Em momentos de transição profissional, buscar informações e planejar são importantes. Mas algumas respostas sobre o futuro da carreira só aparecem quando deixamos o campo das ideias e começamos a experimentar novas possibilidades.
Por Carolina Melo Leitão
Carreiras Sem Fronteiras #49
Florida Review
19 de outubro de 2026
Editoria: Carreira | Desenvolvimento Profissional
Existe uma tendência bastante humana de acreditar que precisamos compreender completamente uma situação antes de tomar uma decisão.
Quando pensamos em mudanças profissionais, essa necessidade de clareza parece ainda maior. Queremos entender nossas competências, identificar oportunidades, avaliar riscos, conhecer o mercado e construir um plano suficientemente sólido para evitar erros.
Afinal, fomos ensinados, ao longo de nossas carreiras, que boas decisões são resultado de análises cuidadosas.
Mas será que essa lógica funciona da mesma maneira quando estamos diante de algo verdadeiramente novo?
A professora Herminia Ibarra, reconhecida por seus estudos sobre liderança e transições de carreira, apresenta uma reflexão interessante: muitas vezes, não conseguimos pensar até encontrar uma nova maneira de agir. Precisamos agir para descobrir novas maneiras de pensar.
A ideia contraria uma sequência que aprendemos a considerar natural: primeiro refletir, depois decidir e, finalmente, executar.
Quando informação não significa experiência
Essa perspectiva se torna particularmente relevante em um momento em que nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, tantas possibilidades de permanecer apenas no campo das ideias.
Hoje, podemos recorrer à inteligência artificial para analisar nosso perfil profissional, identificar caminhos de carreira, pesquisar tendências, comparar oportunidades e até construir cenários sobre o futuro.
Em poucos minutos, conseguimos reunir informações que anteriormente exigiriam dias de pesquisa.
Sem dúvida, estamos diante de uma transformação extraordinária na maneira como aprendemos e tomamos decisões.
Entretanto, existe uma diferença importante entre ter acesso a informações e adquirir experiência.
Podemos conversar durante horas com uma ferramenta de inteligência artificial sobre uma possível mudança de carreira, mas nenhuma dessas conversas substitui completamente a experiência de conhecer alguém que atua naquela área, participar de uma entrevista, visitar uma empresa ou experimentar uma atividade diferente.
A tecnologia amplia nossa capacidade de reflexão.
A experiência amplia nossa compreensão da realidade.
E talvez esse seja um dos grandes desafios do desenvolvimento profissional contemporâneo: não confundir preparação com movimento.
Nossa identidade profissional também pode nos limitar
Ao longo da vida, construímos uma identidade profissional baseada em nossas escolhas, conquistas, competências e experiências.
Quanto mais consolidada essa identidade, mais difícil pode ser imaginar alternativas.
Um executivo que passou vinte anos em determinada indústria tende a interpretar suas possibilidades a partir daquele universo. Um profissional que construiu sua carreira em uma função específica pode ter dificuldade de reconhecer suas competências em outros contextos.
Não necessariamente porque lhe faltem alternativas, mas porque ainda não teve experiências que permitam enxergá-las.
É nesse ponto que a experimentação assume um papel fundamental.
Uma conversa com alguém de outro setor pode revelar possibilidades que nunca haviam sido consideradas. Um projeto diferente pode despertar interesses que estavam adormecidos. Uma entrevista para uma posição aparentemente distante do objetivo inicial pode ajudar a compreender melhor aquilo que realmente buscamos.
Até uma experiência que não funciona pode trazer descobertas importantes.
Em outras palavras, nem sempre descobrimos nossos interesses e capacidades apenas olhando para dentro.
Muitas vezes, precisamos interagir com o mundo para reconhecê-los.
Agir para aprender não é agir sem direção
Isso não significa que planejamento, autoconhecimento e reflexão tenham perdido importância.
Pelo contrário. Eles continuam sendo fundamentais.
