Uma série em três partes sobre o Brasil, a inteligência artificial e o padrão que se repete
Por João Daniel e Diogo Scelza | Nova York, maio de 2026
PARTE 1 DE 3 | A fazenda
Como o Brasil aprendeu a colher — e nunca aprendeu a construir
A sala estava cheia. Executivos de Gerdau, Rede D’Or e Multiplan. Líderes da BlackRock para a América Latina. Banqueiros, gestores, autoridades. Em uma semana de maio, Manhattan parou — na medida em que Manhattan para para qualquer coisa — para ouvir o Brasil falar sobre si mesmo.
A Brazil Week existe há dezesseis anos. Nesta edição, pela primeira vez, o Voto Investment Forum aconteceu dentro da sede da BlackRock — a maior gestora de ativos do planeta, com mais de dez trilhões de dólares sob gestão. O simbolismo não era acidental. O Brasil estava levando sua narrativa ao endereço certo.
Estive presente nessa semana. E o que observei foi revelador — não apenas sobre o Brasil, mas sobre a distância entre o que países vendem e o que o capital sofisticado, de fato, compra.
O pitch convence. O que vem depois, não.
Os argumentos estruturais do Brasil são reais. O país detém 12% da água doce do planeta. Tem a maior fronteira agrícola sustentável ainda disponível no mundo. Minerais críticos — lítio, cobalto, terras-raras — que a transição energética vai precisar em escala crescente por décadas. A CNI foi direta durante a semana: o Brasil não vai mais ser apenas exportador de commodities. Vai processar, industrializar, agregar valor.
A relação bilateral com os Estados Unidos já tem alto grau de complementaridade: segundo dados da CNI, a grande maioria do que é comercializado entre os dois países são bens intermediários — insumos para processos produtivos, não produtos finais. Os Estados Unidos são o maior investidor estrangeiro no Brasil. E os investimentos brasileiros no mercado americano também vêm crescendo.
O pitch, portanto, convence nos dados. O que o capital sofisticado busca — e raramente encontra — vem depois dos dados.
O Brasil é extraordinariamente bom em narrar seu potencial. E ainda está aprendendo a construir sua permanência.
Há uma razão estrutural para isso. E ela não começa em Brasília. Começa em 1500.
A fazenda que não terminou
Em Por que as Nações Fracassam, Daron Acemoglu e James Robinson traçam uma distinção que explica mais sobre o Brasil do que décadas de debate econômico interno: a diferença entre instituições extrativas e instituições inclusivas. Países com instituições extrativas são organizados para sugar riqueza de uma maioria em benefício de uma minoria — seja ela a Coroa, a oligarquia rural ou o Estado capturado. Países com instituições inclusivas constroem estruturas que distribuem oportunidade, protegem contratos e criam incentivos para inovação. A fronteira entre os dois grupos é, historicamente, a fronteira entre desenvolvimento e estagnação.
O Brasil nasceu no primeiro grupo — e nunca atravessou completamente para o segundo.
A Coroa portuguesa não veio para construir uma civilização no Atlântico Sul. Veio para extrair. Pau-brasil, ouro, açúcar, borracha, café. Cada ciclo econômico brasileiro tem a mesma estrutura que Acemoglu e Robinson descrevem: recurso de altíssimo valor global, explorado com intensidade máxima no período de demanda, abandonado sem industrialização quando o ciclo mudou. O que ficou, em cada caso, foram as instituições do ciclo anterior — e a disposição para começar o próximo da mesma forma.
A borracha é o caso mais dramático. Entre 1850 e 1912, o Brasil detinha dominância quase absoluta sobre um insumo que estava redefinindo a indústria global — pneus, impermeáveis, mangueiras, isolantes elétricos. Manaus construiu um Teatro Amazonas de mármore importado da Europa. A elite gomífera vestia roupas lavadas em Paris. E então Henry Wickham contrabandeou sementes de seringueira para o Jardim Botânico de Kew, em Londres, de onde foram levadas para a Malásia e a Indonésia. Em menos de duas décadas, a dominância evaporou. A Amazônia voltou a ser floresta.
