzido, revela que o extraordinário só funciona ancorado no humano.
Ver horror e ficção científica no centro da maior premiação do cinema é um sintoma cultural. Esses filmes tocam arquétipos profundos, tensionam nossa percepção do bem e do mal, da identidade e da alteridade. Obrigam-nos a encarar aquilo que preferimos mascarar. Talvez, o cinema de gênero seja hoje uma das formas mais honestas de falar sobre quem somos e sobre o que estamos nos tornando.

Anna Hartmann, atriz e diretora, nasceu em Porto Alegre, Brasil.
Na televisão, atuou em grandes produções de empresas mundialmente reconhecidas como Globo, HBO, FOX, MTV, Sony International e Netflix. Ela estrelou a série Reality Z (2020) da Netflix, coproduzida por Charlie Brooker (Black Mirror), e acumulou onze créditos na tela, incluindo dois em grandes longas-metragens, produzidos pela RT Features e Mercado Filmes. É Bacharel em Comunicação e Cinema pela FAAP. Seu primeira curta-metragem, Meu Outro Nome é Luiza, circulou internacionalmente e estreou no Brasil na Mostra de Cinema de Tiradentes (2022).
