Uma conversa neste final de semana me trouxe uma reflexão sobre carreira.
Durante a conversa, ouvi de uma amiga uma explicação para o fato de não ter alcançado o
sucesso profissional que imaginava: ela não havia feito o curso de Engenharia que gostaria de
ter feito. A frase ficou comigo.
Não porque a formação acadêmica não seja importante. Ela é. Existem profissões em
que a formação técnica é, inclusive, condição para exercer aquela atividade. Medicina,
Fisioterapia, Engenharia e tantas outras são exemplos claros disso.
Mas será que podemos atribuir o sucesso — ou a falta dele — de uma carreira inteira ao
diploma que escolhemos anos atrás?
Principalmente quando falamos do mundo corporativo, acredito que essa relação deixou de ser
tão linear.
Durante muito tempo, nossa lógica profissional parecia bastante previsível: escolher
uma faculdade, concluir uma formação, entrar em determinada área e construir a carreira
dentro daquele caminho. O diploma dizia muito sobre o profissional que seríamos.
Hoje, ele continua sendo uma parte importante dessa construção, mas está longe de ser a
única.
Uma carreira pode durar 30, 40 ou até 50 anos. Nesse período, empresas mudam, profissões
desaparecem, outras surgem, tecnologias transformam atividades e competências que antes
eram fundamentais deixam de ser suficientes. Seria difícil imaginar que uma escolha feita aos
18 ou 20 anos pudesse determinar, sozinha, todas as possibilidades profissionais das décadas
seguintes.
É justamente aí que entra algo que considero cada vez mais importante: a capacidade
de continuar construindo a própria empregabilidade. O mercado continua valorizando
conhecimento técnico e hard skills. Valoriza também as chamadas soft skills: comunicação,
liderança, colaboração, adaptabilidade e inteligência emocional. Mas uma nova camada vem
ganhando espaço rapidamente: as AI skills, não apenas no sentido de conhecer uma
determinada ferramenta, mas de saber utilizar inteligência artificial para pesquisar, analisar,
produzir, decidir e trabalhar melhor. E existe ainda uma dimensão que nenhuma tecnologia
substitui facilmente: as human skills.
Saber construir relacionamentos. Desenvolver uma boa reputação. Criar e manter uma
rede de contatos. Ter curiosidade. Fazer boas perguntas. Escutar. Buscar soluções. Aprender
algo que ainda não sabe. Pedir ajuda quando necessário. Aproximar-se das pessoas certas.
Entender o negócio. Perceber oportunidades e ter iniciativa para buscá-las.
Tudo isso também constrói uma carreira.
Tenho visto profissionais com excelente formação acadêmica enfrentarem dificuldades
porque pararam de aprender, deixaram de desenvolver relacionamentos ou esperaram que a
experiência acumulada falasse por si mesma. Da mesma maneira, vejo profissionais que talvez
não tenham a formação que inicialmente imaginaram, mas que construíram trajetórias muito
consistentes porque continuaram aprendendo, se adaptando, criando conexões e aproveitando
oportunidades.
Talvez, então, uma pergunta mais produtiva do que “qual curso eu deveria ter feito?”
seja: “Quais competências eu preciso desenvolver agora para chegar onde quero?” Essa
mudança parece pequena, mas muda completamente a perspectiva. A primeira pergunta olha
para uma decisão que não podemos mais alterar. A segunda devolve ao profissional a
possibilidade de agir sobre a própria carreira.
O diploma faz parte da nossa história. Ele pode abrir portas, oferecer fundamentos
importantes e, em algumas profissões, ser absolutamente indispensável. Mas carreira é uma
construção muito maior. Ela é feita pelas experiências que acumulamos, pelas competências
que desenvolvemos, pelas pessoas com quem nos relacionamos, pela nossa reputação, pela
curiosidade que mantemos e, principalmente, pela disposição de continuar aprendendo.
Em um mercado que muda cada vez mais rápido, talvez o maior risco não seja ter escolhido o
curso errado anos atrás.
Talvez seja acreditar que aquela escolha ainda determina até onde podemos chegar.
Carolina Melo Leitao
https://www.linkedin.com/in/carolinameloleitao/
carolina@aptarecareer.com/

Especialista em transição de carreira e desenvolvimento profissional, com uma trajetória construída entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de duas décadas em Recursos Humanos, acompanho de perto o movimento das pessoas em busca de novos caminhos — algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, cada vez mais global. Colunista da Florida Review na coluna de Carreira, também sou professora em cursos de especialização e consultora à frente do ICT (International Career Transition), onde apoio brasileiros a entender o mercado americano, construir oportunidades e encontrar direção em momentos de mudança. Acredito que clareza, estratégia e conexões transformam destinos.
