Eu amo Adèle Exarchopoulos. Amo desde sua estreia em Azul é a Cor Mais Quente, passando por Passages, de Ira Sachs, e voltando a Sibyl, de Justine Triet, o filme que primeiro colocou Adèle na órbita de Triet, antes de a diretora ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original por Anatomia de Uma Queda.
Talvez seja porque ela come de boca aberta, com os cantos dos lábios manchados de molho de tomate. Talvez seja porque, quando chora, deixa o nariz escorrer livremente e não se dá ao trabalho de limpar, fundo demais dentro da personagem para se importar. Talvez seja o coque desfeito que ela insiste em usar. Adèle é bagunçada. Adèle é familiar. Adèle é linda. Adèle ri alto e sem freio. Adèle ‘is my girl’.
Mas existe uma outra Adèle agora. O Acidente de Piano, de Quentin Dupieux, lançado na França em 2025, lhe entrega um papel que rompe com todos os hábitos que eu havia construído ao amá-la. Ela interpreta Magalie, uma estrela da web riquíssima que fez fortuna postando conteúdos chocantes nas redes e que se refugia num chalé nos Alpes franceses, junto com seu assistente pessoal, depois de um acidente grave durante uma de suas filmagens. Uma jornalista a localiza e começa a chantageá-la. Não vou dar nenhum spoiler, exceto dizer que Magalie não é o tipo de fenômeno das redes que você está imaginando, e que o conteúdo chocante dela é mais chocante do que qualquer coisa que você possa supor.
Dupieux é um dos cineastas mais estranhos em atividade na França hoje, um diretor e músico eletrônico autodidata (assina suas faixas como Mr. Oizo) cuja filmografia é um longo desfile de provocações absurdistas. Ele se firmou internacionalmente com Rubber, o filme de 2010 sobre um pneu assassino e senciente, que estreou na Semana da Crítica de Cannes. De lá vieram O Couro, de Jean Dujardin, Mandíbulas, a sátira de humor seco Fumar Faz Tossir, a comédia de sequestro Yannick, o delírio felliniano Daaaaaalí!, sobre Salvador Dalí, e O Segundo Ato, que abriu o Festival de Cannes em 2024. Ele filma rápido, escreve mais rápido ainda, e parece incapaz de fazer dois filmes iguais.
Qualquer um dos filmes dele vai te surpreender. Mas se você quer a estranheza de Dupieux fundida com a nossa Adèle, este é o filme. Não venha procurando a mulher bonita que ela é sempre obrigada a ser. Aqui ela está propositalmente feia, ou pelo menos o filme faz uma tentativa real disso: braço engessado, pescoço imobilizado, aparelho nos dentes, uma peruca dura plantada na cabeça como uma má ideia. Ela está propositalmente excêntrica. Está propositalmente desligada da emoção humana ordinária que costuma se grudar nos seus papéis. A Adèle que eu amo é chorona, amante da vida, dançarina, menina luminosa. A Adèle de O Acidente de Piano é uma doida. É má. E o fato dela ter conseguido ir até lá, e ficar lá durante noventa minutos, me faz amá-la ainda mais.
O Acidente de Piano participou da Competição Progressive Cinema da 20ª edição do Festival de Cinema de Roma, em outubro de 2025, passou pelo Fantastic Fest e foi exibido no Festival du Nouveau Cinéma de Montreal, na seleção Temps Ø. Já está disponível com exclusividade no MUBI.

Anna Hartmann, atriz e diretora, nasceu em Porto Alegre, Brasil.
Na televisão, atuou em grandes produções de empresas mundialmente reconhecidas como Globo, HBO, FOX, MTV, Sony International e Netflix. Ela estrelou a série Reality Z (2020) da Netflix, coproduzida por Charlie Brooker (Black Mirror), e acumulou onze créditos na tela, incluindo dois em grandes longas-metragens, produzidos pela RT Features e Mercado Filmes. É Bacharel em Comunicação e Cinema pela FAAP. Seu primeira curta-metragem, Meu Outro Nome é Luiza, circulou internacionalmente e estreou no Brasil na Mostra de Cinema de Tiradentes (2022).
