Por Letícia Sangaletti
“Como assim, o Bento não veio junto? Corajosa, hein”! Escutei muito isso no final de semana. Algumas pessoas indignadas, outras me encorajando ou confortando e outras falando de tal forma que eu poderia me sentir um monstro abandonando seu filhote.
Mas me senti corajosa sim, por viajar com um bebê tão pequeno, por confiar que outros braços o acalentassem, e também, por não me paralisar pela culpa. Meu menino ficou super bem, e eu pude me permitir viver como Letícia por uns dias, e não só ser a mãe do Bento. Isso só foi possível por termos uma super rede de apoio. Meu filho não ficou desamparado, ele ficou muito bem assistido.
Confesso que durante esses dias senti um buraco interno, um vazio, que se abriu dente de mim. Mas, curiosamente, senti-me preenchida por um sentimento bom, de segurança. Eu sabia onde Bento estava, que ele estava seguro, que minha família, seria extensão do meu carinho, do meu cuidado, da minha presença. E quando existe uma rede de apoio que funciona, a coragem ganha outro nome: tranquilidade.
Morri de saudade, confesso. Como não morrer de saudade de alguém que preenche os dias? Pensei nele muito, o tempo todo. E a cada movimento, recebia imagens que comprovavam que ele estava muito bem longe de mim. E sso me fez pensar o quão importante é trabalhar liberdade e independência desde cedo, em entender que um vínculo não se prova pelo controle, e sim pela confiança.
Voltar para casa foi um capítulo à parte. Quando me viu, Bento me reconheceu imediatamente e abriu um sorriso largo tão lindo, que eu não aguentei. Naquele instante percebi o quanto nós dois crescemos enquanto estivemos separados.
Cresci, pois percebi que é possível adaptar. A maternidade limita sim, mas até o ponto que deixamos, ou conseguimos, ela limitar. O quanto dessa limitação é só nosso medo de nos afastarmos por um pequeno momento e deixar nossos pequenos desamparados. E assim como eu, ele também cresceu na sua individualidade e em afetos.
Então realmente eu seja corajosa mesmo, corajosa por permitir que a minha maternidade seja humana e que o meu filho tenha mais mundos além do meu colo, e corajosa por voltar sem culpa (apesar dela me acompanhar durante esses dias).
Quatro dias parece pouco, mas é muito.