Procurar emprego pode ser uma atividade bastante enganosa. É possível passar horas no LinkedIn, enviar dezenas de currículos, conversar com recrutadores, participar de entrevistas e terminar a semana com a sensação de que se trabalhou muito. E provavelmente se trabalhou. Mas movimento e progresso nem sempre são a mesma coisa.
Essa é uma reflexão que tenho feito com frequência ao acompanhar profissionais em transição de carreira.
Quando uma busca começa a se prolongar, a reação mais comum é aumentar o esforço. Se dez aplicações não trouxeram resultado, fazemos vinte. Se uma semana passou sem entrevistas, aumentamos o número de vagas. Atualizamos novamente o currículo, acrescentamos mais palavras-chave ao LinkedIn e seguimos tentando.
Existe disciplina nisso, e ela é importante. Mas chega um momento em que talvez a pergunta não deva ser “o que mais eu posso fazer?”, e sim “o que a minha busca está me mostrando?” Porque o silêncio do mercado também traz informações.
Se um profissional encontra vagas compatíveis com sua experiência, aplica regularmente e quase nunca é chamado para entrevistas, existe alguma mensagem ali. Talvez as posições escolhidas não sejam tão aderentes quanto parecem. Talvez o currículo não esteja traduzindo adequadamente sua trajetória. Talvez seu posicionamento esteja amplo demais ou sua experiência esteja sendo apresentada de uma maneira que fazia sentido na empresa anterior, mas não é facilmente compreendida pelo mercado.
Por outro lado, se as entrevistas acontecem, mas raramente avançam, a questão provavelmente está em outro lugar.E se o profissional chega constantemente às etapas finais, conversa com gestores, recebe bons feedbacks, mas a oferta não chega, temos ainda outro cenário.
Perceber essas diferenças muda completamente a forma de conduzir uma transição. Uma busca profissional tem, mesmo que não percebamos, uma espécie de funil. Existem oportunidades que identificamos, aquelas para as quais aplicamos, as que se transformam em conversas, as que avançam para entrevistas e, finalmente, aquelas que chegam perto de uma oferta. Observar onde esse movimento perde força pode ser muito mais útil do que simplesmente aumentar o volume.
O problema é que poucas pessoas acompanham a própria busca dessa maneira. Guardamos na memória algumas vagas, lembramos daquela entrevista que parecia promissora, temos a sensação de que estamos aplicando bastante e sabemos que conversamos com algumas pessoas. Mas, quando perguntamos quantas aplicações realmente fizeram sentido nos últimos trinta dias, quantas geraram entrevistas, quantos novos contatos foram estabelecidos ou em qual etapa dos processos as oportunidades normalmente terminam, as respostas começam a ficar menos claras.
E é justamente aí que podemos perder informações importantes. Existe também outro aspecto que os números não conseguem mostrar: a forma como o mercado está entendendo quem você é.
Depois de muitos anos de carreira, isso pode ser particularmente desafiador. Um executivo pode ter acumulado experiências extraordinárias, passado por diferentes funções, liderado equipes, mercados e transformações importantes. Para ele, existe uma lógica evidente conectando toda essa trajetória. Para quem recebe seu currículo durante alguns segundos ou acessa seu LinkedIn pela primeira vez, essa lógica pode não ser tão evidente.
É possível ter uma carreira excelente e, ainda assim, não ter um posicionamento claro. Por isso, gosto de uma pergunta bastante simples: se alguém da sua rede encontrasse hoje uma oportunidade interessante, saberia imediatamente que deveria pensar em você?
Se a resposta exigir muitas explicações — “pode ser isso, mas também aquilo; dependendo da empresa poderia considerar outra coisa” — talvez exista algo a ser trabalhado. Networking entra nessa equação pelo mesmo motivo.
Ainda vejo muitos profissionais tratando networking como algo que deve ser ativado quando precisam de emprego. Mandam mensagens para antigos colegas, avisam que estão disponíveis e perguntam sobre oportunidades. Isso faz parte do processo, mas uma boa rede profissional vai muito além disso.
Networking também serve para testar posicionamento, entender como outras empresas enxergam determinada experiência, descobrir mercados, conhecer pessoas fora do círculo habitual e acessar oportunidades que talvez nunca sejam publicadas.
Às vezes, uma conversa de trinta minutos oferece mais informação sobre uma busca do que vinte aplicações feitas naquela mesma semana. E existe ainda uma dimensão mais simples, mas frequentemente negligenciada: organização.
Transição profissional exige consistência. Saber com quem conversamos, quando precisamos fazer um follow-up, quais empresas queremos acompanhar, quais processos estão avançando e o que aprendemos em cada entrevista. Quando isso não existe, começamos a reagir às oportunidades que aparecem, em vez de conduzir a busca na direção que desejamos.
Talvez por isso períodos de transição sejam tão desgastantes. Além da incerteza natural do momento, existe uma quantidade enorme de decisões acontecendo ao mesmo tempo. E, quando estamos emocionalmente envolvidos no processo, nem sempre conseguimos perceber com clareza aquilo que os resultados estão tentando nos mostrar.
Uma rejeição pode parecer apenas uma rejeição. Cinco rejeições semelhantes talvez já sejam um padrão. Uma entrevista que não avançou pode significar pouco. Várias entrevistas terminando exatamente na mesma etapa merecem atenção.
E meses de aplicações sem conversão não deveriam necessariamente produzir mais aplicações. Deveriam produzir perguntas. Por isso, de tempos em tempos, vale interromper a busca por algumas horas e olhar para ela de fora.
Não para avaliar se você está se esforçando o suficiente. Essa provavelmente não é a questão. Mas para entender se o esforço está sendo colocado no lugar certo.
Olhe para os últimos trinta ou sessenta dias. Observe as vagas, as conversas, as entrevistas, as pessoas que conheceu e aquelas com quem voltou a falar. Tente identificar onde houve movimento e onde as coisas parecem sempre parar.
Talvez você descubra que precisa ajustar o currículo. Talvez seja o posicionamento. Talvez esteja dependendo demais das aplicações online. Talvez precise ampliar sua rede. Talvez esteja chegando às entrevistas sem conseguir transformar uma carreira rica em histórias claras de impacto. Ou talvez sua estratégia esteja funcionando e simplesmente precise de mais tempo e consistência.
O importante é conseguir distinguir uma coisa da outra. Porque uma busca de emprego não deveria ser apenas uma sequência de tentativas. Ela também deveria ser uma sequência de aprendizados e ajustes.E, algumas vezes, o que falta para uma carreira voltar a se movimentar não é fazer mais. É conseguir enxergar melhor o que já está acontecendo.
Carolina Melo Leitao

Especialista em transição de carreira e desenvolvimento profissional, com uma trajetória construída entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de duas décadas em Recursos Humanos, acompanho de perto o movimento das pessoas em busca de novos caminhos — algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, cada vez mais global. Colunista da Florida Review na coluna de Carreira, também sou professora em cursos de especialização e consultora à frente do ICT (International Career Transition), onde apoio brasileiros a entender o mercado americano, construir oportunidades e encontrar direção em momentos de mudança. Acredito que clareza, estratégia e conexões transformam destinos.