Mas talvez precisemos abandonar a expectativa de que todas as respostas devam surgir antes do primeiro movimento.
Existe uma diferença entre agir sem direção e agir para aprender.
A primeira atitude pode representar impulsividade. A segunda exige curiosidade, abertura e disposição para testar hipóteses.
É uma forma de construir conhecimento a partir da realidade, permitindo que novas experiências influenciem nossas decisões.
Também existe uma dimensão emocional importante nesse processo.
Mudanças profissionais frequentemente despertam insegurança, especialmente quando envolvem deixar para trás uma posição, uma organização ou uma identidade construída ao longo de muitos anos.
Nessas circunstâncias, a busca por mais informações pode funcionar como uma tentativa de recuperar o controle.
Continuamos pesquisando, analisando e planejando porque agir significa, inevitavelmente, nos expor à possibilidade de errar, receber uma resposta negativa ou descobrir que nossas expectativas não correspondem à realidade.
Permanecer apenas na preparação também tem um custo
O excesso de reflexão pode alimentar dúvidas, reforçar inseguranças e transformar decisões possíveis em problemas aparentemente insolúveis.
A ação, por outro lado, produz novas referências.
Uma conversa bem-sucedida pode fortalecer a confiança. Uma experiência inesperada pode ampliar nossa percepção de capacidade. Um resultado diferente do esperado pode nos ajudar a corrigir a direção.
Não porque toda iniciativa necessariamente produza sucesso, mas porque cada experiência oferece informações que antes não estavam disponíveis.
Há algo particularmente interessante nessa dinâmica: nossa identidade profissional não é construída apenas a partir do que pensamos sobre nós mesmos.
Ela também se transforma a partir daquilo que fazemos, das pessoas com quem interagimos e dos ambientes que passamos a conhecer.
Talvez por isso algumas das mudanças mais significativas de carreira não tenham começado com uma grande decisão, mas com pequenos movimentos.
Uma conversa aceita por curiosidade. Um convite para participar de um projeto. Um curso fora da área habitual. Uma aproximação com profissionais de outro mercado.
Experiências aparentemente simples que, aos poucos, modificam nossa percepção sobre o que é possível.
Algumas respostas só aparecem quando começamos
Em um mundo que valoriza cada vez mais a velocidade das respostas, talvez precisemos recuperar o valor das perguntas que só podem ser respondidas pela experiência.
A inteligência artificial certamente continuará transformando a maneira como trabalhamos, aprendemos e planejamos nossas carreiras.
Mas há algo profundamente humano no processo de descobrir quem podemos nos tornar.
Essa descoberta exige relacionamento, observação, tentativa, adaptação e, em determinados momentos, coragem para avançar sem conhecer todas as respostas.
Talvez a questão mais importante diante de uma mudança profissional não seja apenas:
“Qual é o próximo passo certo?”
Mas:
“Que experiência poderia me ajudar a enxergar possibilidades que ainda não consigo perceber?”
Porque, muitas vezes, não precisamos esperar que nossa maneira de pensar mude para começar uma nova etapa.
Precisamos começar a agir para que novas maneiras de pensar se tornem possíveis.
Carolina Melo Leitão
Carreiras Sem Fronteiras
LinkedIn: linkedin.com/in/carolinameloleitao
E-mail: carolina@aptarecareer.com

Especialista em transição de carreira e desenvolvimento profissional, com uma trajetória construída entre Brasil e Estados Unidos. Com mais de duas décadas em Recursos Humanos, acompanho de perto o movimento das pessoas em busca de novos caminhos — algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, cada vez mais global. Colunista da Florida Review na coluna de Carreira, também sou professora em cursos de especialização e consultora à frente do ICT (International Career Transition), onde apoio brasileiros a entender o mercado americano, construir oportunidades e encontrar direção em momentos de mudança. Acredito que clareza, estratégia e conexões transformam destinos.
