Flavia da Matta
Há uma confiança curiosa na maneira como falamos do futuro. Não sabemos exatamente onde estaremos, com quem ou fazendo o quê. Mas, quando imaginamos a vida que ainda queremos ter, parece quase certo que seremos mais felizes nela.
Às vezes, nem esperamos tanto. Um pouco mais de dinheiro, menos obrigações, os filhos encaminhados. O suficiente para respirar e dizer: agora está bom.
O que me chama a atenção é esse “agora”, sempre colocado tão adiante.
Talvez tenhamos nos acostumado à ideia de que primeiro precisamos cuidar de tudo. Trabalhar, organizar a vida, garantir alguma segurança. Depois poderemos aproveitar.
O “depois” tem bons argumentos. Seria difícil discordar dele.
Quem quer chegar desprevenido à velhice? Quem não gostaria de deixar os filhos amparados? Há afeto nessa preocupação. Há responsabilidade. E, para quem vive contando dinheiro, esperar pode ser uma necessidade concreta. Não seria justo chamar de dificuldade de viver o presente aquilo que é dificuldade de pagar o presente.
Mas penso também em quem já pode aproveitar alguma coisa e continua esperando. A vida melhorou, uma preocupação diminuiu, algo que parecia distante aconteceu. Mesmo assim, ainda parece cedo para ficar contente.
Como se estar satisfeito pudesse comprometer o desempenho.
Será que temos medo de nos acomodar? De gostar tanto de onde chegamos que falte vontade de continuar? Fico pensando se precisamos mesmo estar insatisfeitos para querer alguma coisa.
“Não posso reclamar”, dizemos, com a cautela de quem não quer exagerar.
Às vezes, dá vontade de perguntar: mas pode gostar?
Também podemos nos enganar sobre a felicidade que nos espera. Em um estudo alemão, o economista Hannes Schwandt comparou como as pessoas esperavam se sentir anos depois com o que relataram quando esse tempo passou. Os jovens, em média, esperavam estar mais satisfeitos do que realmente ficaram. Já os mais velhos se sentiram melhor do que haviam previsto.
Não sabemos tão bem quanto pensamos o que o futuro nos reserva.
Isso não diminui a importância de fazer planos. Só me faz desconfiar da certeza de que seremos felizes ao cumpri-los.
Ainda assim, seguimos confiando naquele “quando eu chegar lá”. E podemos chegar, olhar em volta e encontrar outro motivo para adiar o descanso. A conquista aconteceu. Nós é que já estamos ocupados com o que falta.
Algumas esperas fazem sentido. Têm motivo, prazo, um esforço que nos aproxima de alguma coisa. Outras continuam sem que saibamos dizer o que precisa acontecer para terminar.
Talvez estejamos esperando uma felicidade sem preocupação alguma. Enquanto isso, a que aparece vem misturada à vida: um almoço agradável numa semana difícil, uma boa notícia quando outra coisa não vai bem.
Será que isso conta? Ou só vamos nos considerar felizes quando não houver nenhuma ressalva?
Penso nos períodos de que sentimos saudade. Os filhos pequenos, o começo de um trabalho, a casa em que morávamos. Na época, também havia cansaço, contas, alguma coisa por resolver. Ainda assim, hoje conseguimos enxergar o que havia de bom.
Talvez valha olhar com um pouco mais de atenção antes que a saudade faça esse trabalho por nós.
Flávia Tenório é cirurgiã-dentista, especialista em ortodontia, estética e harmonização facial. Atualmente atua nos Estados Unidos como Facial Specialist e Dental Assistant. É autora do livro Toxina Botulínica: Mais do que Estética – A Cura da Dor e voluntária no projeto Doutores das Águas, levando atendimento odontológico a comunidades ribeirinhas no Brasil. Sua atuação une experiência clínica, sensibilidade humana e foco em qualidade de vida.
