Por Dra. Letícia Sangaletti
Um dia e meio em Porto Alegre e parece que eu fiz mais coisas que nos três outros dias da semana. Durante o retorno, meu irmão e eu conversávamos sobre tudo, negócios, família, viagem, o mundo. E em alguns mometos meu silêncio cortava o diálogo para dar atenção às mensagens do WhatsApp. Sorte a minha que nosso silêncio é confortável e ele me entende. Longas sete horas de viagem e boa parte do caminho sem sinal de internet, então, quando podia, aproveitava. De dentro do carro percebi como tudo parecia se mover rápido demais, num compasso apressado que, mesmo sem correr, nos arrasta junto.
Já faz tempo que tenho tentado abstrair e internalizar que a pressa já não é medida de produtividade, e o ritmo frenético, sinônimo de sucesso. Que é necessário desacelerar, e é por isso que por aqui aproveitamos todas as pausas possíveis. Para alguns, pausas que soam como perda de tempo e dinheiro. Penso que, muito pelo contrário, elas são sinônimo de ganhos. De saúde mental, especialmente. Parar para se ver, se entender se reconhecer, mas melhor ainda, descansar.
Agora com o Bento com 4 meses, percebo mais ainda todos os estímulos que nos cercam. Desde que ele nasceu, ainda não consegui responder todas as mensagens. Agora, já tenho mais parcimônia com os prazos que podem esperar, na tentativa de viver um pouco no meio desse movimento contínuo e aterrorizante.
Sim, aterrorizante. E nesse texto, que foi sugestão da Gabi, quero dizer a quem afirma que desacelerar é uma arte porque exige escolha de não responder a tudo, de não consumir tudo, de não estar em todos os lugares, que não é bem assim, que isso é quase uma falácia. É difícil, e diariamente precisamos lutar contra a dificuldade que parar para descansar e evitar um colapso. É um exercício de resistência em um mundo que valoriza a pressa.
Precisamos parar de ver o desacelerar como o luxo e entender como necessidade. Milan Kundera dizia que a lentidão tem uma beleza própria, e é nela que a memória se fixa, que o detalhe ganha relevância, que a experiência se torna presença. E este é o ponto, é corajoso quem consegue reduzir o passo apressado para ver e observar que muitas particularidades a gente só percebe quando caminha e não corre.
É como nos projetos de design, em que tudo que é pra ontem jamais vai ter a mesma qualidade criativa do que é para semana que vem. É preciso caminhar, caminhantes!! Precisamos ser resistentes e aceitar que nosso corpo precisa pausas, precisa desacelerar e precisa de fôlego para seguir.
Deixe que os outros corram e cuide do seu passo. Mesmo devagar é possível chegar antes e melhor, porque desacelerar não é parar. É escolher viver com presença enquanto todo mundo insiste em correr.
Três práticas para cultivar a arte de desacelerar
– Respire o tempo: transforme pequenas pausas em rituais (tomar um café, caminhar, observar uma a natureza).
– Desligue o ruído: desconecte-se, ainda que por minutos. O som do silêncio é um calmante poderoso.
– Escolha a cadência: não é preciso estar no ritmo dos outros. Cada um pode criar o compasso da própria vida.