Às vezes, uma conversa começa a ficar realmente interessante justamente quando ouvimos algo que não gostaríamos de ouvir sobre nós mesmos. Por Flavia da MattaFlorida Review21 de outubro de 2026 Gosto da ideia de uma boa conversa. Daquelas em que um assunto puxa outro e a gente sai com alguma coisa em que não tinha pensado. Acho curioso, porém, como essa disposição pode diminuir quando a novidade é uma observação sobre nós. A conversa continua, mas por dentro já estamos preparando a defesa. Queremos trocar ideias, desde que ninguém tente trocar as nossas. Basta alguém dizer “posso te falar uma…
Autor: Flavia Da Matta
Flavia da Matta Nós já estávamos ali havia mais de quarenta minutos. Ela tinha falado bem de duas ou três pessoas. Reconheceu o esforço de uma, admirou a coragem de outra, entendeu por que uma terceira ainda não tinha conseguido sair do lugar. Então começou a falar de si. Não tinha conseguido. Não tinha encontrado a pessoa certa. Devia ter feito mais, tentado antes, dito alguma coisa naquela hora. Na vida dos outros, ela enxergava circunstâncias. Na dela, parecia encontrar apenas falhas. Fiquei olhando para ela e pensando: se nem ela está do lado dela, quem é que vai estar?…
Todo mundo conhece alguém assim. Você pergunta como a pessoa está e ela começa a enumerar tudo que está dando errado. O trabalho, a família, o carro, uma cobrança indevida. Quando você acha que a atualização terminou, descobre que aquilo era só a parte profissional. “É que, para mim, nada vem fácil.” A frase me chama a atenção. Tem um cansaço nela, mas às vezes parece haver também um pequeno orgulho. Como se, além de contar o que aconteceu, a pessoa estivesse apresentando suas credenciais. Não foi fácil chegar até aqui. Favor levar isso em consideração. E talvez não tenha…
Flavia da Matta “Ah, mas eu nem tenho nada pra te dar de volta.” Mais uma vez, ouvi aquilo de uma amiga querida. Ela nem tinha aberto o pacote, mas já estava preocupada com o presente que não havia comprado para mim. “Eu não sabia que você ia me dar alguma coisa. Não precisava.” Expliquei que tinha visto aquilo e lembrado dela, de uma conversa nossa, de uma coisa que achei que a deixaria feliz. Não era aniversário, Natal, nenhuma data que ela tivesse esquecido. Eu só queria fazer um agrado. Mas agora parecia que tinha criado um problema. Sempre…
O jantar estava bom. A conversa passava de uma ponta à outra da mesa, as histórias se misturavam, ninguém parecia com pressa de ir embora. Até que ouvi uma frase conhecida: “Me desculpa, mas eu sou assim e acabou.” Mais uma vez, esse amigo havia feito um comentário inconveniente. E, antes que alguém pudesse dizer muita coisa, já estava explicando por que não pretendia rever o que tinha dito. Conhecíamos a sequência. O constrangimento, a tentativa de mudar de assunto, o esforço coletivo para a noite continuar agradável. Cada um cedia um pouco de espaço para acomodar o jeito dele.…
Uma amiga acaba de se mudar depois de 21 anos vivendo na mesma casa. Durante muito tempo, a simples ideia da mudança parecia deixá-la exausta. Não apenas pelo trabalho de empacotar uma vida inteira e decidir o que ia e o que ficava. Havia alguma coisa mais pesada ali, embora nem ela soubesse explicar exatamente o quê. Talvez agora saiba. Mudar de casa depois de tantos anos é atravessar, cômodo por cômodo, o arquivo íntimo de todas as mulheres que já fomos. Elas ressurgem no fundo dos armários, em caixas que sobreviveram fechadas por décadas de arrumações e nos objetos…
