Durante muito tempo, crescer profissionalmente parecia estar diretamente relacionado à quantidade de respostas que uma pessoa tinha. Quanto mais experiente, mais se esperava que ela soubesse. O profissional sênior era aquele que dominava o assunto, conhecia o mercado e, diante de um problema, rapidamente apresentava uma solução.
Mas talvez uma das mudanças mais importantes no mundo do trabalho esteja justamente na inversão dessa lógica: sair da mentalidade do “know-it-all” — aquele que sabe tudo — para o “learn-it-all” — aquele que está disposto a aprender sempre.
E quanto mais trabalho com profissionais em diferentes momentos de carreira, mais percebo o quanto essa mudança é necessária.
Experiência continua sendo extremamente valiosa. Conhecimento acumulado, repertório, erros cometidos, decisões difíceis e anos de prática não podem simplesmente ser substituídos. Mas experiência deixa de ser uma vantagem quando se transforma na certeza de que aquilo que funcionou no passado necessariamente continuará funcionando no futuro.
Esse talvez seja um dos maiores desafios para profissionais experientes.
Depois de 15, 20 ou 30 anos de carreira, é natural ter convicções. Você já viu crises, mudanças de liderança, transformações de mercado, projetos que deram certo e outros que fracassaram. O perigo começa quando o “eu já fiz isso antes” passa a ocupar o espaço do “o que posso aprender com isso agora?”
E o mercado atual não permite muita acomodação.
Inteligência artificial, novas formas de trabalho, novas competências, novas gerações chegando às organizações e mudanças cada vez mais rápidas nos modelos de negócio estão tornando o conhecimento mais perecível. Não significa que aquilo que aprendemos deixou de ter valor. Significa que precisamos continuar acrescentando novas camadas ao que já sabemos.
Por isso, talvez uma das competências mais importantes para uma carreira longa seja a learnability: a capacidade e, principalmente, a disposição para continuar aprendendo.
E aprender não significa necessariamente fazer mais um curso.
Aprender também é perguntar. É ouvir alguém mais jovem. É admitir que não conhece uma ferramenta. É experimentar uma tecnologia nova. É conversar com profissionais de outra indústria. É receber um feedback sem imediatamente se defender. É perceber que uma competência que nos trouxe até aqui talvez não seja suficiente para nos levar para a próxima etapa.
Isso também aparece muito claramente nos processos seletivos.
Há profissionais que entram em uma entrevista preocupados em demonstrar tudo o que sabem. Contam tudo o que fizeram, apresentam todas as conquistas e procuram transmitir segurança através das respostas.
Claro que experiência e resultados precisam aparecer.
Mas cada vez mais existe outra pergunta silenciosa sendo feita do outro lado da mesa:
“Essa pessoa consegue aprender o que ainda não sabe?”
Porque nenhuma empresa está contratando alguém apenas para resolver os problemas de ontem. Ela está contratando alguém que também precisará lidar com problemas que ainda nem existem.
Talvez por isso curiosidade, adaptabilidade, humildade intelectual e capacidade de aprender estejam ganhando tanto espaço nas discussões sobre competências profissionais.
Existe algo interessante nessa mudança: quanto mais avançamos na carreira, menos deveríamos sentir necessidade de provar que sabemos tudo.
A verdadeira senioridade talvez esteja justamente em conseguir dizer:
“Não sei. Mas posso aprender.”
Isso não diminui nossa experiência. Pelo contrário. Demonstra maturidade para utilizar tudo aquilo que construímos no passado sem ficarmos presos a ele.
Em um mercado que muda tão rapidamente, o profissional mais preparado para o futuro talvez não seja aquele que acumulou mais respostas.
É aquele que continua fazendo perguntas.
E talvez essa seja uma boa pergunta para levarmos para a próxima semana de trabalho:
Você está construindo sua carreira para mostrar tudo o que já sabe ou para continuar descobrindo tudo aquilo que ainda pode aprender?

Especialista em transição de carreira e desenvolvimento profissional, com uma trajetória construída entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de duas décadas em Recursos Humanos, acompanho de perto o movimento das pessoas em busca de novos caminhos — algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, cada vez mais global. Colunista da Florida Review na coluna de Carreira, também sou professora em cursos de especialização e consultora à frente do ICT (International Career Transition), onde apoio brasileiros a entender o mercado americano, construir oportunidades e encontrar direção em momentos de mudança. Acredito que clareza, estratégia e conexões transformam destinos.