O que o Brasil nunca fez, em nenhum dos seus ciclos de riqueza, foi o que países que efetivamente acumularam poder fizeram: transformar vantagem natural em capacidade industrial, depois em capacidade tecnológica, depois em capacidade institucional. O petróleo do Golfo Pérsico virou soberania financeira. O carvão inglês virou a Revolução Industrial. A soja brasileira vira, principalmente, soja.
Um sistema que nunca precisou se transformar para sobreviver raramente desenvolve a musculatura para isso. A terra sempre teve algo novo para oferecer. O Brasil é rico demais em recursos para ter sido forçado a construir a única riqueza que compõe economias de primeira linha: a capacidade de criar valor onde não havia nada.
A fazenda não faliu. Ela apenas ficou grande demais para perceber que o mundo havia mudado ao redor dela.
O eterno país do futuro
“O Brasil é o país do futuro — e sempre será.” A frase é atribuída a Charles de Gaulle, embora historiadores discutam a autoria com a mesma imprecisão com que o Brasil trata seus próprios dados de desenvolvimento. Não importa quem disse. Importa que continua sendo verdade — e que é, simultaneamente, o maior elogio e a maior condenação que se pode fazer a uma nação.
O turismo explica bem. Portugal — dez milhões de habitantes, sem tropical, sem Amazônia, sem Pantanal, sem sete mil quilômetros de costa atlântica — recebe mais turistas internacionais do que o Brasil. A Tailândia, consistentemente, recebe um múltiplo do fluxo brasileiro. O México, com praias de qualidade inferior às nordestinas, supera o Brasil com folga. O Brasil tem o inventário turístico mais rico da terra e uma infraestrutura de recepção que o coloca fora do roteiro dos grandes fluxos globais. O produto existe. O que nunca existiu foi a estrutura para transformá-lo em destino.
A música é ainda mais reveladora, porque não precisa de infraestrutura física. Em 1963, o álbum Getz/Gilberto ganhou o Grammy de álbum do ano e transformou a bossa nova em linguagem universal. Frank Sinatra gravou em português. Havia ali o embrião de uma indústria cultural exportável. O Brasil nunca construiu sobre esse embrião. A música brasileira continuou sendo consumida internamente — tratada como patrimônio afetivo, nunca como produto de exportação com estratégia e investimento.
O futebol prescinde de análise detalhada — exceto para registrar que o país que produziu Pelé, Ronaldo, Ronaldinho e Neymar nunca construiu uma liga que competisse em relevância comercial com a Premier League, a La Liga ou a Bundesliga. Os talentos emigram cedo. O Brasil exporta jogadores brutos e importa desenvolvimento.
O padrão é o mesmo em todos os casos: ativo de classe mundial, gestão de oportunidade perdida. Atravessa governos de esquerda e de direita, militares e civis, desenvolvimentistas e liberais — o que sugere que a causa está antes da política, embutida na própria relação que o país construiu com sua riqueza ao longo de séculos. O Brasil aprendeu a colher. Nunca aprendeu, de verdade, a cultivar.
Continua na Parte 2.
Na próxima edição: o que o setor privado, o capital e os próprios brasileiros podem construir independente do Estado — porque esperar o governo mudar pode ser o maior risco de todos.
João Daniel e Diogo Scelza são cofundadores da Harpian Adaptive Portfolio Engineering, boutique de gestão quantitativa sediada na Flórida, especializada na interseção entre inteligência artificial, sistemas quantitativos e mercados financeiros globais. Atuam no desenvolvimento de estratégias sistemáticas de proteção e crescimento patrimonial para investidores institucionais e family offices.
Disclaimers / Disclosures
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educacional e informativo e não constitui recomendação de investimento, oferta ou solicitação de compra ou venda de quaisquer ativos financeiros. As opiniões expressas refletem a visão dos autores na data de publicação e podem mudar ao longo do tempo. Cada decisão financeira deve considerar os objetivos, perfil de risco e situação individual de cada leitor.
João Daniel e Diogo Scelza são cofundadores da Harpian | Adaptive Portifolio Engeneering, boutique de gestão quantitativa de investimentos sediada na Flórida. Especialistas na interseção entre inteligência artificial, sistemas quantitativos e mercados financeiros globais, atuam na construção de estratégias sistemáticas de proteção e crescimento patrimonial para investidores institucionais e family offices.
