Muitos imigrantes chegam saudáveis aos Estados Unidos. A ciência mostra o que acontece com essa vantagem depois de alguns anos de trabalho duro e noites mal dormidas.
Por Patrícia Veiga, Especialista em Neurociência Afetiva & Inteligência Emocional
Florida Review
A vantagem que vai embora
Pesquisadores de saúde pública descrevem há décadas um fenômeno curioso. Quem emigra costuma chegar mais saudável do que a média da população do país que o recebe.
É compreensível: migrar exige disposição, planejamento, energia. Só que essa vantagem não é eterna.
Um estudo clássico, publicado em 2009 por Robert Kaestner e colegas, analisou dados de uma grande pesquisa nacional de saúde americana. Os autores observaram que imigrantes mexicanos de 45 a 60 anos chegavam com índices de desgaste fisiológico menores do que americanos nativos de diferentes origens, e que essa diferença diminuía conforme aumentava o tempo de residência nos Estados Unidos.
A explicação mais consistente com os dados foi a exposição repetida e prolongada ao estresse. Na literatura, esse efeito aparece com um nome pouco simpático: assimilação não saudável.
Um estudo piloto com trabalhadores imigrantes de hotel, publicado em 2022, apontou na mesma direção: quanto maior o tempo de permanência no país, maior o desgaste fisiológico e maior o número de doenças crônicas registradas.
A amostra era pequena e os próprios autores tratam o resultado com cautela, mas ele conversa com o que a pesquisa maior já havia mostrado.
O que é esse desgaste?
O termo técnico é carga alostática, conceito formulado pelo neurocientista Bruce McEwen.
A ideia é simples: diante de uma ameaça, o corpo se reorganiza. Libera cortisol e adrenalina, acelera o coração, aumenta a glicose disponível e deixa o cérebro em alerta.
Isso é inteligente e, por algumas horas, é exatamente o que se espera. O problema aparece quando a ameaça não termina. A conta passa a ser cobrada em pressão arterial, glicemia, inflamação e qualidade do sono.
Para quem vive o dia a dia de um imigrante, a lista de gatilhos é longa e conhecida: jornada dupla, dinheiro contado, idioma que cansa, saudade, insegurança sobre documentos e medo de perder o trabalho.
Nenhum deles, sozinho, derruba ninguém. O que pesa é a soma, em silêncio e por anos.
O sono entra aqui como peça central.
Experimentos de neuroimagem, como o de Yoo e Walker em 2007, mostraram que uma noite sem dormir deixa a amígdala, região que detecta ameaças, bem mais reativa, e enfraquece a comunicação dela com o córtex pré frontal, que funciona como um freio racional.
Na prática, a pessoa mal descansada interpreta o mundo como mais perigoso e reage com mais irritação e mais ansiedade.
Não é falta de força de vontade. É o cérebro operando sem o freio.
Dormir mal durante a fase mais difícil da adaptação não é um detalhe da rotina. É um dos principais mecanismos pelos quais o estresse se transforma em doença.
O que as brasileiras contam
A pesquisa sobre saúde mental de brasileiros nos Estados Unidos ainda é curta, e quase toda vem de Massachusetts, onde fica outra grande comunidade brasileira.
Na Flórida, que abriga uma das maiores do país, o que se sabe ainda é pouco. Vale ter isso em mente ao ler os números.
Em 2021, uma equipe da Tufts University reuniu 47 brasileiras da região de Boston em cinco grupos de conversa.
A saúde mental apareceu como a prioridade número um, à frente de qualquer outra queixa. As próprias participantes atribuíam a ansiedade e a depressão a três fatores: a preocupação com a situação migratória, o afastamento da rede de apoio e as jornadas extenuantes de trabalho.
Um estudo posterior da mesma universidade, divulgado em 2025, encontrou níveis elevados de sintomas depressivos entre imigrantes brasileiras, mas apenas um terço das participantes havia buscado cuidado.
Há um dado que desmonta um senso comum.
Um trabalho de 2014 comparou porto riquenhos, latinos imigrantes e brasileiros em Massachusetts e concluiu que o estigma em relação à doença mental não explicava, por si só, quem procurava ajuda e quem não procurava.
Entre os brasileiros, quem estava mais adaptado à cultura americana tendia a buscar mais tratamento para ansiedade.
A leitura razoável é que o obstáculo raramente é “brasileiro não gosta de terapia”. Pesam o idioma, o custo, a falta de tempo, a dificuldade de achar um profissional que fale português e o medo de se expor.
É um problema de acesso antes de ser um problema de vontade.
Os avisos que o corpo dá primeiro
Muita gente espera sentir tristeza para admitir que algo vai mal. Só que, no processo descrito acima, o corpo costuma falar antes da cabeça.
