Uma estudante de 20 anos afirma ter sido drogada e violentada sexualmente por integrantes de uma fraternidade da Cornell University. Depois, segundo seus advogados, ela pediu para se afastar da universidade, mas não conseguiu o reembolso de sua tuition e acabou permanecendo no campus, onde continuava encontrando alguns dos homens que acusava.
Quase dois anos depois, o caso voltou ao centro das atenções nos Estados Unidos.
A jovem, identificada judicialmente como Jane Doe, apresentou uma ação civil contra Cornell, a fraternidade Chi Phi e sete atuais ou ex-estudantes: Matthew Ingalls, Johnathan Newell, Winston Lee, Gillio Lopes, Diego Sarabia, Scott Norris e Scott Kretzschmar.

O processo provocou forte repercussão nacional e levou a Promotoria do Condado de Tompkins a reabrir a investigação criminal sobre o que teria acontecido na madrugada de 19 para 20 de outubro de 2024.
O que ela diz que aconteceu
Segundo a ação, Jane Doe chegou à casa da fraternidade Chi Phi depois de uma noite em que já havia consumido álcool.
Ela afirma que, dentro da casa, foi pressionada a consumir uma substância apresentada como ketamina, além de maconha e mais bebida alcoólica.
Com o passar das horas, segundo o processo, ela ficou cada vez mais incapacitada.
A ação acusa os sete homens de diferentes condutas relacionadas ao episódio e sustenta que a jovem foi sexualmente agredida ao longo da madrugada, chegando a ficar inconsciente durante parte dos acontecimentos.
Enquanto isso acontecia, uma mensagem teria sido enviada a um grupo de Snapchat dos membros ativos da Chi Phi.
Segundo documentos citados nas reportagens, a jovem teria sido apresentada aos outros integrantes como estando “de graça” no andar de cima — uma referência sexual que, segundo seus advogados, ajudaria a demonstrar como a situação era tratada dentro do grupo.
A ação afirma ainda que outros integrantes apareceram depois dessas mensagens.
Ela denunciou — e depois pediu para sair
Jane Doe denunciou o episódio à polícia da Cornell semanas depois.
Mas o que aconteceu após a denúncia também se tornou parte importante da controvérsia.
Segundo o advogado da estudante, Thomas Giuffra, ela queria deixar Cornell depois do episódio e pediu uma forma de se afastar da universidade.
O pedido teria esbarrado na recusa da instituição em devolver sua tuition. Sem conseguir recuperar o valor pago, ela permaneceu matriculada e continuou frequentando um campus onde, segundo sua defesa, encontrava alguns dos homens que acusava de terem participado da violência.
Giuffra afirma que essa situação agravou o trauma da estudante.
Ela acabou deixando Cornell posteriormente e, segundo sua defesa, continua enfrentando consequências emocionais decorrentes daquela noite.
E o que Cornell fez com os acusados?
É justamente aqui que parte da indignação em torno do caso se concentra.
A ação e os advogados da estudante questionam se a universidade protegeu adequadamente a vítima e se as consequências impostas aos envolvidos foram suficientes.
Cornell rejeita a ideia de que tenha simplesmente ignorado o caso.
A universidade afirma que realizou uma investigação sob o Title IX, realizou audiências disciplinares e aplicou sanções que incluíram suspensões e expulsões. O capítulo da Chi Phi também foi fechado.
A instituição também contestou versões que circularam nas redes sociais segundo as quais os estudantes teriam recebido apenas redações como punição.
Ainda assim, a defesa de Jane Doe sustenta que alguns acusados permaneceram na universidade enquanto ela própria enfrentava dificuldades para continuar seus estudos e para se afastar do ambiente onde dizia não se sentir segura.
O contraste é uma das questões centrais levantadas hoje pelo caso: a jovem que denunciou a violência afirma ter sido obrigada, na prática, a continuar naquele ambiente enquanto parte dos homens que acusava também permanecia ligada à universidade.
E por que agora se fala em 57?
O caso ficou conhecido nas redes como “Cornell 7”, por causa dos sete homens nomeados na ação.
Mas um relatório oficial de Cornell registra 57 membros na Chi Phi no semestre de outono de 2024.
Esse número ganhou importância por causa do grupo de Snapchat usado pelos membros ativos da fraternidade.
Ainda não se sabe publicamente quantos dos 57 estavam no chat, quantos viram as mensagens ou quantos tinham conhecimento do que acontecia naquela madrugada.
Mas essa é justamente uma das perguntas que agora podem ganhar importância na investigação: quem sabia, quem respondeu e quem apareceu depois das mensagens?
