Por Franciele Becuzzi
Depois de quatro anos sem lançar nada novo, o Interpol está de volta com o álbum “This Mirror Weighs a Ton”. É o oitavo disco da banda e o primeiro pela gravadora Partisan Records (mesma casa de nomes como IDLES e PJ Harvey), depois de anos ligados à Matador. E já adianto: valeu a pena esperar.
Uma curiosidade sobre o nome da banda
Antes de falar do álbum, vale contar uma curiosidade que pouca gente sabe: o nome Interpol não tem nada a ver com a polícia internacional. Paul Banks, o vocalista, nasceu na Inglaterra e morou em vários países quando criança, inclusive na Espanha. Lá, os amigos dele o chamavam de “Pol, Pol, Interpol” como apelido. Quando a banda precisou escolher um nome, ficaram com essa brincadeira. Outro detalhe interessante: Paul Banks entrou no grupo para ser o segundo guitarrista, não o vocalista. Ele só assumiu o microfone depois que Daniel Kessler e o então baixista Carlos Dengler ouviram ele cantar uma letra que tinha escrito e ficaram impressionados.
O que mudou nessa formação
Esse disco também marca uma mudança importante na banda. Brandon Curtis (que também tocou na banda Secret Machines) e Brad Truax passaram de músicos de turnê para membros oficiais do Interpol. Truax, inclusive, já tocou até na banda do Iggy Pop, e agora assina como compositor das linhas de baixo do álbum — um posto que ficou vago desde que Carlos Dengler saiu da banda, em 2010.
Bastidores da gravação
A produção ficou por conta de Andrew Wyatt, que já trabalhou com nomes como Rosalía, Charli XCX, Dua Lipa e Lady Gaga, com mixagem de Dave Fridmann. O disco foi gravado no estúdio do próprio Wyatt, em Nova York — a primeira vez em dez anos que o Interpol grava no próprio estado natal da banda. Outro toque pessoal: os vocais de apoio da faixa-título são da mulher do Paul Banks, Juliet Seger.
Até o título do álbum tem uma história curiosa: ele nasceu do processo de improviso vocal do Paul Banks, quando ele cria melodias e frases ao mesmo tempo, quase como uma escrita automática. A capa também chama atenção — é uma obra da artista Addie Wagenknecht, que faz parte do acervo do Whitney Museum, em Nova York, com um lustre feito de câmeras de vigilância. Combina bastante com o clima do disco, que fala sobre se sentir observado no mundo moderno.
Sobre o som do álbum
O que mais gostei foi como a produção deixou o som mais rico sem perder a identidade da banda. Tem cordas, instrumentos de sopro, violão e sintetizador, mas o Interpol continua soando como o Interpol. Faixas como “See Out Loud” e a faixa-título “This Mirror Weighs a Ton” mostram bem esse equilíbrio. O baixo marcante e a voz grave do Paul Banks continuam ali, mas as letras parecem mais abertas emocionalmente do que em discos anteriores.
“Wings on Fire” é daquelas músicas que crescem a cada vez que você ouve: começa mais quieta e vai ganhando força até virar praticamente um hino. Já “Wounded Soldier” fala sobre soldados enterrados sem que a família saiba onde eles estão, e “So Rides the Reindeer” comenta como a sociedade cai em teorias da conspiração. Nem tudo é peso, porém: “Wake Up” traz um respiro mais otimista, com o Paul Banks cantando sobre a esperança de um dia “acordar” de verdade.
A crítica especializada gostou bastante: o álbum recebeu nota 83 em 100 no Metacritic, classificado como “aclamação universal”. E parece que o público também está acompanhando: mais da metade dos 2,5 milhões de ouvintes mensais da banda no Spotify tem menos de 35 anos — prova de que o Interpol conquistou uma nova geração de fãs, e não só quem cresceu ouvindo eles nos anos 2000.
Um disco que reflete o momento da banda
Dá para sentir que esse disco reflete o momento de vida do grupo. Paul Banks está perto de completar 50 anos, e o Interpol já soma mais de 25 anos de carreira. Isso aparece nas letras, que trazem mais reflexão e vulnerabilidade, sem perder aquele clima elegante e um pouco sombrio que sempre foi a marca da banda. Para mim, é uma banda madura se reinventando sem perder sua identidade.
Faixas de “This Mirror Weighs a Ton”:
- This Mirror Weighs a Ton
- See Out Loud
- Iron City
- Wounded Soldier
- Wings On Fire
- Ever the Actor
- So Rides the Reindeer
- Darling Thoughts
- Wake Up
- Enemy
- Bird and The Serpent
- Sudden
Se eu tivesse que resumir esse álbum em uma frase, diria assim: é o som de uma banda que não precisa mais provar nada, mas continua querendo evoluir. E é justamente essa vontade que separa um grupo que só sobrevive de um grupo que continua relevante. Para quem cresceu ouvindo Interpol nos anos 2000, esse disco é como reencontrar um amigo antigo que mudou — para melhor.

Franciele Becuzzi escreve sobre música, cultura e tudo o que transforma o dia a dia em experiência — de shows e eventos a séries e descobertas pela cidade. Em Miami, acompanha de perto o que movimenta a cena cultural, com um olhar leve, curioso e atento aos detalhes. Eclética por essência, transita entre diferentes universos e linguagens, compartilhando experiências, referências e dicas que inspiram o leitor a explorar, assistir e viver mais.