Uma cliente começou recentemente a trabalhar com um novo chefe. A empresa havia passado pela terceira reestruturação em dois anos. Clima tenso. Demissões. Gente mudando de função, chefes novos, pessoas que caíram meio de paraquedas na rotina. Ela conhece muito bem o trabalho, a empresa e os processos. O novo chefe também tinha experiência, era meio cria da casa, mas desde a primeira semana alguma coisa não clicou entre os dois. Nada muito óbvio. Aliás, esse era justamente o problema. Ele tinha um jeito meio irônico, meio sarcástico de falar. Fazia comentários que, isoladamente, poderiam passar por brincadeira ou por…
Há muitos anos, trabalhei com uma mulher que parecia capaz de resolver qualquer coisa. E, pelo que eu via, era mesmo. Antecipava problemas, cuidava dos detalhes e quase sempre sabia o que precisava ser feito. Mas nossas sessões começavam quase sempre da mesma maneira: ela estava exausta. O marido não encontrava nem as próprias chaves. Os filhos não tomavam uma decisão sem consultá-la. Às vezes, ela precisava interromper o trabalho para resolver assuntos que, segundo ela mesma, eles poderiam perfeitamente resolver sozinhos. Um dia, no meio da nossa conversa, o telefone tocou. Ela olhou para a tela, suspirou e revirou…
Quando você desaparece para que os outros existam. Não era difícil gostar dele. Eu o conheci na minha primeira experiência no mundo corporativo. Ainda hoje me lembro da impressão que ele causava. Estava sempre impecavelmente vestido. Era elegante sem parecer vaidoso, educado sem parecer protocolar e tinha uma atenção quase incomum aos detalhes. Fazia questão de cumprimentar todos pelo nome, escutava com interesse genuíno e parecia encontrar tempo para qualquer pessoa que cruzasse o seu caminho. Como vendedor, era brilhante. Na época, achei que aquilo fosse simplesmente talento. Mas, depois de algum tempo, comecei a prestar atenção em uma curiosa…
Outro dia ouvi alguém mencionar um estudo sobre ambientes de trabalho. A conclusão era curiosa: uma única pessoa consistentemente negativa consegue reduzir o desempenho e o engajamento de uma equipe muito mais do que uma pessoa positiva consegue aumentá-los. A negatividade é contagiosa. Achei o dado interessante. Mas ele me deixou pensando em outra coisa. Se reclamar faz tão mal… por que continuamos fazendo isso? Talvez porque reclamar seja uma das ferramentas de conexão mais eficientes que nós, humanos, já inventamos. Uma reclamação bem colocada pode entregar pertencimento, validação, atenção, um culpado conveniente para aquilo que nos incomoda, uma sensação…
Existe uma frase que aparece sempre que uma discussão vai longe demais: “Você quer ter razão ou quer ser feliz?” Sempre achei que ela simplificava demais a questão. Na maioria das vezes, ninguém está escolhendo entre razão e felicidade. Está escolhendo entre proteger uma ideia… ou proteger a própria identidade. É curioso como algumas pessoas parecem entrar em qualquer conversa não para descobrir alguma coisa, mas para confirmar aquilo em que já acreditavam antes mesmo dela começar. Não fazem perguntas para entender; fazem perguntas para conduzir a resposta. Não escutam para refletir. Escutam procurando o momento exato em que poderão…
Existe um momento curioso em quase todo conflito. Ele costuma acontecer muito antes de qualquer discussão. A outra pessoa ainda não respondeu à mensagem. Ainda não fechou a cara. Ainda não disse uma única palavra. Às vezes, nem imagina que está prestes a ocupar um papel importante na história que estamos escrevendo sobre ela. Porque é isso que fazemos. Diante de um vazio, raramente esperamos. Nós o preenchemos. Há algumas semanas uma amiga me ligou angustiada. Tinha mandado uma mensagem para outra amiga e, dois dias depois, ainda não havia recebido resposta. A princípio, aquilo lhe pareceu apenas estranho. No…