Uma cliente começou recentemente a trabalhar com um novo chefe.
A empresa havia passado pela terceira reestruturação em dois anos. Clima tenso. Demissões. Gente mudando de função, chefes novos, pessoas que caíram meio de paraquedas na rotina.
Ela conhece muito bem o trabalho, a empresa e os processos. O novo chefe também tinha experiência, era meio cria da casa, mas desde a primeira semana alguma coisa não clicou entre os dois.
Nada muito óbvio. Aliás, esse era justamente o problema.
Ele tinha um jeito meio irônico, meio sarcástico de falar. Fazia comentários que, isoladamente, poderiam passar por brincadeira ou por uma tentativa de ser espirituoso. Só que ela saía de algumas conversas com a sensação de que alguma coisa ali não estava direito.
“Ah, vai ver que é o jeito inglês de falar”, pensava.
Até que, durante uma reunião com a equipe, ela apresentou uma solução para um problema que estavam tentando resolver.
O chefe ouviu com aquele sorriso meio irônico que ela já conhecia. Deu uma risadinha e disse:
“Olha, isso pode até ser viável na América Latina, mas na Inglaterra as coisas funcionam de outra maneira.”
Ela é latino-americana.
E ficou mais difícil fingir que era só o jeito inglês de fazer piada.
Quando me contou a história, aquilo já vinha martelando na cabeça. Será que ele queria ofendê-la? Era sarcasmo? Ou ela estava vendo coisa demais onde não tinha?
Então me perguntou:
“Você acha que foi pessoal?”
Minha primeira vontade foi devolver:
E se tivesse sido?
“Não leve para o lado pessoal.”
É uma frase que a gente ouve tanto que acabou virando quase um sinal de maturidade emocional.
O chefe foi grosseiro? Não leve para o lado pessoal. Alguém não respondeu? Não leve para o lado pessoal. Você foi excluído? Não leve para o lado pessoal. Fizeram um comentário que atingiu exatamente um lugar sensível? Também não.
Parece que, para sermos emocionalmente evoluídos, temos que passar pelas coisas sem deixar que elas nos afetem muito.
O problema é que somos pessoas.
E pessoas levam coisas para o lado pessoal porque é pessoalmente que experimentamos o mundo.
Nosso cérebro presta muita atenção a sinais de aceitação, rejeição e pertencimento. Durante boa parte da história humana, pertencer a um grupo não era popularidade. Era sobrevivência.
Por isso, uma crítica raramente chega pra gente como informação neutra. Dependendo de quem fala, de como fala e, principalmente, de onde aquilo nos pega, ouvimos muito mais do que só as palavras.
No caso da minha cliente, o que eu ouvi foi uma tentativa de desqualificá-la.
Não pelo conteúdo da ideia, mas por quem ela é e de onde vem. E isso muda bastante a conversa, porque ele escolheu um lugar do qual ela não pode simplesmente se defender apresentando mais dados, trabalhando melhor ou explicando melhor o raciocínio.
Minha impressão é que havia ali um jogo de poder. Uma maneira bastante sofisticada de colocá-la um degrau abaixo sem precisar dizer abertamente que a considerava menos capaz.
Talvez exista preconceito por trás disso. Talvez ele realmente associe ser latino-americana a alguma ideia de menor sofisticação ou menor competência. Não tenho como saber.
O que me chama atenção é a forma. Porque algumas pessoas não precisam dizer “eu me acho superior a você”. Elas encontram maneiras muito mais elegantes de fazer você sentir isso.
E talvez fosse essa a tal “ironia inglesa” que ela vinha tentando entender desde o começo.
Ainda assim, descobrir exatamente o que ele pretendia talvez nem seja a pergunta mais importante.
Intenção e impacto não são a mesma coisa.
A pessoa pode não ter tido a intenção de nos atingir e, mesmo assim, acabar nos atingindo. E sentir-se atingido também não prova que alguém realmente tentou te atacar.
Acho que boa parte da maturidade emocional está em sustentar essas duas possibilidades.
Porque existe a tentação de transformar qualquer desconforto em ofensa. A crítica vira ataque, a discordância vira rejeição e a pessoa difícil passa a ser alguém especialmente inspirada em acabar com o nosso dia.
O ego adora uma boa teoria da conspiração.
Mas existe também o outro lado: usar o “não leve para o lado pessoal” para aceitar coisas que talvez não devam ser aceitas.
Alguém faz um comentário atravessado e imediatamente começamos a negociar com a própria percepção.
Talvez eu esteja exagerando. Talvez eu seja sensível demais. Ah, melhor deixar pra lá.
Pode até ser.
Mas pode também não ser.
Por isso sugeri que minha cliente começasse por uma pergunta simples:
O que exatamente aconteceu?
Sem adivinhar a intenção de ninguém. O que ele disse? Em que contexto? Isso se repete ou foi um episódio isolado?
Depois vem outra:
O que nisso me incomodou?
Foi a maneira como respondeu? A referência à origem dela? Ou o fato de a crítica ter vindo de alguém que ela considera menos preparado?
Porque autorrespeito também exige a capacidade de investigar o próprio ego.
Nem tudo que nos incomoda é injustiça. Às vezes é vaidade. Às vezes é insegurança. Às vezes é uma ferida antiga encontrando uma situação nova.
E às vezes, sim, alguém ultrapassou uma linha.
E aí vem a pergunta mais importante:
O que eu preciso fazer para continuar me respeitando depois disso?
Talvez nada. Talvez observar. Talvez fazer uma pergunta. Talvez prestar atenção para ver se aquilo se repete.
Não é preciso transformar cada episódio em confronto. Também não é preciso fingir que não percebemos o que percebemos.
Podemos prestar atenção.
Talvez a grande habilidade emocional da vida adulta não seja aprender a não levar nada para o lado pessoal. Talvez seja aprender o que merece ser levado para o lado pessoal e o que não merece morar dentro de nós.
Porque nem tudo é sobre você. Mas aquilo que acontece com você passa por você. E você tem o direito de prestar atenção.
Maturidade emocional não é aprender a não sentir. E também não é entregar ao outro o direito de decidir o que fazemos com aquilo que sentimos.
Então, hoje, quando alguém me diz “não leve para o lado pessoal”, tenho vontade de responder:
Talvez eu leve. Só não vou carregar comigo adiante.
Agora, sim, eu consideraria essa fechada para publicação.

Flavia da Matta construiu sua carreira na comunicação, liderando produções de grande escala em empresas como a Sony Entertainment Television e nas principais redes de TV brasileiras. Após uma virada em sua saúde, redirecionou seu foco para o mundo interno.
Hoje, como Mentora Terapêutica Comportamental, atua na intersecção entre clareza emocional, comunicação e dinâmica humana, ajudando indivíduos a transformar experiências internas em consciência e estrutura. Também é Diretora de Produção no TEDxMiami, onde lidera experiências de palestras e mentora em oratória e comunicação estratégica.
Por meio do Método CLEAR™, promove organização interna para uma liderança mais intencional, relações mais saudáveis e transformação consistente.
