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    Estados Unidos e Venezuela firmam novo acordo petrolífero: o que está previsto, o que está em jogo e quais são as dúvidas

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    By Gabriela Torres on 1 de setembro de 2026 Esquina Curiosa
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    O governo dos Estados Unidos e as autoridades interinas da Venezuela chegaram a um amplo acordo energético destinado a reorganizar parte da indústria petrolífera venezuelana, atrair investimentos e garantir a Washington acesso preferencial a uma parcela da produção de petróleo do país sul-americano.

    O acordo, anunciado inicialmente em 28 de agosto e detalhado posteriormente pela Casa Branca, contempla direitos de desenvolvimento sobre 17 campos de petróleo com reservas provadas estimadas em aproximadamente 65 bilhões de barris. A administração do presidente Donald Trump apresentou o projeto como parte de sua estratégia para fortalecer a segurança energética dos Estados Unidos e reconstruir a indústria petrolífera venezuelana.

    Apesar da dimensão anunciada, o alcance efetivo do acordo, sua estrutura jurídica, os prazos para o aumento da produção e seus possíveis efeitos sobre o mercado internacional de petróleo ainda estão sujeitos a questionamentos e avaliações de especialistas.

    Um acordo de dimensões pouco comuns

    Segundo informações divulgadas pela Casa Branca, as autoridades venezuelanas concederam à North American Blue Energy Partners (NABEP) direitos para desenvolver 17 campos de petróleo. A empresa é administrada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt.

    A estrutura anunciada prevê também uma participação acionária de 35% dos Estados Unidos na empresa controladora da NABEP, além de direitos de governança.

    Washington pretende ainda obter direitos para adquirir, a preço de custo, aproximadamente 20% da produção de petróleo dos campos atuais e futuros operados pela NABEP, além de prioridade sobre parte da produção restante.

    A administração Trump afirma que o projeto poderá mobilizar aproximadamente US$ 100 bilhões em investimentos destinados à infraestrutura petrolífera venezuelana.

    As autoridades venezuelanas, por sua vez, esperam obter receitas fiscais e royalties com o aumento da produção. As projeções apresentadas pelo governo indicam que esses pagamentos poderiam alcançar aproximadamente US$ 209 bilhões ao longo de 25 anos.

    É importante destacar, porém, que esses valores representam projeções e não receitas garantidas.

    Os Estados Unidos estão adquirindo o petróleo venezuelano?

    Essa é uma das questões que mais geraram dúvidas desde o anúncio.

    O presidente Donald Trump afirmou que os Estados Unidos passariam a ter controle majoritário sobre mais de 65 bilhões de barris das reservas provadas venezuelanas. Entretanto, a estrutura descrita posteriormente pelas autoridades e pela Reuters é mais complexa do que uma simples transferência de propriedade das reservas.

    De acordo com a Reuters, o acordo está estruturado em três camadas principais: um entendimento entre os governos dos dois países, acordos de produção envolvendo empresas privadas e a estatal venezuelana PDVSA, e uma participação dos Estados Unidos na estrutura corporativa da empresa responsável por parte dos projetos.

    Por isso, não é correto afirmar simplesmente que os Estados Unidos passaram a ser proprietários das reservas de petróleo da Venezuela.

    As reservas continuam localizadas em território venezuelano. O que muda é o grau de participação norte-americana na exploração, financiamento, comercialização e destino de parte da produção.

    O objetivo: recuperar a produção venezuelana

    A Venezuela possui algumas das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas sua indústria passou por anos de falta de investimentos, deterioração da infraestrutura, dificuldades financeiras, sanções internacionais e queda da capacidade produtiva.

    O novo acordo pretende reverter parte desse cenário.

    A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que o projeto terá duração de 25 anos e que o objetivo inicial é elevar a produção para aproximadamente 1,5 milhão de barris por dia.

    O desafio, entretanto, é significativo.

    A recuperação de determinados campos poderá exigir investimentos elevados e um longo período de desenvolvimento. Analistas também apontam que a infraestrutura deteriorada e a complexidade da produção do petróleo pesado venezuelano representam obstáculos importantes.

