Durante muito tempo, conquistar a cidadania italiana representava o fim de um processo.
O objetivo era claro: obter o reconhecimento, emitir o passaporte e, a partir disso, garantir a liberdade de circulação pela Europa.
Mas essa lógica começou a mudar.
E, para quem já possui a cidadania italiana, especialmente brasileiros que vivem nos Estados Unidos, uma nova etapa passou a ganhar relevância: a forma como essa cidadania é estruturada na prática.
O ponto central dessa mudança está em um elemento que, até pouco tempo, era tratado como meramente burocrático: o AIRE.
O registro no AIRE (Anagrafe degli Italiani Residenti all’Estero) sempre foi obrigatório para cidadãos italianos que vivem fora da Itália. Ainda assim, na prática, foi frequentemente negligenciado ou tratado como uma formalidade sem impacto direto na vida cotidiana.
Hoje, esse cenário é diferente.
Com o AIRE devidamente atualizado, o cidadão italiano passa a ter acesso a uma série de serviços que antes estavam restritos ou dificultados — entre eles, um dos mais relevantes: a possibilidade de emissão da carteira de identidade italiana diretamente na Itália.
A chamada CIE (Carta d’Identità Elettronica) não é apenas um documento complementar ao passaporte.
Ela representa, na prática, a integração do cidadão ao sistema italiano.
Diferente do passaporte, que está associado à mobilidade internacional, a carteira de identidade está conectada ao funcionamento interno do país: serviços, identificação digital e acesso a estruturas públicas e privadas.
É exatamente nesse ponto que muitos ainda operam de forma limitada.
Conquistam a cidadania, mas não estruturam a presença. Possuem o documento, mas não acessam o sistema.
Para brasileiros que vivem nos Estados Unidos, essa diferença se torna ainda mais relevante.
Porque, em um cenário global cada vez mais dinâmico, não basta ter o direito de circular. É preciso estar preparado para operar em diferentes contextos.
A possibilidade de vir até a Itália, com o AIRE regularizado, para emitir a carteira de identidade, representa mais do que conveniência.
Representa controle.
Controle sobre documentos. Controle sobre acesso. Controle sobre a forma como essa cidadania será utilizada no longo prazo.
E, talvez mais importante, representa uma mudança de mentalidade.
A cidadania italiana deixa de ser tratada como um ativo passivo — algo que simplesmente existe — e passa a ser trabalhada como uma estrutura ativa, que exige manutenção, atualização e decisões conscientes.
Esse movimento acompanha uma transformação mais ampla.
A própria Europa tem avançado na digitalização de seus sistemas e no aumento do controle sobre fluxos migratórios e identificação.
Nesse contexto, documentos como a carteira de identidade eletrônica deixam de ser apenas formais e passam a ser funcionais.
Para quem já possui cidadania italiana, a pergunta deixa de ser:
“o que eu posso fazer com isso?”
E passa a ser:
“como eu estou estruturando isso na prática?”
Porque, no cenário atual, a diferença já não está em ter acesso.
Está em saber utilizá-lo.
Para quem observa esse movimento com mais atenção, uma conclusão se torna inevitável:
a cidadania italiana não termina no reconhecimento.
Ela começa ali.
Para quem já possui cidadania italiana e busca estruturar corretamente sua presença no país, esse movimento deixou de ser opcional e passou a ocupar um lugar central.
Hoje, esse é um dos trabalhos que conduzimos junto a brasileiros em diferentes partes do mundo: a regularização do AIRE e o acompanhamento, já na Itália, para a emissão da carteira de identidade italiana.
Porque, no cenário atual, não se trata apenas de ter a cidadania.
Trata-se de saber como utilizá-la.
Ariela Tamagno é especialista em cidadania italiana e fundadora da TMG Cidadania Italiana, com atuação entre Brasil e Itália. Também lidera os projetos Origine Italia e Italia Residence Management, voltados à mobilidade internacional e à reconexão com as origens italianas.