Vale prestar atenção em:
• Sono picotado, acordar de madrugada com a mente acelerada, ou dormir muito e continuar exausto.
• Irritação desproporcional com pessoas de quem se gosta.
• Dores musculares, de cabeça ou de estômago que vão e voltam sem causa.
• Esquecimentos e dificuldade de concentração que antes não existiam.
• Aumento do consumo de álcool ou de remédios para dormir “só para aguentar a semana”.
• A sensação de viver no modo sobrevivência, sem espaço para prazer, mesmo nos dias de folga.
Nenhum desses sinais, isolado, é diagnóstico. Juntos e persistentes, merecem uma conversa com um profissional de saúde.
O que fazer, sem fórmula mágica
Não existe truque que desfaça anos de sobrecarga. Mas existem decisões pequenas, sustentadas, que diminuem o desgaste:
• Tratar o sono como compromisso de saúde, e não como sobra do dia. Com turnos irregulares, vale proteger ao menos uma janela fixa de descanso e deixar o celular fora da cama.
• Fazer um check up que inclua pressão arterial e glicemia, e contar ao médico como está o sono e o nível de estresse. Se o inglês for barreira, pedir intérprete é um direito, e não um favor.
• Criar uma transição curta entre o trabalho e o resto do dia: cinco minutos de respiração lenta, com a expiração mais longa que a inspiração, ajudam o sistema nervoso a baixar a guarda.
• Mexer o corpo, mesmo que seja uma caminhada de vinte minutos. Atividade física regular é uma das formas mais bem documentadas de reduzir os efeitos do estresse crônico.
• Procurar atendimento em português, quando possível. Um estudo piloto publicado em 2021 testou, na atenção primária, um programa de atenção plena, mindfulness, para imigrantes falantes de português e relatou resultados preliminares animadores para depressão e ansiedade. É um estudo pequeno, mas mostra que o caminho existe.
• Procure ajuda. O isolamento é um dos fatores que mais agravam o quadro.
Se em algum momento surgirem pensamentos de que a vida não vale a pena, ou de que seria melhor não estar aqui, ligue ou envie uma mensagem de texto para o 988, a linha nacional de apoio em crise dos Estados Unidos.
É gratuita e funciona todos os dias, a qualquer hora.
Antes que a ferramenta quebre
Quem imigra costuma tratar o próprio corpo como ferramenta de trabalho: usa até quebrar, porque há conta para pagar e família para sustentar.
É uma lógica que faz sentido, até o dia em que a ferramenta falha justamente quando a vida finalmente começa a dar certo.
Os dados mostram que o desgaste cresce com o tempo, o que também significa que existe uma janela para agir.
Cuidar do sono, do corpo e da cabeça enquanto se constrói a vida nova é fundamental.
É a única forma de ainda estar inteiro para usufruir dela.
Referências
Kaestner R, Pearson JA, Keene D, Geronimus AT. Stress, allostatic load, and health of Mexican immigrants. Social Science Quarterly. 2009;90(5):1089 1111.
Rosemberg MS, Li Y, Polick C. Immigration related stressors and health outcomes among low wage immigrant hotel workers: a pilot study. Public Health Nursing. 2022. doi:10.1111/phn.13086.
McEwen BS. Protective and damaging effects of stress mediators. New England Journal of Medicine. 1998;338(3):171 179.
Yoo SS, Gujar N, Hu P, Jolesz FA, Walker MP. The human emotional brain without sleep: a prefrontal amygdala disconnect. Current Biology. 2007;17(20) R878.
Rocha LP, Soares C, Allen JD, et al. Understanding health priorities, behaviors, and service utilization among Brazilian immigrant women in the United States. Journal of Racial and Ethnic Health Disparities. 2021.
Sánchez M, Cardemil EV, et al. Brave new world: mental health experiences of Puerto Ricans, immigrant Latinos, and Brazilians in Massachusetts. Cultural Diversity and Ethnic Minority Psychology. 2014.
Tufts University. Sociodemographic variables associated with self reported access to mental healthcare among Brazilian immigrant women in the US. Resumo em Mental Health Weekly Digest. 2025.
Estudo piloto de intervenção baseada em mindfulness para imigrantes falantes de português na atenção primária. Frontiers in Psychiatry. 2021. doi:10.3389/fpsyt.2021.664381.
Patrícia Veiga é especialista em Neurociência Afetiva e Inteligência Emocional, com 17 anos dedicados a compreender como o cérebro humano processa vínculo, estresse e pertencimento.

Dra. Patrícia Veiga é especialista em neurociência afetiva com 15 anos de experiência. Atualmente dedica parte de seu trabalho a apoiar a saúde mental de imigrantes brasileiros, através da Florida Review.