    Uma análise da Reuters destacou que alguns projetos no cinturão do Orinoco podem exigir grandes volumes de capital, além de infraestrutura adicional para transporte e processamento.

    Isso significa que, embora o acordo possa produzir efeitos estratégicos importantes, não necessariamente haverá um aumento expressivo da produção ou uma redução imediata dos preços dos combustíveis nos Estados Unidos.

    O petróleo venezuelano pode reduzir o preço da gasolina nos Estados Unidos?

    O presidente Donald Trump apresentou o acordo como uma forma de aumentar a oferta de petróleo e contribuir para a redução dos preços dos combustíveis para os consumidores norte-americanos.

    A lógica econômica é relativamente simples: um aumento da oferta mundial de petróleo pode, em determinadas circunstâncias, exercer pressão de baixa sobre os preços.

    No entanto, existem limitações importantes.

    A recuperação da produção venezuelana exige investimentos bilionários, modernização da infraestrutura, equipamentos especializados, mão de obra, transporte e capacidade adequada de refino.

    Além disso, grande parte do petróleo venezuelano é considerado pesado, o que significa que ele precisa de instalações de refino capazes de processá-lo de maneira eficiente.

    Por essa razão, especialistas citados pela imprensa internacional avaliam que os possíveis efeitos sobre os preços dos combustíveis poderão levar anos para aparecer.

    Em outras palavras, o acordo pode ter importância estratégica para o abastecimento energético dos Estados Unidos sem necessariamente provocar uma queda imediata no preço da gasolina.

    O papel da North American Blue Energy Partners

    Um dos aspectos mais particulares do acordo é o papel central atribuído à NABEP.

    A empresa, administrada pelo empresário venezuelano Alejandro Betancourt, deverá participar do desenvolvimento dos 17 campos incluídos no acordo.

    Segundo as informações divulgadas, os Estados Unidos pretendem obter uma participação de 35% na empresa controladora da NABEP e direitos específicos de governança.

    A Reuters informou que algumas das principais empresas petrolíferas norte-americanas demonstraram cautela diante do novo cenário venezuelano, enquanto companhias como Chevron e outras empresas internacionais avançam em diferentes negociações no país.

    A participação de uma empresa menor em um projeto dessa magnitude também levanta questionamentos sobre sua capacidade de mobilizar o capital necessário para desenvolver os campos e reconstruir a infraestrutura.

    As dúvidas jurídicas

    Um dos principais pontos de incerteza está relacionado à estrutura jurídica do acordo.

    Especialistas consultados pela Reuters levantaram dúvidas sobre a legalidade de determinados aspectos, a transparência dos contratos e a forma como os campos foram destinados às empresas participantes.

    Também existem questionamentos sobre a compatibilidade de compromissos de longo prazo com a legislação venezuelana e sobre a legitimidade das autoridades responsáveis por firmar acordos dessa dimensão.

    A Reuters informou que o modelo jurídico ainda envolve questões que precisam ser esclarecidas, especialmente em relação à participação do governo venezuelano, à escolha dos operadores e aos mecanismos de controle dos projetos.

    Essas questões podem ser relevantes para investidores, principalmente porque projetos petrolíferos desse porte exigem estabilidade jurídica durante décadas.

    Um novo capítulo na política energética venezuelana

    O acordo também representa uma mudança significativa na relação econômica entre Caracas e Washington.

    Durante anos, as sanções impostas pelos Estados Unidos limitaram a participação internacional na indústria petrolífera venezuelana.

    Em 2026, porém, Washington passou a flexibilizar determinadas restrições e a permitir uma maior participação de empresas estrangeiras no setor energético venezuelano.

    O novo acordo amplia consideravelmente essa abertura.

    A estratégia também representa uma mudança na orientação econômica da Venezuela, que busca atrair investimentos privados estrangeiros para reconstruir sua principal indústria.

    Venezuela busca receitas e reconstrução

    Do ponto de vista venezuelano, o principal incentivo é econômico.

    O país precisa reconstruir sua infraestrutura, aumentar a produção e gerar novas receitas públicas.

