Valor Sentimental (Affeksjonverdi), de Joachim Trier, 2025
Nora é atriz de teatro em Oslo. Agnes é sua irmã. Gustav, o pai delas, interpretado por Stellan Skarsgård, é um diretor de cinema envelhecendo que abandonou a família quando Nora era criança. Depois que a ex-mulher morre, Gustav reaparece, mas não pra pedir desculpa. Ele quer escalar Nora no seu filme de comeback, um drama inspirado na própria mãe dele, Karin, que se suicidou na casa da família quando Gustav tinha sete anos. O filme é sobre o que acontece quando uma família se reencontra não pela vida, mas pela arte.
Ao contrário do que o nome indica, não há sentimentalismos
Valor Sentimental. A gente lê e espera a catarse. O drama de família, a reconciliação, o abraço no terceiro ato. Não vem. O que há, antes de tudo, é um grande enigma: a personagem central do filme que o Gustav está fazendo, baseada na mãe dele, uma pessoa real, cuja vida emocional e intenções continuam sendo um mistério para todos.
E talvez isso seja o mais bonito do filme. Existem tristezas que não se explicam. No amor, Elas se perpetuam. A dinâmica emocional da família se perpetua. O pai é self-absorbed. A filha também é. Ela criou uma prisão sentimental pra ela mesma. Ela se impõe um sofrimento. Como todas as mulheres do filme. Como todas as mulheres que estão de luto pelo desejo de uma figura masculina segura. De um pai. De um porto seguro que nunca existiu e que o cinema não vai consertar.
A tradição nórdica de ir pro fundo e não voltar
A primeira cena já entrega tudo. A Nora da Renate Reinsve tem um ataque de pânico antes de entrar no palco do Teatro Nacional de Oslo. Se debate nos bastidores, pede pro colega dar um tapa nela, rasga o vestido, perde a deixa. É engraçado e é insuportável. E eu não consigo não pensar em Persona, do Bergman. Uma atriz que paralisa diante do palco. Não é coincidência. É tradição. A tradição nórdica de cinema de ensemble, de atores e diretor que se conhecem tão bem que podem mergulhar juntos na alma humana e nas sombras mais profundas dela. Bergman fazia isso com Liv Ullmann, com Bibi Andersson, com Max von Sydow. Trier faz isso com Reinsve.
Quinze anos de parceria, quatro indicações de atuação
Trier conhece a Renate desde Oslo, 31 de Agosto, 2011. Ela tinha uma fala. Uma. Ele viu alguma coisa. Dez anos depois escreveu A Pior Pessoa do Mundo pra ela, com ela em mente. Ela ganhou melhor atriz em Cannes. Agora, Valor Sentimental, Grand Prix em Cannes com dezenove minutos de ovação de pé, e nove indicações ao Oscar, quatro delas de atuação: Reinsve pra melhor atriz, Skarsgård pra coadjuvante, Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas pra coadjuvante. Quatro indicações de atuação num filme só. Isso não é acidente. É o resultado de um cineasta que ensaia com o elenco, reescreve o roteiro a partir das improvisações, que persegue momentos verdadeiros. É cinema de pesquisa, de aprofundamento, de parceria entre artistas que gera uma obra que dialoga diretamente com a alma.
Realidade, não realismo
E há uma qualidade nos atores de Trier que eu preciso falar. É experiencial. Tudo parece tão real que a gente não consegue deixar de pensar no custo real que os atores do elenco, principalmente a Renate, tiveram ao representar aqueles personagens. A própria Reinsve disse que não acredita mais que atuar essas coisas seja necessariamente terapêutico. Que é preciso encontrar outras formas de processar. E o Trier disse que ele cria as condições pra que os atores fiquem crus, percam o controle, pra que pequenas coisas aconteçam neles que nem eles entendem completamente. Isso não é realismo. Realismo é uma estética, é uma escolha de linguagem. Isso é realidade. E o grau de realidade da atuação deste filme é trágico. Como a vida.
Cinema que olha pro cinema
E tem uma camada que eu acho muito bonita. O pai é diretor. A filha é atriz. A reconciliação acontece dentro de um set de filmagem. E o Trier, cujo avô Erik Løchen era cineasta norueguês, sabe do que está falando. Ele conhece esse lugar de dentro. Ele dialoga com a indústria americana sem juízo de valor, a Elle Fanning está ali, tem o Netflix dentro da trama, são tradições diferentes de se ver o que a gente faz. E eu adoro cineastas cujo filme a gente assiste e percebe que ele também está fazendo uma crítica sobre a indústria da visibilidade, do poder da imagem e da comunicação. E o Oscar é a epítome disso, né? E a gente tem, nessa cerimônia, uma diversidade enorme de tradições de atuação coexistindo, e isso tem sido muito excitante.
A minha favorita
Eu como atriz vou dizer sem papas na língua: a minha favorita pra melhor atriz é a Renate Reinsve. Numa categoria com Jessie Buckley, Emma Stone, Rose Byrne, Kate Hudson, todas extraordinárias, a Renate é a que fica. Porque ela mergulha perigosamente fundo em uma personagem. O risco é palpável, e a grandeza de sua performance também.

Anna Hartmann, atriz e diretora, nasceu em Porto Alegre, Brasil.
Na televisão, atuou em grandes produções de empresas mundialmente reconhecidas como Globo, HBO, FOX, MTV, Sony International e Netflix. Ela estrelou a série Reality Z (2020) da Netflix, coproduzida por Charlie Brooker (Black Mirror), e acumulou onze créditos na tela, incluindo dois em grandes longas-metragens, produzidos pela RT Features e Mercado Filmes. É Bacharel em Comunicação e Cinema pela FAAP. Seu primeira curta-metragem, Meu Outro Nome é Luiza, circulou internacionalmente e estreou no Brasil na Mostra de Cinema de Tiradentes (2022).
