Texto de Kiki Garavaglia
Resolvi ir para essa cidade imperial. Poucas pessoas conhecem, e é uma pena, pois é do século XV, meio europeia e meio asiática. Ela tem avenidas com deslumbrantes mansões e seu lindo rio, margeado por bulevares com pinheiros e esculturas…
Quando olhei uma das típicas embarcações vietnamitas, não resisti. Andei até o portal chamado Noon, perguntei quanto custaria e passei uma tarde mágica observando a cidade e a grandiosidade das construções dos imperadores Nguyen, que governaram de 1802 até 1945, erguendo palácios, templos e galerias que nos lembram um mundo irreal!

A fascinação aumenta ao me deparar com um dos monumentos mais marcantes do país: a torre da pagoda Thien Mu, ou Torre da Mulher do Céu, com sete andares representando os acessos do purgatório até se chegar ao céu!

Nossa suave embarcação seguiu até o mausoléu do imperador Minh Mang, com seus pavilhões, pátios, portões, lagos e lindos jardins. Em seguida, você continua deslizando num passado glorioso e chega à majestosa mansão chamada La Résidence. Essa casa viveu vários acontecimentos até se tornar o excelente e lindo hotel que nos hospedamos! Inicialmente, em 1930, a mansão era a residência do alto governante da França, com arquitetura art déco, já que o bairro era o mais elegante, onde várias pessoas viviam em harmonia num oásis até a Primeira Guerra da Indochina.
Em 1945, o local se tornou sede do governo sul-vietnamita. Depois, em 1963, os vietcongues dominaram o país e a casa foi invadida, sendo que o representante francês se entregou de pijamas aos “sanguinários”, que nem deixaram ele mudar de roupa…
Após anos de embargos e conflitos, em 2000 o grupo Apple Tree comprou o que restou da casa e a transformou num excelente hotel.
Outra tarde inesquecível foi quando quis conhecer a cidadela imperial, onde se encontra a Cidade Proibida Púrpura, intacta apesar das guerras. Era o primeiro e último palácio real, somente usado pelos familiares reais, pelas concubinas e pelos eunucos… O último imperador, Minh Mang, entediado, teve 142 filhos!

Hue, hoje em dia, é uma das mais importantes cidades do Vietnam. Adoram andar de lambretas e motocicletas. E, num dia em que resolvemos sair sozinhas do hotel para passear, não conseguíamos atravessar a rua. Sem sinal, os carros e motos não paravam… Um inglês se aproximou de nós às gargalhadas e nos levou pelas mãos tranquilamente para atravessar — e todas as lambretas, motos e carros iam desviando de nós! Fechei meus olhos, dei a mão ao inglês e atravessei apavorada!
Meu nome é Maria Christina Nascimento Silva Garavaglia… mas, desde que nasci, me chamam de Kiki, e assim fiquei conhecida mundo afora, pois passei minha vida viajando… A primeira língua que aprendi foi o espanhol, pois meu pai foi enviado para a Argentina e ficamos em Rosário por 2 anos. Israel foi fundado em 1948, e lá fomos nós abrir o primeiro Consulado Brasileiro em Tel Aviv, em 1952. Aprendi a falar o hebraico e o árabe! Minha babá era palestina, como a maioria das pessoas lá naquela época. De 1955 até 1958, moramos em Roma e me tornei totalmente italiana… até competi pela Itália em competições de natação! Finalmente, fomos morar durante um ano no Rio de Janeiro. Me tornei uma “moleca” de rua, andando de bicicleta, de patins, com os amigos do bairro de Botafogo, onde morávamos — na maior farra. Em seguida, fomos morar em Londres, e as “alegrias” se foram… Fui para um colégio interno em Sevenoaks, onde só se podia falar após o almoço e, após o jantar, por meia hora. Costume esse de todas as inglesas na época… Um pesadelo com o meu temperamento! Voltamos a morar no Rio em 1966 e, um dia, na praia, conheci Renato. Após 6 meses namorando, me dei conta de que seria meu companheiro para o resto da vida!
Os anos passaram, meus pais morando em Viena. Já tinha duas filhas e passávamos as férias com eles na deslumbrante Embaixada do Brasil em Viena. Aproveitei para conhecer o Leste Europeu, deixando elas com os avós. Após uns anos, Renato odiando aeroportos, resolvi sair viajando pelo Sudeste Asiático, indo encontrar amigos que moravam em Bali… Lá pelos anos 70, resolvemos levar as filhas à Disney e ficar uns dias em Miami Beach. Me apaixonei por Miami Beach e nunca mais deixei de ir ao menos duas vezes por ano…
