Por Dra. Leticia Sangaletti
A Copa acabou, mas um dos assuntos que ela deixou ainda está reverberando. E não foi um gol, uma defesa ou o resultado da final, foi um silêncio ensurdecedor.
Lionel Messi perdeu a Copa e perdeu também a oportunidade de não ficar calado. Logo ele, uma das maiores referências mundiais do esporte. Um ídolo dentro e fora de campo, cuja voz atravessa fronteiras e alcança milhões de pessoas. Diante dos episódios de racismo envolvendo torcedores argentinos, porém, Messi não disse uma palavra sequer.
Não se trata de exigir que um jogador tenha uma opinião pública sobre tudo. Ninguém precisa transformar a própria vida em um comentário permanente sobre o mundo. Mas existem momentos em que a ausência de fala deixa de ser apenas discrição e ocupa espaço que comunica e diz muito.
“Ah, mas ele é tímido. Não gosta de polêmica”. Será? Durante a mesma Copa, jogadores argentinos exibiram a faixa “Las Malvinas son Argentinas”, manifestação política que provocou uma reação do governo britânico e pedidos para que a FIFA investigasse o episódio. Messi também falou publicamente sobre a situação econômica da Argentina, levando o próprio presidente Javier Milei a responder às suas declarações.
Então, não podemos dizer simplesmente que ele não fala de política, porque falar de território, de economia e enfrentar controvérsias e governos, é política. Mas o silêncio, nesse caso, não parece ser sobre política. Parece ser sobre uma pauta específica e é isso, exatamente isso, que incomoda tanto.
Eu não vim aqui xingar o Messi. Gosto dele. Talvez justamente por isso tenha esperado mais. O que quero pontuar é o quanto nossas escolhas comunicativas gritam sobre nós.
A comunicação estuda há décadas aquilo que fazemos quando aparentemente não estamos comunicando. Paul Watzlawick já dizia que é impossível não comunicar: todo comportamento produz uma mensagem, inclusive o silêncio.
Eni Orlandi vai ainda mais fundo em As formas do silêncio. Para ela, todo dizer é também uma escolha. Quando escolhemos o que dizer, escolhemos, inevitavelmente, o que deixar de fora. O silêncio não é o vazio da comunicação, ele faz parte dela.
Eu não sei o que se passa na cabeça de Messi. E nem preciso saber.
Não se trata de adivinhar suas intenções, mas de observar suas escolhas públicas. O mapa do que uma figura pública decide dizer (e do que decide calar) também revela seu posicionamento.
Em temas como o racismo, isso ganha um peso ainda maior. Às vezes, o silêncio parece prudência, embora em outras, soa como conveniência. Mas raramente é neutro.
Os casos envolvendo torcedores argentinos ganharam repercussão internacional durante a Copa, e a FIFA abriu investigação após uma denúncia de abuso racista contra o influenciador IShowSpeed. Em meio à repercussão, cresceu também a cobrança por uma manifestação do capitão argentino.
Não porque Messi seja responsável pelo comportamento criminoso de torcedores. Obviamente não é. Porém, liderança não se mede apenas pela responsabilidade direta sobre um fato, mas também pela disposição de usar a própria voz quando ela pode ajudar a estabelecer um limite.
Vivemos dizendo que precisamos melhorar nossas habilidades de comunicação. Falamos de escuta ativa, empatia, clareza, presença e inteligência emocional. Tudo isso importa. Mas acredito que uma das habilidades mais difíceis seja compreender que comunicar também é assumir posição.
Isso não quer dizer que temos que falar o tempo inteiro, ou opinar sobre tudo, significa reconhecer que, em determinados momentos, não dizer nada também é uma escolha. E toda escolha produz sentido.
Isso vale para Messi ou para qualquer figura pública, assim como vale para nós e para nossas marcas.
Tu não te posicionas apenas pelo que publicas. Tu te posicionas por um conjunto de fatores: pelas causas que escolhe defender, pelas conversas das quais participa, pelos assuntos que evitas e pelos silêncios que mantém.
Porque posicionamento não é apenas o que tu dizes é o um “mapa” do que tu escolhes dizer (e também do que escolhes calar).
