Poucas palavras carregam tanto peso político quanto “cidadania”. Ela define pertencimento, direitos, deveres e, muitas vezes, o futuro de uma família inteira. Nos Estados Unidos, essa discussão voltou ao centro do debate nacional em 2026, depois de uma disputa jurídica envolvendo uma das bases históricas do sistema americano: o direito à cidadania para quem nasce em território norte-americano.
No dia 30 de junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitou uma tentativa do presidente Donald Trump de restringir a cidadania automática para crianças nascidas no país quando os pais não fossem cidadãos americanos ou residentes permanentes. Por seis votos a três, a Corte reafirmou que a 14ª Emenda protege a cidadania por nascimento em praticamente todas essas situações. A decisão atingiu diretamente uma das propostas mais simbólicas da política migratória da atual administração.
Mas a discussão não terminou ali. Em agosto, o governo Trump voltou ao tema com novas ordens voltadas a situações específicas, entre elas o chamado birth tourism, expressão usada para casos em que estrangeiras entram nos Estados Unidos com o objetivo de dar à luz no país e garantir a cidadania americana aos filhos. As novas medidas provocaram imediatamente outra reação judicial, e organizações como a ACLU voltaram aos tribunais para questionar o alcance das determinações presidenciais.
Para quem vive nos Estados Unidos, especialmente dentro de comunidades de imigrantes, essa não é uma discussão distante de Washington. Ela entra dentro das famílias. Define a situação de crianças nascidas no país, influencia decisões migratórias e reacende uma pergunta que existe muito antes da atual disputa política: afinal, o que faz alguém pertencer juridicamente a uma nação?
A resposta varia profundamente de país para país.
Os Estados Unidos construíram seu sistema principalmente sobre o ius soli, o chamado “direito do solo”. Em termos gerais, quem nasce em território americano recebe a cidadania americana desde o nascimento, independentemente da cidadania dos pais, com exceções bastante restritas. Esse princípio está ligado à 14ª Emenda da Constituição, adotada após a Guerra Civil, e foi novamente reafirmado pela Suprema Corte neste ano.
A Itália seguiu historicamente uma lógica quase oposta. O país construiu sua tradição de cidadania sobre o ius sanguinis, o direito de sangue. O ponto de partida não é onde a pessoa nasceu, mas de quem ela descende. É justamente esse princípio que permitiu que milhões de filhos, netos e bisnetos de emigrantes italianos mantivessem juridicamente um vínculo com a Itália mesmo tendo nascido a milhares de quilômetros de distância.
Nos últimos anos, entretanto, os dois modelos passaram a enfrentar pressões políticas.
Nos Estados Unidos, a discussão gira em torno da tentativa de limitar o alcance do ius soli. Na Itália, o debate político tomou o caminho inverso: enquanto o governo restringiu em 2025 o reconhecimento da cidadania a parte dos descendentes nascidos no exterior, dentro do próprio país existe há anos uma discussão sobre a dificuldade enfrentada por filhos de estrangeiros que nasceram, cresceram, estudaram e construíram a vida na Itália, mas que não recebem automaticamente a cidadania italiana apenas pelo fato de terem nascido em território italiano.
Essa comparação revela algo particularmente interessante: não existe um modelo de cidadania completamente imune à política.
Durante muito tempo, muitas pessoas enxergaram cidadania apenas como consequência de um fato objetivo. Nasci aqui, portanto sou cidadão. Meu pai era italiano, portanto sou italiano. Hoje, tanto nos Estados Unidos quanto na Itália, vemos governos, parlamentos e tribunais discutindo justamente até onde essas afirmações continuam válidas e quais condições um Estado pode estabelecer para reconhecer alguém como parte de sua comunidade nacional.
É uma discussão que envolve imigração, certamente, mas não apenas isso. Envolve soberania, identidade nacional, demografia, relações entre gerações e até a forma como cada país interpreta sua própria história.
Nos Estados Unidos, a administração Trump argumenta que o sistema atual pode incentivar abusos e situações como o birth tourism. Depois da decisão da Suprema Corte, o Departamento de Justiça determinou maior prioridade à investigação de possíveis fraudes relacionadas a esse fenômeno. Já os críticos das medidas presidenciais defendem que permitir ao Poder Executivo criar novas categorias de crianças privadas da cidadania representaria uma ruptura com a interpretação consolidada da 14ª Emenda.
Na Itália, argumentos semelhantes aparecem sob outra perspectiva. O governo justificou as restrições recentes ao ius sanguinis afirmando que era necessário restabelecer uma ligação efetiva entre o cidadão reconhecido no exterior e a Itália, além de reduzir situações em que pessoas buscavam a cidadania por meio de ascendentes muito distantes. Críticos da reforma, por outro lado, questionaram a possibilidade de alterar direitos ligados a situações familiares construídas muito antes da nova legislação.
Como italiana e como profissional que acompanha diariamente famílias ligadas à Itália, considero que há um elemento que muitas vezes desaparece quando o debate fica limitado às disputas partidárias: por trás de cada regra de cidadania existe uma história humana.
Existe o filho de imigrantes que nasceu nos Estados Unidos e cresceu considerando-se americano. Existe o bisneto de um italiano que atravessou o Atlântico há mais de cem anos e que um dia decide reconstruir sua origem. Existe a criança que nasce em uma família com duas ou três nacionalidades. Existe quem recebe a cidadania e decide utilizá-la não apenas para ter um passaporte europeu, mas para efetivamente mudar de vida e reconstruir uma ligação com o país de origem da família.
É nesse último ponto que percebo uma transformação interessante. Cada vez mais, tenho acompanhado cidadãos italianos que, depois de reconhecer sua cidadania, começam a se perguntar se a Itália pode deixar de ser apenas uma referência na árvore genealógica e se tornar, de fato, um lugar para viver. Mudar de país, no entanto, é muito diferente de passar férias nele. É preciso organizar residência, registros, documentos, moradia e uma série de decisões práticas que começam depois que o passaporte já está nas mãos.
Foi justamente dessa experiência que nasceu a AT Advisory, um projeto desenvolvido dentro da TMG Cidadania Italiana e conduzido diretamente por mim, voltado a acompanhar cidadãos italianos que desejam estruturar uma mudança real para a Itália. Para algumas famílias, reconhecer a cidadania encerra um processo. Para outras, é exatamente ali que começa um novo capítulo.
Talvez por isso o debate atual nos Estados Unidos e na Itália seja tão relevante. Cidadania não é somente um documento emitido por um governo. Ela define onde uma pessoa pode construir sua vida, que direitos poderá transmitir aos filhos e a qual comunidade política pertencerá.
Em um momento em que dois países profundamente marcados pela imigração discutem novamente quem pode ser chamado de cidadão, é importante acompanhar a política sem perder de vista as pessoas que vivem as consequências dessas decisões.
Nos Estados Unidos, a Suprema Corte reafirmou em junho a força constitucional da cidadania por nascimento, mas o debate político continua. Na Itália, as novas restrições ao ius sanguinis também permanecem no centro de disputas jurídicas e institucionais.
São sistemas diferentes, histórias diferentes e debates políticos distintos. Mas existe uma pergunta comum aos dois lados do Atlântico: o que, afinal, transforma uma pessoa em parte de uma nação? A resposta continuará sendo escrita não apenas pelas leis, mas também pelos tribunais, pela política e pelas próximas gerações
Ariela Tamagno é especialista em cidadania italiana e fundadora da TMG Cidadania Italiana, com atuação entre Brasil e Itália. Também lidera os projetos Origine Italia e Italia Residence Management, voltados à mobilidade internacional e à reconexão com as origens italianas.