    Delcy Rodríguez apresentou o acordo como uma oportunidade para recuperar a indústria energética e aumentar a arrecadação do Estado. Segundo informações divulgadas pelo governo venezuelano, o projeto poderia gerar mais de US$ 209 bilhões em receitas fiscais ao longo de 25 anos.

    Entretanto, novamente, trata-se de uma estimativa baseada em projeções futuras.

    Para que esses valores sejam alcançados, será necessário que os investimentos previstos sejam efetivamente realizados, que a produção aumente conforme o planejado e que as condições políticas e jurídicas permaneçam suficientemente estáveis.

    O fator geopolítico

    Além da dimensão econômica, o acordo possui uma forte dimensão geopolítica.

    Washington busca ampliar sua influência sobre o setor energético venezuelano e reduzir o espaço ocupado anteriormente por empresas e interesses russos e chineses.

    Segundo informações divulgadas pela imprensa brasileira e internacional, alguns dos campos incluídos no novo modelo estavam anteriormente associados a empresas chinesas e russas.

    Isso transforma o acordo em algo maior do que uma simples operação comercial.

    Para os Estados Unidos, representa uma oportunidade de fortalecer sua posição energética no hemisfério ocidental.

    Para a Venezuela, pode significar a entrada de capital, tecnologia e operadores estrangeiros para recuperar uma indústria que sofreu anos de deterioração.

    Para Rússia e China, por outro lado, a mudança pode significar uma redução de sua influência sobre um dos principais países produtores de petróleo das Américas.

    O que pode acontecer daqui para frente?

    O acordo ainda terá que passar por várias etapas antes que seus efeitos possam ser avaliados de forma definitiva.

    Entre os principais fatores a serem acompanhados estão:

    • a chegada efetiva dos investimentos anunciados;
    • a recuperação da infraestrutura petrolífera;
    • o aumento real da produção;
    • a participação de outras empresas internacionais;
    • a evolução das sanções e licenças norte-americanas;
    • a situação política venezuelana;
    • a estabilidade jurídica dos contratos;
    • e o comportamento dos preços internacionais do petróleo.

    Também será importante observar como as grandes empresas petrolíferas norte-americanas irão reagir ao novo ambiente de negócios na Venezuela.

    Um acordo de grandes expectativas e grandes incertezas

    O acordo petrolífero entre Estados Unidos e Venezuela pode se tornar um dos acontecimentos mais relevantes do setor energético no hemisfério ocidental nos próximos anos.

    Para Washington, representa uma oportunidade de ampliar o acesso ao petróleo venezuelano, fortalecer sua influência regional e buscar maior segurança energética.

    Para Caracas, oferece a possibilidade de atrair capital estrangeiro, recuperar a produção e aumentar as receitas públicas.

    Mas os benefícios anunciados ainda dependem da execução do projeto.

    A dimensão dos investimentos necessários, a deterioração da infraestrutura venezuelana, as dúvidas jurídicas e a incerteza política tornam difícil determinar, neste momento, se as metas de produção e de receita poderão ser alcançadas nos prazos previstos.

    Por enquanto, o acordo pode ser entendido menos como uma solução imediata para o mercado de petróleo e mais como uma aposta de longo prazo para reconstruir a indústria energética venezuelana e redefinir a relação estratégica entre Washington e Caracas.

    A evolução dos contratos, a chegada dos investimentos e o comportamento da produção serão os principais indicadores para determinar se as promessas econômicas anunciadas se transformarão em resultados concretos.

    Fontes

    • Reuters — informações sobre a estrutura do acordo entre Washington e Caracas.
    • Reuters — anúncio do acordo e participação dos Estados Unidos nas reservas venezuelanas.
    • Reuters — duração de 25 anos e meta de produção de 1,5 milhão de barris por dia.
    • Reuters Breakingviews — análise dos desafios econômicos e de infraestrutura do projeto.
    • Associated Press (AP) — informações sobre o acordo, os campos petrolíferos e os investimentos previstos.
    • Folha de S.Paulo — análise dos pontos ainda não esclarecidos sobre o acordo.
    • RTP/Lusa — informações sobre as declarações do governo venezuelano.

    Gabriela Torres
    Gabriela Torres
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