Uma pessoa não precisa necessariamente executar pessoalmente todos os atos para que sua participação seja investigada. Assim como o motorista de um carro de fuga pode ter responsabilidade mesmo sem entrar no banco, alguém que deliberadamente incentiva ou auxilia um crime também pode responder por sua conduta.
Por isso, a discussão em torno dos 57 não é sobre declarar todos culpados antecipadamente. É sobre descobrir até onde chegou o conhecimento e a participação naquela noite.
O caso não resultou em acusações criminais na época
Apesar da denúncia feita em 2024, ninguém foi criminalmente acusado naquele momento.
O promotor do Condado de Tompkins, Matthew Van Houten, disse que o relato fornecido originalmente à polícia apresentava elementos diferentes daqueles que aparecem hoje na ação civil.
Segundo o promotor, a declaração inicial descrevia parte do uso de drogas e da atividade sexual como voluntária.
Os advogados de Jane Doe contestam essa interpretação e afirmam que a investigação original não considerou adequadamente o trauma da jovem nem todas as evidências disponíveis.
Uma das principais disputas envolve justamente as mensagens do Snapchat.
Van Houten afirma que sua Promotoria não teve acesso a algumas dessas mensagens durante a investigação original. A defesa de Jane Doe sustenta que a polícia universitária já possuía esse material.
Investigação é reaberta
Com a apresentação da ação civil e a divulgação das mensagens, Van Houten anunciou que o caso será novamente investigado e apresentado a um grand jury.
O grand jury decidirá se existem evidências suficientes para que acusações criminais sejam formalmente apresentadas.
O próprio promotor reconheceu publicamente que algo grave ocorreu naquela casa, embora tenha ressaltado que caberá à investigação determinar quais condutas podem ser criminalmente comprovadas.
Alguns dos homens citados na ação já negaram participação em uma agressão sexual e contestam a versão apresentada no processo.
Diego Sarabia perde emprego no Wells Fargo
A nova repercussão do caso também começou a produzir consequências profissionais.
Diego Sarabia, um dos sete homens nomeados na ação, trabalhava no Wells Fargo, em Charlotte, na Carolina do Norte.
Em 29 de setembro de 2026, foi divulgado que ele havia sido demitido após a reabertura da investigação e a repercussão nacional do processo.
A demissão não representa uma condenação nem uma conclusão judicial sobre seu envolvimento.
O que está no centro desse caso
O caso Cornell 7 não é apenas uma discussão sobre uma madrugada dentro de uma fraternidade.
É também sobre o que aconteceu depois.
Uma jovem diz ter sido violentada, denunciou o episódio e afirma que tentou deixar a universidade. Segundo sua defesa, não conseguiu recuperar o dinheiro pago, permaneceu no campus e continuou convivendo com a presença de alguns dos homens que acusava.
Cornell afirma que investigou, puniu estudantes e fechou a fraternidade.
Agora, quase dois anos depois, a Justiça terá de rever não apenas o que ocorreu naquela noite, mas também as mensagens, as pessoas que tiveram conhecimento delas e a maneira como o caso foi tratado desde a primeira denúncia.
A pergunta deixou de ser apenas quem estava dentro daquele quarto.
Passou a incluir também quem sabia, quem poderia ter agido e por que uma estudante que dizia ter sido vítima de violência sexual acabou sentindo que era ela quem precisava abandonar a própria universidade.
Fontes
Reuters — 28 de setembro de 2026: reportagem sobre a reabertura da investigação criminal, o grand jury e as posições da Promotoria, da estudante e de Cornell.
Associated Press — 28 de setembro de 2026: cobertura da ação civil, da investigação original e das medidas disciplinares anunciadas pela universidade.
People — 29 de setembro de 2026: reportagem sobre o pedido da estudante para deixar Cornell, a alegada recusa de reembolso da tuition e a afirmação de que ela precisou permanecer no campus.
People — setembro de 2026: entrevistas e reportagens sobre as mensagens do Snapchat, a reabertura da investigação e as versões apresentadas pelas defesas e pela Promotoria.
The Cornell Daily Sun — setembro de 2026: cobertura da ação civil, dos sete réus, da investigação universitária e da resposta oficial de Cornell.
Cornell University — Fall 2024 fraternity report: documento oficial que registra 57 membros na Chi Phi naquele semestre.
New York Penal Law § 20.00: legislação estadual sobre responsabilidade de quem solicita, incentiva ou auxilia intencionalmente outra pessoa na prática de um crime.

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