Ninguém.
É uma resposta honesta. O problema é que costuma chegar um pouco tarde.
Alguém comenta que uma conhecida não apareceu no almoço de domingo. Outra pessoa se lembra de que ela também faltou ao aniversário da mãe. Uma terceira diz que sempre a achou distante. Quando a sobremesa chega à mesa, já sabemos que ela não liga para a família, só pensa nela e provavelmente sempre foi assim.
“Mas quem sou eu para julgar?”
A essa altura, talvez fosse mais fácil perguntar quem ainda não julgou.
Há outras frases que fazem o mesmo serviço. “Não quero falar mal”, por exemplo, costuma ser uma boa maneira de começar a falar mal. “Cada um sabe da sua vida” aparece depois que demonstramos saber bastante sobre a vida de alguém que nem está presente.
Talvez a fofoca seja tão difícil de interromper porque também aproxima quem participa dela. Em poucos minutos, duas pessoas descobrem que pensam igual sobre uma terceira. Uma acrescenta um detalhe, a outra se lembra de um episódio antigo, e a história vai ficando cada vez mais convincente. Dizer “eu não sei” nesse momento tem quase o efeito de apagar as velas antes dos parabéns.
Só que, muitas vezes, não sabemos mesmo. Não sabemos o que aconteceu antes daquele domingo, se houve uma conversa, uma briga, uma tentativa de reconciliação. Talvez não tenha acontecido nada disso. Talvez a pessoa simplesmente não quisesse ir. O curioso é que conseguimos ter bastante certeza sem precisar descobrir.
E não é preciso imaginar uma tragédia escondida para tratar a história com mais cuidado. A ausência pode ter magoado alguém. Podemos entender essa mágoa e até achar que a pessoa deveria ter agido de outro modo. O salto acontece quando, a partir daquele almoço, passamos a explicar quem ela é.
Já fiz esse salto também. Interpretei silêncios, adivinhei intenções e contei histórias nas quais a minha versão parecia tão completa que nem me ocorreu perguntar pela outra. Mais tarde, apareceu um detalhe novo. Às vezes ele mudou minha opinião; outras vezes, só mostrou o quanto eu havia decidido com tão pouco.
É fácil reconhecer esse hábito quando ouvimos os outros. Na nossa própria boca, ele costuma soar como uma observação bastante lúcida.
Por isso, ainda gosto da pergunta “quem sou eu para julgar?”. Ela pode nos fazer parar por um instante e perceber a diferença entre aquilo que sabemos e aquilo que acabamos de acrescentar. Pode até deixar que a ausência de alguém ao almoço seja apenas isso, sem transformar a pessoa no assunto principal da sobremesa.
Talvez “quem sou eu para julgar?” seja uma pergunta para fazer antes de completar a história de alguém por conta própria.
Depois de horas julgando, já não é bem uma dúvida. É um jeito educado de levantar da mesa com a fofoca em dia e a consciência tranquila.

Flavia da Matta construiu sua carreira na comunicação, liderando produções de grande escala em empresas como a Sony Entertainment Television e nas principais redes de TV brasileiras. Após uma virada em sua saúde, redirecionou seu foco para o mundo interno.
Hoje, como Mentora Terapêutica Comportamental, atua na intersecção entre clareza emocional, comunicação e dinâmica humana, ajudando indivíduos a transformar experiências internas em consciência e estrutura. Também é Diretora de Produção no TEDxMiami, onde lidera experiências de palestras e mentora em oratória e comunicação estratégica.
Por meio do Método CLEAR™, promove organização interna para uma liderança mais intencional, relações mais saudáveis e transformação consistente.
