Todos nós já vimos essa situação acontecer.
Dois profissionais possuem formações semelhantes, passaram por empresas igualmente reconhecidas, lideraram equipes de tamanho parecido e acumulam décadas de experiência. Ainda assim, quando surge uma oportunidade estratégica, um deles recebe a ligação do recrutador, enquanto o outro continua esperando por uma resposta que nunca chega.
A explicação mais comum costuma ser que um deles “teve mais sorte” ou “conhecia as pessoas certas”. Embora esses fatores possam influenciar, eles raramente explicam a decisão por completo. Existe um elemento muito mais poderoso — e frequentemente invisível — presente em praticamente todas as grandes decisões de contratação: a confiança.
Durante muitos anos, acreditamos que a carreira era construída pela soma de diplomas, certificações e experiências profissionais. E, de fato, essas credenciais continuam sendo importantes. Elas abrem portas, qualificam candidatos e demonstram capacidade técnica. Mas dificilmente são suficientes para explicar por que um executivo é escolhido em detrimento de outro.
A contratação é, antes de tudo, uma decisão sobre risco. Sempre que uma organização escolhe um novo líder, ela está assumindo uma aposta. A empresa investirá tempo, recursos financeiros, reputação e expectativas naquela pessoa. Dependendo do nível da posição, a decisão poderá afetar centenas de colaboradores, milhões de dólares em investimentos e o futuro de uma unidade de negócios.
Nesse contexto, a pergunta que realmente orienta a escolha não costuma ser: “Quem possui o melhor currículo?”. A pergunta é outra.”Em quem podemos confiar?”. Essa perspectiva ajuda a compreender por que profissionais extremamente competentes, muitas vezes, enfrentam dificuldades durante processos seletivos. A competência técnica responde apenas parte da equação. A confiança é construída por outros elementos: clareza na comunicação, coerência entre discurso e resultados, capacidade de influenciar pessoas, inteligência emocional e, principalmente, reputação.
Pesquisas da Edelman mostram, há anos, que a confiança continua sendo um dos ativos mais valiosos nas relações profissionais. Da mesma forma, estudos publicados pela Harvard Business Review demonstram que líderes considerados confiáveis geram equipes mais engajadas, ambientes mais colaborativos e melhores resultados organizacionais. Não se trata apenas de uma característica desejável; trata-se de uma vantagem competitiva.
É curioso perceber como muitos profissionais dedicam meses aperfeiçoando o currículo e apenas alguns minutos refletindo sobre a percepção que deixam nas pessoas.
Um currículo comunica experiência.A confiança comunica previsibilidade.
Quando um recrutador lê uma trajetória profissional, ele procura evidências de resultados. Quando conversa com o candidato, porém, começa a responder perguntas muito diferentes.
Como essa pessoa reage sob pressão? Ela transmite equilíbrio? Assume responsabilidade pelos próprios erros? Consegue explicar problemas complexos com simplicidade? É alguém que inspira segurança para liderar uma equipe ou representar a empresa diante de um cliente? Essas respostas dificilmente aparecem escritas em um documento. Elas são percebidas durante a interação.
Talvez por isso o networking seja tão mal interpretado. Muitos ainda o enxergam como um mecanismo para conseguir indicações. Na realidade, networking é o processo pelo qual a confiança se torna visível. Pessoas indicam profissionais porque acreditam neles, não porque receberam um pedido de ajuda.
O mesmo acontece com a presença no LinkedIn. Publicar conteúdo, compartilhar experiências ou participar de discussões relevantes não é um exercício de autopromoção quando feito com autenticidade. É uma forma de permitir que o mercado compreenda como você pensa, quais problemas é capaz de resolver e quais valores orientam suas decisões.
Em um mercado cada vez mais competitivo — e cada vez mais influenciado pela inteligência artificial na análise de currículos e perfis — as competências técnicas tendem a se tornar mais fáceis de comparar. Paradoxalmente, isso torna os aspectos humanos ainda mais relevantes.
As pessoas continuam escolhendo em quem confiam.Talvez seja essa a mudança mais importante para quem está vivendo uma transição de carreira. Você não está apenas buscando uma nova posição. Está construindo uma reputação que reduza a percepção de risco para quem tomará a decisão de contratá-lo.
No fim, a carreira não é definida apenas pelo que sabemos fazer. Ela é profundamente influenciada pelo nível de confiança que conseguimos despertar nas pessoas ao longo do caminho. Porque experiências abrem portas.Competências criam oportunidades. Mas é a confiança que, muitas vezes, decide quem entra.
Carolina Melo Leitao
https://www.linkedin.com/in/carolinameloleitao
carolina.leitao@ictcarreiras.com

Especialista em transição de carreira e desenvolvimento profissional, com uma trajetória construída entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de duas décadas em Recursos Humanos, acompanho de perto o movimento das pessoas em busca de novos caminhos — algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, cada vez mais global. Colunista da Florida Review na coluna de Carreira, também sou professora em cursos de especialização e consultora à frente do ICT (International Career Transition), onde apoio brasileiros a entender o mercado americano, construir oportunidades e encontrar direção em momentos de mudança. Acredito que clareza, estratégia e conexões transformam destinos.
