Uma cliente começou recentemente a trabalhar com um novo chefe. A empresa havia passado pela terceira reestruturação em dois anos. Clima tenso. Demissões. Gente mudando de função, chefes novos, pessoas que caíram meio de paraquedas na rotina. Ela conhece muito bem o trabalho, a empresa e os processos. O novo chefe também tinha experiência, era meio cria da casa, mas desde a primeira semana alguma coisa não clicou entre os dois. Nada muito óbvio. Aliás, esse era justamente o problema. Ele tinha um jeito meio irônico, meio sarcástico de falar. Fazia comentários que, isoladamente, poderiam passar por brincadeira ou por…
Autor: Flavia Da Matta
Há muitos anos, trabalhei com uma mulher que parecia capaz de resolver qualquer coisa. E, pelo que eu via, era mesmo. Antecipava problemas, cuidava dos detalhes e quase sempre sabia o que precisava ser feito. Mas nossas sessões começavam quase sempre da mesma maneira: ela estava exausta. O marido não encontrava nem as próprias chaves. Os filhos não tomavam uma decisão sem consultá-la. Às vezes, ela precisava interromper o trabalho para resolver assuntos que, segundo ela mesma, eles poderiam perfeitamente resolver sozinhos. Um dia, no meio da nossa conversa, o telefone tocou. Ela olhou para a tela, suspirou e revirou…
Quando você desaparece para que os outros existam. Não era difícil gostar dele. Eu o conheci na minha primeira experiência no mundo corporativo. Ainda hoje me lembro da impressão que ele causava. Estava sempre impecavelmente vestido. Era elegante sem parecer vaidoso, educado sem parecer protocolar e tinha uma atenção quase incomum aos detalhes. Fazia questão de cumprimentar todos pelo nome, escutava com interesse genuíno e parecia encontrar tempo para qualquer pessoa que cruzasse o seu caminho. Como vendedor, era brilhante. Na época, achei que aquilo fosse simplesmente talento. Mas, depois de algum tempo, comecei a prestar atenção em uma curiosa…
Outro dia ouvi alguém mencionar um estudo sobre ambientes de trabalho. A conclusão era curiosa: uma única pessoa consistentemente negativa consegue reduzir o desempenho e o engajamento de uma equipe muito mais do que uma pessoa positiva consegue aumentá-los. A negatividade é contagiosa. Achei o dado interessante. Mas ele me deixou pensando em outra coisa. Se reclamar faz tão mal… por que continuamos fazendo isso? Talvez porque reclamar seja uma das ferramentas de conexão mais eficientes que nós, humanos, já inventamos. Uma reclamação bem colocada pode entregar pertencimento, validação, atenção, um culpado conveniente para aquilo que nos incomoda, uma sensação…
Existe uma frase que aparece sempre que uma discussão vai longe demais: “Você quer ter razão ou quer ser feliz?” Sempre achei que ela simplificava demais a questão. Na maioria das vezes, ninguém está escolhendo entre razão e felicidade. Está escolhendo entre proteger uma ideia… ou proteger a própria identidade. É curioso como algumas pessoas parecem entrar em qualquer conversa não para descobrir alguma coisa, mas para confirmar aquilo em que já acreditavam antes mesmo dela começar. Não fazem perguntas para entender; fazem perguntas para conduzir a resposta. Não escutam para refletir. Escutam procurando o momento exato em que poderão…
Existe um momento curioso em quase todo conflito. Ele costuma acontecer muito antes de qualquer discussão. A outra pessoa ainda não respondeu à mensagem. Ainda não fechou a cara. Ainda não disse uma única palavra. Às vezes, nem imagina que está prestes a ocupar um papel importante na história que estamos escrevendo sobre ela. Porque é isso que fazemos. Diante de um vazio, raramente esperamos. Nós o preenchemos. Há algumas semanas uma amiga me ligou angustiada. Tinha mandado uma mensagem para outra amiga e, dois dias depois, ainda não havia recebido resposta. A princípio, aquilo lhe pareceu apenas estranho. No…
Em algum momento da vida, quase sem perceber, a gente cria uma versão do que aconteceu. E, aos poucos, começa a repeti-la como se fosse a própria realidade. A demissão vira prova de injustiça. O fim de um relacionamento confirma a sensação de abandono. Uma situação qualquer reforça a ideia de que “isso sempre acontece comigo”. Com o tempo, essa história deixa de ser apenas uma lembrança. Ela vira referência. Depois, vira a lente através da qual você interpreta tudo o que acontece. E, sem perceber, acaba virando parte da sua identidade. Você já não está mais lembrando do que…
Quando o passado continua ocupando cargos de liderança no presente. Há pessoas que contam a própria história da mesma forma que alguns países contam guerras antigas: com uma riqueza de detalhes impressionante, uma convicção inabalável sobre quem estava certo e quem estava errado e um investimento contínuo em garantir que o assunto jamais seja completamente encerrado. O curioso é que raramente estamos falando da guerra em si. Estamos falando das consequências. Décadas depois, o conflito continua participando das reuniões. Algumas pessoas falam de acontecimentos ocorridos há quinze ou vinte anos com a familiaridade de quem esteve lá ontem. Não porque…
Existe uma forma de elegância que raramente aparece nas fotografias. Ela não pode ser comprada. Não pode ser herdada. E, curiosamente, costuma ficar mais visível à medida que o dinheiro, o status e a necessidade de impressionar diminuem. Talvez porque a verdadeira sofisticação não tenha relação com aquilo que possuímos. Mas com aquilo que deixamos de precisar provar. Nunca conheci uma pessoa verdadeiramente sofisticada que estivesse tentando impressionar alguém. Pelo contrário. As pessoas mais interessantes que encontrei ao longo da vida pareciam ocupar menos espaço do que poderiam. Havia nelas uma tranquilidade difícil de encontrar. Não precisavam transformar cada conversa…
O território silencioso entre saber que algo mudou e entender o que fazer com isso. Na semana passada, escrevi sobre o momento em que um espaço fica pequeno. O trabalho é apenas um deles. Às vezes é uma rotina. Às vezes é uma cidade. Às vezes é uma versão de si mesmo. Reconhecer essa mudança costuma parecer um ponto de chegada. Raramente é. Na maioria das vezes, é apenas o começo de uma conversa muito mais desconfortável. Porque perceber que mudou não produz automaticamente clareza sobre o que fazer a seguir. Durante algum tempo, convivem duas versões da mesma pessoa.…
O momento em que permanecer exige mais do que mudar. Algumas mudanças só se tornam visíveis muito tempo depois de terem acontecido. Há momentos em que a vida continua exatamente igual. E, ainda assim, já não parece a mesma. Nem sempre a mudança chega acompanhada de um acontecimento. Ela raramente anuncia sua chegada. Vai se acumulando em silêncio. Às vezes, se revela em detalhes. Assuntos que antes pareciam importantes e agora soam estranhamente distantes. Um projeto que consome mais energia do que interesse. Uma resposta que já não convence. Uma conquista que chega exatamente como planejado e produz menos satisfação…
Existe uma ideia distorcida de autocuidado. A de que ele precisa ser profundo, transformador, quase um evento. Um banho longo, um retiro, um momento especial. Mas, na maior parte do tempo, autocuidado não é isso. É mais simples.E mais direto. “Hydrate, moisturize and go on with your life.” Porque autocuidado, no dia a dia, não é sobre parar tudo para se sentir melhor. É sobre não se abandonar no meio da rotina. E isso vai muito além do físico. É perceber quando você está tempo demais em ambientes que te drenam.Em conversas que não te acrescentam.Em dinâmicas familiares que ultrapassam…